Padre Levedo
Terça-feira, Maio 28, 2002
GIOVANNI BOCCACCIO

O autor do "Decameron" viveu entre 1313 e 1375. Era de Firenze, na Itália, e sobreviveu à peste negra - que ceifou um terço das almas na Europa, lá pelos idos de 1348. O Decameron são cem narrativas curtas, onde o tema recorrente é a implantação de cornos no(a) parceiro(a). Mas há muito mais do que isso: Boccaccio mudava de estilo com uma facilidade impressionante. O "Decameron" é múltiplo, espantoso, e é uma delícia. Não me canso de percorrer as suas páginas. Fala aí, Giovanni!

EXPLICAÇÃO PRELIMINAR: as narrativas são relatadas por dez pessoas que fugiram da peste negra e refugiaram-se num castelo. Estas pessoas elegiam um rei ou uma rainha que presidia seus saraus. Nesta narrativa, especificamente, reaparecem as figuras de Bruno, Calandrino e Buffalmacco, todos pintores. Calandrino sempre é sacaneado pelos outros, pois é muito ingênuo. Tessa é sua mulher. Mestre Simão é um curandeiro picareta.

TERCEIRA NOVELA

Tendo Elisa terminado a sua novela, todas as mulheres do grupo agradeceram a Deus pelo fato de a jovem freira Isabetta ter-se livrado, com uma saída agradável, das garras de suas invejosas companheiras. Depois, ordenou a rainha a Filóstrato que continuasse. E Filóstrato, sem aguardar nova ordem, principiou:
- Lindíssimas mulheres, aquele juiz marquesão, de maus costumes, do qual lhes falei ontem, me impediu de lhes contar um episódio de Calandrino que eu estava prestes a lhes narrar. Como, entretanto, tudo quanto se afirma de Calandrino não faz mais do que aumentar a alegria, não obstante já se ter discorrido muito a respeito dele, ou de seus companheiros, mesmo assim quero contar-lhes a novela que ontem eu tinha em mente, e que na minha mente ficou.
Foi claramente demonstrado, em novelas precedentes, quem era Calandrino, e quem eram igualmente as demais personagens, a respeito das quais vou discorrer na presente novela; em tais circunstâncias, sem mais circunlóquios, afirmo-lhes que aconteceu morrer uma tia de Calandrino. A tia deixou-lhe 200 liras, em pequenas moedas divisionárias. Por isso, Calandrino pôs-se a dizer que queria adquirir um sítio; além do mais, abriu conta em todas as mercearias de Florença, como se possuísse 10000 florins de ouro para gastar; porém, todas as negociações eram desfeitas, logo que se chegava a falar do preço pedido pelo sítio que ele queria comprar. Brulo e Buffalmacco conheciam estas circunstâncias; e muitas vezes lhe deram conselhos, afirmando que ele procederia muito melhor se desfrutasse aquele dinheiro, junto com eles, em lugar de procurar adquirir terra, como se devesse fazer bolinhas com ela; entretanto, não só não conseguiram levar Calandrino a pensar deste modo, como ainda nem mesmo chegaram a convencê-lo a pagar-lhes ainda que fosse uma só refeição.
Por isso, Bruno e Buffalmacco queixaram-se bastante, em certo dia; neste ponto, entretanto, surgiu um colega deles, um tal de Nello que também era pintor; os três, então, resolveram encontrar o meio de pôr a mão no dinheiro de Calandrino; não perderam demasiado tempo em pensar; logo combinaram, entre si, o que cada um faria; e, na manhã seguinte, puseram-se os três de tocaia, para apanhar Calandrino logo que este deixasse sua casa; Calandrino ainda não andara uma curta distância, e já o pintor Nello foi ao encontro dele, e disse-lhe:
- Bom,dia, Calandrino!
Calandrino, em resposta, desejou-lhe que Deus lhe desse um bom dia e um bom ano. Em seguida, Nello, detendo-se um pouco, começou a olhar para ele em pleno rosto. A isto, perguntou Calandrino:
- Que está você olhando?
E Nello esclareceu:
- Será que você sentiu algo, esta noite? Em todo caso, você não parece já o mesmo.
Calandrino começou logo a descrer; e disse:
- Pobre de mim! Que indagação é esta? Que lhe parece que eu tenho?
Nello explicou:
