Padre Levedo
Quinta-feira, Fevereiro 28, 2002
H. L. MENCKEN

Henry Louis nasceu em 1880 e morreu em 1956. Era um jornalista, no melhor sentido da palavra. Além de possuir uma cultura imensa, era sempre do contra. Americano, foi feroz inimigo do "American way of life". Seus artigos não poupavam ninguém. Governo, Igreja, a Lei Seca, a classe média, os ricos, os pobres, o jazz, os democratas, os republicanos, os racistas, os negros, os brancos, eram vigorosamente fustigados pela sua máquina de escrever. Maior iconoclasta da sua época, era curiosamente adorado pelas multidões. Todos o liam, com temor e prazer sadomasoquista. Mencken foi considerado o cidadão privado mais poderoso dos estados unidos. Admiro muito esse cara. Não é possível classificar Mencken, principalmente na época que vivemos, onde os jornalistas são pouco menos que prostitutas - estas, até onde sei, possuem um código de ética. Tudo, exceto beijo na boca.
A existência de Mencken me dá alguma fé na democracia. Este homem falou o que bem entendeu, do jeito que quis, sem meias-palavras, xingou todo mundo - principalmente os políticos, padres, advogados, e teve uma carreira brilhante durante quase meio século. E fez tudo isso sem ser rico e sem alianças escusas com o Poder Estabelecido. É impossível imaginar um jornalista como ele hoje em dia. É a crise de culhões.

Qualquer hora vou postar um artigo dele aqui. Aguardem.
Quarta-feira, Fevereiro 27, 2002
COLETIVO

Uma coisa que nunca compreendi de todo é a verdadeira obsessão que os brasileiros tem em relação a automóvel. É um fenômeno que daria um belo estudo de caso para os psiquiatras desocupados. Este fenômeno já foi, inclusive, explorado por uma certa campanha publicitária. Claro que o carro é utilíssimo em certas situações, mas as pessoas acabam apegando-se ao veículo de maneira patológica. Tem gente que não sabe viver sem carro.
E os acidentes de trânsito? Digo, não aqueles em que todo mundo morre, mas os que são irrelevantes, do tipo um amassadinho no pára-choque? Uma vez, presenciei uma cena lamentável: na subida da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, aqui em SanPablo, um fusca bateu na traseira de um Audi A4. Os danos no Audi foram, para dizer muito, apenas arranhões. Mas o dono, aparentemente um jovem executivo engravatado, desceu do carro ARMADO. Ele apontou uma pistola (acho que era uma Glock 9mm) para a cabeça do motorista do fusca, a essas alturas apavorado. Eu, que estava bebendo uma cervejinha na esquina, fiquei só olhando. O sujeito do Audi falou tantos palavrões para o cara do fusca, que fiquei até chateado. O cara, sob a mira da pistola, e coberto de impropérios, começou a chorar. O dono do Audi, então, se acalmou um pouco, e voltou para seu carro - não sem antes entortar a antena do fusquinha. Saiu cantando pneu, e sem olhar para trás.
Acho que os automóveis deixam as pessoas meio malucas.
Esses dias, fiz meu tradicional roteiro de almoço, que inclui descer a avenida Pamplona e atravessar a alameda Santos. É uma rua muito chata de atravessar do lado esquerdo, pois não dá tempo entre o abrir e fechar dos semáforos (que despejam toneladas de carros por segundo) para cruzar seus cinco metros. A solução é prestar atenção ao fluxo de trânsito e achar uma brecha para cruzá-la. Pois bem, num desses dias eu avaliei mal o vai-e-vem dos carros e forcei um Ford KA a frear para que eu pudesse passar. A motorista, enfurecida, urrou: ANIMAAAAAAAALLLLLL!
Não foi um grito, foi um urro mesmo. Fiquei assustado: uma pessoa que se irrita de maneira tão fácil assim bem que poderia ter me atropelado.
E o símbolo de status que o automóvel representa? Tem gente que se sente um pedaço de bosta, se não tem carro. E, depois que tem um carro, quer ter um carro melhor. Vejam o caso do Boris: empresário, bem-sucedido, começou com um Renault. Achando pouco, passou para um Volvo. Depois para um Ford Taurus. Aí pegou uma Mitsubishi Pajero com todos os acessórios e alguns extras. Quando foi parado no semáforo, o que parecia um mendigo puxou o revólver e gritou para ele sair do carro. Arriscando a vida, o Boris pisou fundo e passou o sinal, deixando o assaltante para trás. Depois disso, trocou a enorme caminhonete por um Fiat Uno.
Por essas e por outras, prefiro andar de ônibus. É mais barato. Quando se chega ao destino, não é necessário ficar procurando vaga ou pagar estacionamento (caríssimo, por sinal). O trânsito nos corredores de ônibus é (quase) sempre livre. Não existe stress nenhum. Pode-se ler durante o percurso, ou dar uma cochilada. Uma vez, de teimoso, peguei um táxi da casa para o escritório. Levou uma hora e me custou vinte e oito pratas. De ônibus, o mesmo percurso leva vinte minutos e custa um real e quarenta centavos. A despesa mensal, para quem usa ônibus durante 21 dias (média de dias úteis), ida e volta, é de $58,80. Se preferir usar o carro, só de estacionamento serão $180,00. E 28 horas perdidas no trânsito.
Ninguém acredita quando eu digo que não tenho nem pretendo ter carro. Acho que deve haver algo de errado comigo.
Segunda-feira, Fevereiro 18, 2002
ENRON

