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ANTES E DEPOIS
Há os que passam todo o ano pensando nas férias e todo o ano seguinte se recuperando delas - ou pensando em como pagá-las. Muitas vezes, mais importante do que as férias são o antes e o depois. Alguns se divertem tanto planejando suas férias que quase dispensam as férias. Outros vêem férias apenas como um pretexto para fotografar tudo o que puderem com a maior rapidez possível e só depois, mostrando os slides para os amigos, enxergarem por onde andaram.
- Aquele sou eu com a Magali.
- E aquilo no fundo o que é?
- No fundo? É o Oceano Atlântico. Não, o Pacífico. Ou será o Atlântico?
O antes e o depois. Muitas vezes é grande o contraste entre o que se diz antes das férias e depois das férias. Por exemplo:
Antes: "Vou chegar em casa, botar meu pijama e passar trinta dias de papo para o ar. Só me mexendo para coçar o pé. Uma bebidinha, um churrasquinho, e deixa o tempo passar..."
Depois: "Como o tempo custou a passar! O dia inteiro sem fazer nada. Saco. Briguei com a família, briguei com todo mundo. Depois de uma semana nem eu me agüentava dentro de casa. Ainda bem que acabou. E não me falem em churrasco durante um ano!"
Antes: "Está tudo minuciosamente planejado. Reservas de hotel, conexões de vôos, fusos horários, tudo. Vai funcionar como um relógio."
Depois: "Como se não bastasse o extravio das duas malas que foram parar em Sri Lanka, o hotel que a agência nos reservou em Londres não existe mais. Agora é um parque de estacionamento. E por que ninguém me disse que na Europa é 4 horas mais tarde, não mais cedo? Passei uma semana jantando ao meio-dia e tomando café da manhã às 10 da noite. No mais foi tudo bem. Fora a perda dos passaportes e o assalto em Palermo."
Antes: "Vai ser sensacional rever a tia Idalina e os primos de Vitória depois de dez anos."
Depois: "A tia Idalina ainda vá, mas o marido... Depois de dois dias nem podíamos nos olhar. E o desgraçado ainda recortava os artigos do Fernando Henrique. E os primos? Estão uns monstros! A mais velha, inclusive, é sadomasoquista."
Antes: "Ah! A praia, o mar, o sol...”
Depois: "Bicho-do-pé, queimaduras generalizadas, intoxicação alimentar, o Júnior quase se afogou duas vezes... E os preços!"
Antes: "Vamos pegar o carro e sair por aí, sem rumo."
Depois: "Quebrar o carro não foi nada. Pior foi ter que dormir três dias na casa de um caboclo maluco que dormia na mesma cama com uma mula chamada Doroti e dizia que era primo distante do diabo.”
Antes: "Vamos acampar no mato. Um mês ao ar livre. Contato com a natureza. Isso é que é vida saudável!"
Depois: "Só para dar uma idéia: uma noite os mosquitos levantaram a Jandira do chão, com saco de dormir e tudo, e teriam levado ela para o mato se nós não tivéssemos segurado com força. Mas levaram a Kombi."
Antes: "Vou aproveitar para pôr em dia minha leitura."
Depois: "Olha, comecei a ver "O Clone", me interessei, acabei não lendo nada."
Antes: "Chego em Punta del Este e vou direto para o cassino. Ganho uma bolada e pago todo o veraneio. Meu sistema não falha."
Depois: "Mande dinheiro pt Sem tostão para pagar hotel et ameaçado prisão pt Urgente."
CANÍCULA
Graças aos deuses permaneço a salvo do execrável calor que emana desta imensa frigideira de concreto e asfalto chamada San Pablo. Completei uma semana sem usar sapatos. Apenas de bermuda e chinelo, tenho passado aprazíveis momentos ociosos ao lado de alguns vinhos verdes (na temperatura aproximada de oito graus centígrados), repassando a filmografia de Kubrick e meditando sobre a situação no Oriente Médio. Descobri que, de fato, não é necessário sair de casa, basta ter um telefone para que o mundo esteja aos nossos pés - apesar de o sashimi e as rubatas que encomendei ontem não estarem lá estas coisas. Tsc, tsc... Bem, obviamente estou produzindo vários textos imperecíveis para as letras nacionais, porém estes serão ministrados em doses homeopáticas. Já fui criticado por ser muito afoito e passional quando se trata da publicação de textos, portanto irei experimentar um pouco de edição, alteração, mutilação e cut-off. Dá licença que vou abrir uma garrafa de "Casal Garcia".