- Meu Deus! Não foi por esta razão que lhe fiz a pergunta; porém o certo é que você, hoje, parece-me completamente mudado. Pode ser outra coisa.
E deixou que Calandrino fosse embora. Calandrino ficou cheio de desconfiança, pois não se sentia mal nem sofria de nada neste mundo; porém, foi em frente. Contudo, Buffalmacco, que estava um tanto mais além, vendo-o desligar-se de Nello, foi ao seu encontro; cumprimentou-o; e indagou-lhe se, por acaso, estava sentindo-se mal. Calandrino retrucou-lhe:
- Não o sei. Há pouco Nello me disse que eu lhe parecia completamente mudado. Afinal, será que eu estou padecendo de alguma coisa?
Buffalmacco confirmou:
- Sim. Pode ser que sofra de um nonada; e você supõe que isto seja pouca coisa? Sabe o que você me parece? Meio morto.
Calandrino tinha já a impressão de estar com febre. E eis que surge Bruno; e este, antes de falar alguma coisa, foi exclamando:
- Calandrino! Que cara é esta? Até parece que você está morto! Que é que você tem?
Após ter escutado cada um dos três amigos falar daquela maneira, Calandrino ficou inteiramente convencido de que realmente deveria estar doente; e, inteiramente amedrontado, perguntou-lhe:
- Que acha que devo fazer?
Bruno aconselhou:
- Penso que deve retornar a casa e ir logo para a cama, ordenando que o cubram bem; convém que mande a sua urina ao Mestre Simão, que é uma nossa notabilidade, como você bem sabe. Vai ele examinar o material. Em seguida, dir-lhe-á o que você fará; iremos com você; e, se preciso for fazer alguma coisa, faremos.
Nello reuniu-se ao grupo; e todos, com Calandrino, voltaram à casa dele. Calandrino foi para seu quarto, completamente abatido; e, à esposa, disse:
- Venha comigo, e trate de me cobrir, pois estou sentindo-me muito mal.
Após ter-se acomodado na cama, Calandrino mandou, por uma sua empregadinha, a amostra de urina ao Mestre Simão; este médico possuía seu estabelecimento, naquele tempo, no Mercado Velho, sob a insígnia do melão.
E disse Bruno aos seus colegas:
- Fiquem vocês aqui com ele; desejo ir conhecer a opinião do médico; se necessário, farei com que ele venha até aqui.
Calandrino rogou, então:
- Pelo amor de Deus! meu caro colega! Vá perguntar; em seguida, queira vir informar-me a situação em que me acho, pois estou sentindo alguma coisa esquisita, aqui dentro.
Partiu Bruno para a casa do Mestre Simão, ali chegando antes que aparecesse a empregadinha que saía com a amostra da urina; deste modo teve tempo de acertar tudo com o Mestre Simão. Quando a empregadinha chegou, o mestre examinou a urina; e falou à jovem:
- Vá para casa; diga a Calandrino que ele deve ficar bem aquecido; irei visitá-lo sem demora; então, a ele mesmo, direi o que ele tem e o que deverá fazer.
Voltou a empregadinha para casa e deu o recado a Calandrino. Passado pouco tempo, chegaram o Mestre Simão e Bruno. O médico sentou-se à beira da cama; procurou tomar o pulso do doente; depois de certo tempo, solicitou a presença da esposa de Calandrino, e disse:
- Escute aqui, Calandrino: para lhe falar como a um amigo, devo dizer-lhe que outra coisa você não tem senão simplesmente gravidez.
Calandrino, logo que escutou esta explicação, pôs-se a gritar, dolorosamente, dizendo:
- Pobre de mim! Tessa! Você é que me fez isto, por não querer estar senão por cima de mim! Bem que eu lhe falava!
Sendo pessoa muito honesta, a mulher ficou toda corada ouvindo o marido falar deste modo; abaixou a cabeça; não disse nada; e deixou o quarto. Continuando com as suas lamentações, Calandrino bradava:
- Deus meu! desgraçado que sou! Que devo fazer agora? Como poderei eu dar à luz este filho? Por onde ele vai poder sair? Estou bem vendo que me acho morto de ódio desta minha esposa! Deus que a faça tão infeliz como quero eu ser feliz; se me sentisse em bom estado de saúde, coisa em que não me sinto, sairia desta cama e iria dar-lhe urna boa sova, até que lhe quebrasse todo o corpo; por fim, isto é muito bem feito para mim, pois jamais a obrigava a sair de cima; contudo, não há dúvida de que, se me safo desta, bem que ela vai morrer de vontade, se não quiser mudar de modo.