Interessante a falência da ENRON, Titanic da indústria de energia dos nossos donos, os EUA. Aqui neste quintalzinho verde-amarelo, serviçais fieis como Roberto Campos - títere absoluto do Interesse Maior Americano -, bradavam contra a regulamentação e a arbitragem do Estado, afirmando que a corrupção tinha mãe, e seu nome era União. Pois bem, desta vez o exemplo vem de cima: retira-se a arbitragem estatal em áreas vitais para o bem-estar comum, e a corrupção, paradoxalmente ou nem tanto, aumenta - chegando a um escândalo como o da ENRON. Milhares de americanos perderam não só o emprego mas as economias de toda uma vida com a evaporação do fundo de pensão da empresa (na qual tinham investimentos em ações). Operações para lá de escusas, conduzidas pela ENRON - coisas cujos detalhes fariam qualquer mafioso sentir-se um santo -, inflaram artificialmente o valor da empresa. Até que, certamente guiados por Deus ou por um sexto sentido, alguns executivos do alto escalão venderam todas as suas ações, dias antes de ser descoberta uma gigantesca quantidade de sujeira debaixo do tapete. Aí o preço dos papéis despencou.
Não se sabe ainda qual será o impacto deste mega-fiasco na economia americana. Só se sabe que, certamente, quem vai arcar com o prejuízo são as colônias, como o Brasil.
O Estado não é mais nem menos corrupto que a iniciativa privada. O problema é que o pessoal embolsa quantidades enormes de dinheiro e não só não devolvem como processam qualquer um que os chame, muito apropriadamente, de ladrão.
Sexta-feira, Fevereiro 15, 2002
A.I.

Aos incautos que eventualmente tropeçam neste nem-tão-modesto BLOG, informo que - para fins apenas esportivos - eventualmente trabalho com programação de computadores. É um hobby bastante interessante, pois demonstra o tempo todo que o ser humano não passa de um jumento (o que em si já seria uma ofensa aos jumentos. Antes que o pessoal do Greenpeace me processe por danos morais à imagem dos asininos, retiro o que disse). Explicarei, pois, porque é inviável a interação entre a humanidade e o computador:

1. o computador, quando funciona, é um mecanismo lógico;
2. o ser humano, apesar de ter inventado o computador, é um mecanismo ilógico (vide a re-eleição da nossa Briosa Mulatice Sorbônica, FH do seu C - aliás, o nome Fernando, associado à política, dá um azar danado, hem?);
3. computadores são programados por seres humanos, o que equivale mais ou menos a entregar a direção de um ônibus em alta velocidade a um cego bêbado - pombas, este ônibus bem que poderia estar cheio de advogados;
4. posso declarar, com conhecimento de causa, que estatisticamente os programas de computador bem escritos, claros, eficientes e bem documentados praticamente não existem;
5. para piorar um pouco a situação, é extremamente comum que programas sejam escritos por equipes de "profissionais", com qualificação e experiência variadas, onde cada um faz o que bem entende e o resultado é, previsivelmente, uma sopa de letrinhas.