DA SÉRIE "MICRO ENSAIOS": PAIXÃO
Algumas vezes os homens buscam o corpo de uma mulher para poder esquecê-la. A posse (nunca entendi a razão de ser deste termo, visto que nem da nossa vida somos proprietários), como se fosse o exorcismo de um desejo intolerável, afastaria a imagem idealizada de uma mulher. E, aparentemente, isso é verdadeiro. Como diria Aristóteles, contra fatos não há argumentos. Contra fodas não há fantasias. O pior é quando, em não se consumando o ato, ficamos na situação "e se...". E se eu dissesse a frase certa? E se eu aparecesse nu com dois cálices de vinho? E se não fôssemos perturbados pela volta imprevista de um parente, justamente quando a coisa estava esquentando? Há alguma possibilidade de esquecer uma mulher com a qual trepamos. Agora, esquecer uma mulher com quem NÃO trepamos, isso é impossível. Porém, as mulheres que conhecemos carnalmente (selvagem, esta expressão!) e que não esquecemos, estas são as essenciais.
HEAVEN
Hoje não fiz bosta nenhuma, exceto ler e escrever. Tempo feio em SanPablo. Muito calor. O menu do almoço foi uma bandeja de sushis e várias fatias de salmão cru e resfriado, acompanhados de saquê, wasabi e shoyu. Existe - talvez - uma felicidade em ser louco que, seguramente, só os loucos conhecem.
PADRE LEVEDO DE FÉRIAS !
Evito falar demasiadamente sobre a minha pessoa - e admito que falho nisso -, porém comunico aos eventuais leitores deste BLOG que saí de férias por duas semanas. Agora terei tempo livre para ler, escrever, desenhar, cozinhar, encher a cara e cuidar do meu cachorro (o nome dele é Allan Holdsworth - vide seção "resenha musical", para saber quem é). Êta nóis!
Isso não significa que abandonarei o site, pelo contrário. Agora vocês vão ver. Agora vocês me pedirão clemência!
DA SÉRIE "MICRO-CONTOS"
Bruno entrou no elevador vazio e suspirou. Quase meio-dia, horário de almoço. Uma espécie de oásis no meio do deserto da rotina. Nunca almoçava com os colegas de escritório: as conversas sempre tendiam para assuntos do trabalho, que era tedioso, brutal e frenético. Bruno queria esquecer, ao menos por uma hora, esta realidade. Cumpriu seu ritual de almoço, repetido por meses e meses. Primeiro parou na banca de jornal. Olhou as revistas semanais e escolheu, indiferente, uma delas. Foi caminhando até o fim da rua, até chegar ao boteco mais asqueroso das redondezas. Sabia que, ali, jamais correria o risco de encontrar qualquer colega de trabalho. Eles provavelmente desmaiariam ao cruzar a porta de entrada.
No balcão de vidro que estava na sua frente, o prato do dia: panqueca. Numa bandeja imunda de alumínio, os rolos de massa grossa, recheados com sabe Deus o que, boiavam num molho de vermelho estridente, para lá de artificial.
Havia muitos lugares vagos no outro balcão, ao lado. Bruno se sentou e pedi uma vodka e uma cerveja. Abriu a revista e começou a ler, como sempre fazia. Esta rotina, ao menos, lhe era agradável.
De vez em quando, levantava o olhar e meditava sobre as notícias que acabara de ler, procurando na multidão que passava em frente ao bar uma nádega feminina. Numa dessas ocasiões, percebeu que o proprietário do bar se preparava para lhe dizer alguma coisa.
"por favor, não fale comigo! por favor, não fale comigo!", repetia mentalmente Bruno, numa patética tentativa de reverter o inevitável com algum tipo de exorcismo telepático.
- O SENHOR LÊ MUITO, NÃO É?
- ãrrã.
- EU LEIO BASTANTE, TAMBÉM.
- hum.
- LEIO MUITO OS LIVROS DO MEU PROFESSOR, O RAIR LIBEIRO.
- sim.
- O SENHOR JÁ LEU ALGUMA COISA DELE?
- não.
Neste ponto, o homem pegou um copo e encheu pela metade. Colocou na frente de Bruno.
- O QUE O SENHOR ESTÁ VENDO?
- um copo.
- E COMO ESTÁ ESSE COPO?
Meu Deus, pensou Bruno, esse cara não vai desistir. Melhor partir logo para o ataque.
- ele está meio cheio.
- ISSO! É ASSIM O PENSAMENTO POSITIVO DO PROFESSOR RAIR! TEM GENTE QUE DIZ QUE O COPO ESTÁ MEIO VAZIO, MAS ISSO É NEGATIVO! TEM QUE DIZER QUE ESTÁ MEIO CHEIO!
Bruno pensou: cruzes, é um caso perdido. Tudo bem, você é que pediu. Lá vai.
- ok, mas o pensamento positivo só é possível de modo abrangente depois de uma bem-sucedida regressão às vidas passadas.
O homem parou, pensando por um instante.
- COMO É QUE É?
- sim, você tem que descobrir quem você era nas suas vidas passadas.
- E COMO SE FAZ ISSO?
- ora, está cheio de especialistas que fazem isso por aí.
- COMO É O NOME MESMO? DEIXA EU ANOTAR.
- "regressão a vidas passadas". pode ir que é muito bom.
Finalmente o homem se afastou. Bruno notou uma baratinha andando por cima do balcão. Deu um peteleco nela.
MENCKEN EM PESSOA
Este artigo, de 1920, foi redigido por Henry Louis Mencken.