Bruno, Buffalmacco e Nello tinham tanta vontade de rir, que estavam a ponto de estourar, ouvindo as palavras de Calandrino; ainda assim, conseguiam dominar-se. Entretanto, o Mestre Simão (que mais era um símio grande do que um Simão) ria-se a bandeiras despregadas, abrindo de tal modo a boca, que fácil seria arrancar-lhe todos os dentes. Não obstante, com o passar dos minutos, Calandrino acabou rogando ao médico, a fim de que ele lhe desse conselhos muitos e auxílio bastante; então, disse o mestre:
- Calandrino, não desejo que você fique amedrontado, pois graças a Deus, nós logo constatamos o fato; mais alguns dias, e com pouco trabalho, eu farei com que você dê à luz; contudo, será preciso despender alguma coisa.
Calandrino deu-se pressa em exclamar:
- Deus meu! Mestre Simão! Sim. Faça-se, pelo amor de Deus! Tenho, aqui, 200 liras, e desejava com elas comprar um pequeno sítio; se for necessário gastá-las todas, leve-as todas, contanto que eu não precise dar à luz! Afinal, nem sei como o daria. Segundo ouço dizer, as mulheres, quando estão para dar à luz, fazem uma barulheira dos diabos, ainda que elas tenham por onde fazer isso; assim sendo, acredito que, se vier a padecer uma dor semelhante, morrerei antes de parir.
O médico sossegou-o:
- Não se apoquente. Vou preparar-lhe uma certa beberagem destilada, ótima e gostosa de se beber; tal bebida vai resolver, em três manhãs, o seu problema; em seguida, você vai sentir-se mais sadio do que um peixe. Entretanto, será preciso que você, passado isto, se porte com maior prudência, para não se embaraçar nestas tolices mais. Agora, a fim de que eu prepare a tal água, é necessário que você me dê três pares de bons capões, dos maiores; para as demais coisas que serão necessárias, além disto, você dará, a um destes seus companheiros, umas 5 liras, trocadas, para que as compre; e ordenará que seja tudo levado ao estabelecimento; eu, em nome de Deus, lhe mandarei, amanhã cedo, aquela beberagem destilada; e você então a beberá, na proporção de um copo grande de cada vez.
Ouvindo isto, Calandrino resignou-se:
- Mestre meu! Deixo tudo por sua conta!
Calandrino entregou as 5 liras a Bruno, e mais os dinheiros para o pagamento de três pares de bons capões; e solicitou-lhe que, por gentileza, se empenhasse em fazer bem tais coisas, ainda que precisasse enfrentar durezas. Foi embora o médico. Ao chegar à sua botica, ordenou que se preparasse uma parte de água açucarada e aromatizada; e enviou o frasco à residência de Calandrino. Bruno comprou os capões e as outras coisas mais necessárias ao prazer do paladar; e, com o médico e os seus outros colegas, comeu-os. Calandrino bebeu, todas as manhãs, aquela água adocicada. Certo dia, o médico foi visitá-lo, junto com os demais companheiros; e, segurando-lhe o pulso, disse-lhe:
- Calandrino, você está curado, com toda a segurança; pode, com absoluta tranqüilidade, já agora ir cuidar de seus negócios; pelo seu mal, que já passou, não é necessário mais ficar em casa.
Muito feliz, Calandrino levantou-se da cama; foi cuidar dos seus negócios; em qualquer lugar em que se encontrasse com alguém, e sempre que esse alguém iniciasse conversa, elogiava extraordinariamente a magnífica cura a que o Mestre Simão procedera em sua pessoa; e esclarecia que o tinha curado em três dias, induzindo-o a desengravidar-se sem sofrer nenhuma dor.
Bruno, Buffalmacco e Nello ficaram contentes por terem sabido, com muita sagacidade, zombar da avareza de Calandrino, apesar de que a Senhora Tessa, notando a tramóia, resmoneasse junto ao marido a esse respeito.
Segunda-feira, Maio 27, 2002
DOLCE FAR NIENTE