Resumindo: é um verdadeiro milagre que, quando funcionam, os computadores funcionam. Mas, acredite, por trás daquela janelinha que aparece no seu micro, tem muita, mas muita sujeira.
Quarta-feira, Fevereiro 13, 2002
CERIMÔNIA MEMORIAL

Onde fica o cemitério dos deuses mortos? Algum enlutado ainda regará as flores de seus túmulos? Houve uma época em que Júpiter era o rei dos deuses, e qualquer homem que duvidasse de seu poder era ipso facto um bárbaro ou um quadrúpede. Haverá hoje um único homem no mundo que adore Júpiter? E que fim levou Huitzilopochtli? Em um só ano - e isto foi há apenas cerca de quinhentos anos - 50 mil rapazes e moças foram mortos em sacrifício a ele. Hoje, se alguém se lembra dele, só pode ser um selvagem errante perdido nos cafundós da floresta mexicana. Huitzilopochtli, como muitos outros deuses, não tinha um pai humano; sua mãe era uma virtuosa viúva; nasceu de um inocente flerte dela com o sol. Quando ele resmungava, seu pai, o sol, ficava quieto. Quando trovejava de ira, terremotos engoliam cidades inteiras. Quando tinha sede, era saciado por 5 mil litros de sangue humano.
Falando em Huitzilopochtli, logo vem à memória seu irmão Tezcatilpoca. Tezcatilpoca era quase tão poderoso: devorava 25 mil virgens por ano. Levem-me a seu túmulo: prometo chorar e depositar uma couronne des pedes. Mas quem sabe onde fica? E onde fica o túmulo de Quitzalcoatl? Ou o de Xiehtecutli? Ou o de Centeotl, aquela gracinha de deus? Ou o de Tlazolteotl, a deusa do amor? Ou o de Mictlan? Ou o de Xipe? Ou os restos de Tzitzimitles? Onde estão seus ossos?
Onde fica o salgueiro onde eles penduraram suas harpas? Em qual Inferno perdido e desconhecido esperam pela ressurreição? Quem desfruta suas heranças? E onde fica o túmulo de Dis, de quem César dizia que era o principal deus dos celtas? Ou o de Tarves, o touro? Ou o de Moccos, o porco? Ou o de Epona, a égua? Ou o de Mullo, o asno celestial? Houve uma época em que os irlandeses reverenciavam todos esses deuses, mas hoje até o mais bêbado deles só consegue rir disto.
Mas eles têm companhia no oblívio: o Inferno dos deuses mortos é tão superlotado quanto o Inferno presbiteriano para bebês. Damona está num deles, assim como Ésus, Drunemeton, Silvana, Dervones, Adsalluta, Deva, Belisama, Uxellimus, Borvo, Grannos e Mogons. Todos deuses poderosos em seu tempo, adorados por milhões, cheios de exigências e imposições, todos capazes de unir e desunir - enfim, deuses de primeira classe. Durante gerações, os homens trabalharam para construir-lhes vastos templos - cada qual com pedras do tamanho de um bonde. O trabalho de interpretar os seus caprichos ocupava milhares de sacerdotes, bispos e arcebispos. Desafiá-los significava a morte, geralmente na fogueira. Os exércitos os defendiam contra os infiéis: cidades eram queimadas, mulheres e crianças chacinadas, seu gado afugentado. No fim das contas, no entanto, todos declinaram e morreram, e, hoje, não se encontra uma única alma penada para reverenciá-los.
O que terá acontecido a Sutekh, antigo deus de todo o vale do Nilo? O que terá acontecido a:

Resheph Baal
Anath Astarte
Ashtoreth Hadad
Nebo Dagon
Melek Yau
Ahijah Amon-Ra
isis Osíris
Ptah Molech?

Todos estes foram deuses da mais alta eminência. Muitos são mencionados com temor e respeito no Velho Testamento. Há cinco ou seis mil anos, estavam taco a taco com o próprio Jeová, e o mais galinha-morta de todos era muito superior a Thor. Pois foram todos para o nada e, com eles, os seguintes:

Arianrod Nuada Argetlam
Morrigu Tagd
Govannon Goibniu
Gunfled Odim
Dagda Ogma
Ogyrvan Marzin
Dea Dia Marte
luno Lucina Diana de Éfeso
Saturno Robigus
Furrina Plutão
Cronos Vesta
Engurra Zer-panitu
Belus Merodach
Ubilulu Elum
U-d immer-an-kia Marduk
U-sab-sib Nin
U-Mersi Perséfone
Tammuz Istar
Vênus Lagas
Beltis Nirig
Nusku Nebo
Aa En-Mersi
Sin Assur
Apsu Beltu
Elali Kuski-banda
Mami Nin-azu
Zaraqu Qarradu
Zagaga Ueras

Peça ao seu vigário que lhe empreste um bom livro sobre religião comparada: você encontrará todos eles devidamente listados. Todos foram deuses da mais alta dignidade – deuses de povos civilizados -, adorados e venerados por milhões. Todos eram onipotentes, oniscientes e imortais. E todos estão mortos.