MEDITAÇÃO SOBRE A MEDITAÇÃO
A capacidade do homem para o pensamento abstrato, que parece faltar à maioria dos outros mamíferos, sem dúvida conferiu-lhe seu atual domínio sobre a superfície da Terra - um domínio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insetos e organismos microscópicos. Este pensamento abstrato é o responsável por sua sensação de superioridade e por que, sob esta sensação, existe uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que é freqüentemente subestimado é o fato de que a capacidade de desempenhar um ato não é, de forma alguma, sinônima de seu exercício salubre. É fácil observar que a maior parte do pensamento do homem é estúpida, sem sentido e injuriosa a ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclusões apropriadas nas questões que afetam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das idéias dos ratos, chegando a noções tão ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia, a danação infantil ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de fato, nunca se dirige para o que,é sólido e verdadeiro; prefere tudo que é especioso e falso. Se uma grande nação moderna se confrontar com dois problemas conflitantes - um deles baseado em argumentos prováveis e racionais, o outro disparando em direção ao erro mais óbvio -, ela, quase invariavelmente, adotará este último. Isto se aplica à política, que consiste inteiramente numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a qualquer declaração lógica.
Acontece o mesmo na religião, que, como a poesia, não passa de uma partitura orquestrada para negar as mais óbvias realidades. E é assim em quase todos os campos do pensamento. As idéias que mais rapidamente conquistam a raça, levantam os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas com a maior tenacidade, são justamente as mais insanas. Isto pode ser provado desde que o primeiro gorila "avançado" vestiu cuecas, franziu a testa e saiu por aí dando conferências. E será assim até que os poderes superiores, finalmente cansados desta farsa, exterminem a raça com um gigantesco e definitivo coquetel de fogo, gases mortais e estreptococos.
Não surpreende que a imaginação do homem seja a culpada por esta singular fraqueza. Tal imaginação, eu diria, foi o que lhe permitiu dar o seu primeiro salto sobre seus colegas primatas. Permitiu-lhe visualizar uma condição de existência melhor do que a que ele vinha experimentando e, pouco a pouco, tornou-o capaz de retocar o quadro com uma certa realidade crua. E até hoje ele continua do mesmo jeito. Quer dizer, ele pensa em qualquer coisa que gostaria de ser ou ter, algo bem melhor do que ele já é ou já tem, e, então, por um processo custoso e difícil de erros e acertos, gradualmente chega ao que quer. Durante o processo, muitas vezes é severamente punido por seu descontentamento com as sagradas ordens de Deus. Rói as unhas, coça o, queixo, tropeça e cai e, finalmente, o prêmio que ele tanto buscava derrete em suas mãos. Mas, aos pouquinhos, ele segue em frente ou, na pior das hipóteses, passa o bastão a seus herdeiros ou sucessores. Pouco,a pouco, ele asfalta o caminho para sua perna restante e conquista belos brinquedos para a mão que lhe resta, com os quais brinca, e permite a seu olho ou ouvido sobrevivente desfrutar aquela delícia.
Infelizmente, nunca se contenta com este processo lento e sanguinário. Está sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive imaginando coisas além do arco-íris. Este corpo de imagens constitui seu estoque de doces credulidades, fé e confiança - em suma, seu fardo de erros. E este fardo de erros é o que distingue o homem, mesmo acima de sua capacidade de chorar, seu talento para mentir, sua excessiva hipocrisia e bazófia, de todas as outras ordens de mamíferos. O homem é o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo - por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro.
A capacidade para discernir a verdade essencial, de fato, é tão rara nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. O homem capaz desse discernimento é de uma qualidade mais do que extraordinária - mesmo, talvez, que seja profundamente mórbido. Demonstre uma nova verdade lastreada de qualquer plausibilidade natural para uma multidão, e nem uma pessoa em 10 mil suspeitará de sua existência, e nem uma em 100 mil irá adotá-la sem feroz resistência. Todas as verdades duradouras que se impuseram ao mundo no decorrer da História foram mais combatidas do que a varíola, e todo indivíduo que as recebeu bem e lutou por elas foi, absolutamente sem exceção, denunciado e punido como um inimigo da espécie. Talvez o "absolutamente sem exceção" seja um exagero. Eu o substituiria por "cinco ou seis exceções". Mas quem seriam essas cinco ou seis exceções? Deixo a resposta a cargo de vocês; eu próprio não conheço nenhuma.
Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos. Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o beau ideal da humanidade. Dê um giro pelos últimos mil anos da História e você descobrirá que 90% dos ídolos populares do mundo - não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas a ídolos mundialmente populares - não passaram de mascates baratos de nonsense. Tem sido assim em política, religião e em qualquer outro departamento do pensamento humano. Mesmo tal mascate já enfrentou alguma oposição, uma vez ou outra, de críticos que o denunciaram como charlatão e o refutaram assim que ele abriu a boca. Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da credulidade humana, e isto bastava para destruir seus inimigos e estabelecer sua imortalidade.