Como está fazendo um friozinho bastante civilizado aqui em SanPablo, fiz uma Kapusniak ontem à noite, com bastante costelinha de porco e repolho. Os freqüentadores deste blogue podem pegar a receita aqui. Não se esqueçam do vinagre branco, do vinho tinto e da vodka. Principalmente da vodka, que tem que estar quase congelando - e comprem uma vodka de boa qualidade, seus muquiranas! Depois da janta, o negócio é assistir um filmezinho, bem acomodado debaixo das cobertas. Por exemplo, "Feios, Sujos e Malvados", do Ettore Scola. Bebericando um vinho, é lógico. Hummm...
Domingo, Maio 26, 2002
TIM MAIA E A LEI DO MERCADO

Quando o péssimo filme "proposta indecente" foi parar em Pindorama(*), perguntaram pro Tim Maia (logo pro Tim Maia, caralho!) se ele pagaria um milhão de dólares para trepar com, por exemplo, a Vera Fischer. Ele respondeu, sem pestanejar: "Acho ela maravilhosa, mas não pago mais do que a tabela."

(*) Pindorama era um dos arcaicos nomes do nosso salvelindo, florão da américa, salve salve!
Quinta-feira, Maio 23, 2002
DÚVIDAS

Chegou a meus castos ouvidos um - creio - boato que tramitaria em Brasília um projeto para cercear a liberdade de imprensa. Revistas como "Caros Amigos", por exemplo, estariam na mira desta nova legislação, sob o pretexto que "incitam o povo contra o governo".
Mas, desde quando o povo lê? Ainda mais uma revista como a "Caros Amigos", que não tem mulher pelada, não fala sobre futebol e é editada em preto-e-branco? E desde quando temos governo?
Não entendi direito esse negócio. Só pode ser boato, mesmo.
Quarta-feira, Maio 22, 2002
MANUEL BANDEIRA

Grande, grande! Manuel Bandeira. Pernambucano de Recife (1886-1968), não me deu chance de conhecê-lo, pois morreu no ano em que nasci. Sacanagem. Mas o cara viveu muito, para um sujeito sempre às voltas com problemas de saúde. Entrou para a ABL, no tempo em que a instituição era séria. Hoje, basta ser um ex-presidentezinho de merda que você consegue. Manu escreveu muito, e bem. Selecionei um pequeno texto dele e foi difícil tomar esta decisão - toda a produção de Bandeira é impecável. Vejam que pequena jóia, uma sátira do poema "O Corvo", de Poe:

NOTURNO DA RUA DA LAPA

A janela estava aberta. Para o quê, não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanares(*), de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade nenhuma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. - A bomba de flit (**)! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou. Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente da alguma extinta Lenora.

(*) "Lupanar" significa "puteiro", ignorante!
(**) O "flit", antigamente, era um inseticida vendido em estado líquido, em latas. Era necessário colocar o líquido em um aparelho fumigador, que é a tal "bomba de flit". Crianças...
Sábado, Maio 18, 2002
BUNDA!