Sábado, Fevereiro 09, 2002
SÓ PARA ELAS

Tropecei num site (www.soparaelas.com.br) que é absolutamente hilariante. Vejam o artigo de um psicólogo português sobre como agradar os homens na cama (seção "sexo") - é um clássico. Vejam as dicas para a escolha de um imóvel baseadas em técnicas de feng shui. Tudo repleto de erros gramaticais, generalizações grosseiras e obviedades gritantes. É sério candidato a melhor site de humor involuntário de 2002.
Quinta-feira, Fevereiro 07, 2002
CAMÕES TUPINIK

Saiu na re-edição do excelente "Jornal Dobrabil" - criação de um dos maiores intelectuais pervertidos deste Salvelindo, Glauco Mattoso - a seguinte nota singela (isso foi escrito em algum ponto obscuro entre 1977 e 1981):

"Deu na VISÃO que deu no CORREIO DO CEARÁ: José Valdário Lima, batedor de carteira, estava recolhido a um xadrez da Delegacia de Roubos e Furtos, em Fortaleza. Todos os dias, por volta das 14 horas, os presos são retirados do xadrez para o banho. Valdário, aproveitando esta oportunidade, enlameou-se com fezes no sanitátio e saiu correndo, coberto de cocô da cabeça aos pés, exalando um cheiro de matar de inveja a mais fedorenta das gambás. Os policiais chegaram a ensaiar uma perseguição mas desistiram, tal o nojo sentido e o temor de um corpo-a-corpo com o 'merdolengo' fujão."

Leiam o Jornal Dobrabil. Saiu pela editora Iluminuras.
Sábado, Fevereiro 02, 2002
BLACK SABBATH

No dia 4 de fevereiro - próxima segunda-feira - este Sacerdote que vos fala estará celebrando seu aniversário. Na mansão maldita, de onde envio estas breves notas filosóficas, haverá um culto pagão em homenagem a Baco e a Vênus. Todas as leitoras deste blog (palavrinha horrível, essa) estão automaticamente convidadas, desde que compareçam desacompanhadas e falem a senha, que é "felatriz", para o porteiro.
BIODIVERSIDADE

O menininho pergunta pra mãe:
- Mamãe, mamãe! Por que você é branca, papai é negro e eu sou japinha?
- Ah, meu filho! Se você soubesse a farra que houve naquele dia... Você deveria estar contente por não latir!
ESCOLHA O ADESIVO DO SEU CARRO

"Se rodar o guarda pega, se parar o banco toma..." (adesivo em lotação clandestina em S.P)

"Aqui é como o World Trade Center, só entra avião!!!"

"Sexo demais prejudica a memória e outra coisa que não lembro agora."

"Sob NOVA DIREÇÃO: recém desquitada" (colado em um corsa dirigido por mulher em S.P)

"Mulher de minissaia é o mesmo que cerca de arame farpado, cerca a propriedade, mas não tapa a visão."

"Respeite a mulher do próximo, principalmente se o próximo estiver muito próximo."

"99% da beleza feminina sai com água e sabão."

"O verdadeiro homem não é aquele que conquista várias mulheres, mas sim aquele que conquista uma mulher várias vezes."

"A inveja é uma merda" (colado em um Audi TT)

"Se você estiver sem calcinha, dá uma risadinha."

"Como estou dirigindo? Mal? Dane-se, o carro é meu!"

"De 0 a 100 Km/h em 15 minutos" (colado em uma Brasília)

"Na subida, paciência; na descida, dá licença!"

"Não sou palmeirense mas carrego a torcida." (colado na traseira de um caminhão frigorífico de produtos suínos)

"Feliz foi Adão que não teve sogra e nem caminhão."

"20 Buscar 100 demora 60 aqui e vamos embora."

"Como estou dirigindo? Disque 0800 Vá à Merda"