Este Sacerdote que vos fala nunca entendeu a verdadeira paranóia que as representantes do sexo frágil (hmmm, frágil o cacete!) tem com relação à aparência. Vamos a um exemplo simples: o cabelo.
Me apontem meia dúzia de mulheres satisfeitas com o próprio cabelo! Quero dizer, o cabelo natural, o cabelo que Deus lhes deu. As crespas alisam, as lisas encrespam, as loiras pintam de preto, as morenas pintam de loiro, e por aí vai. A indústria de cosméticos é uma das mais lucrativas do mundo - como todo e qualquer negócio ligado à vaidade.
"Vaidade, vaidade das vaidades, tudo é vaidade e vento que passa, diz o pregador". Isso está no livro de Eclesiastes, na Bíblia - aliás, meu preferido: podem ler que é diversão garantida.
Mas, tergiverso.
Passe por uma banca de revistas. Dê uma olhadinha na seção "açougue", onde estão as revistas masculinas. Não há uma mulher sequer com estrias ou celulite - com a exceção de publicações especializadas em mulheres maduras, do tipo "Over Forty" (acima de 40 anos) e "Over Fifty" (acima de 50 anos). Aliás, estas duas revistas são muito engraçadas e recomendo fortemente.
Porém, a questão é a seguinte: duvido que alguém ainda não saiba que aqueles corpos perfeitos das revistas masculinas (Playboy, Sexy, VIP) são TODOS retocados digitalmente antes da revista ser impressa. Babamos por uma imagem de computador. Não corresponde à realidade.
Então as mulheres vêem aquelas obras do PhotoShop e pensam que, obrigatoriamente, precisam ter a mesma aparência. Bullshit.
Conversei francamente com vários representantes do sexo forte (hahaha) sobre esses assuntos e o resultado desta modesta pesquisa foi o seguinte:

- Mulher tem que ter carne. Tetas, coxas e bunda, principalmente bunda.
- Se a bunda tiver estrias ou celulite, não faz a menor diferença.
- A mulher deve dar a bunda (essa opinião é compartilhada com uma grande amiga minha). Se não der, há uma possibilidade enorme de o parceiro terceirizar o serviço, se é que me entendem.
- O melhor de comer uma bunda é o controle muscular que a mulher possui sobre o ânus. Controle esse que deve ser exercido apertando o pau do parceiro até fazê-lo implorar por clemência.
- Algumas mulheres têm dificuldade para dar a bunda de quatro, que é a posição que oferece a melhor "paisagem" para o homem. Estas preferem a posição da "colher", que é dar de ladinho.
- A aparência da parceira é irrelevante quando a foda é de primeira.
- Muitos homens já treparam com mulheres aparentemente maravilhosas mas as abandonaram porque elas, na cama, se comportavam como peixes congelados.

Todas estas opiniões não refletem, necessariamente, a minha. Mas algumas, sim.
Segunda-feira, Maio 13, 2002
SOCORRO!

Peço um favor a vocês: se conhecem algum psiquiatra ou psicólogo, mostrem a nota abaixo, extraída da revista “CartaCapital” desta semana, e peçam a ele(ela) que me explique o que é isso. Nunca, na minha vida, vi algo deste tipo.

VOCÊ SONHA COM O DIABO?

Executivo conta a experiência de ser submetido a uma “avaliação 360 graus"

Francisco de Souza (o nome é fictício), 27 anos, é executivo de uma empresa multinacional. Ele não quis revelar sua identidade por medo de sofrer represálias, mas nos contou a experiência de ser submetido a uma das chamadas “avaliações 360 graus”.
“Tive de responder a 5 mil perguntas, durante o período de quatro dias, para ser avaliado”, disse. Eis algumas das questões que ele teve de responder:

1) Sua mulher já se masturbou? Se a resposta for 'sim', quantas vezes por semana? O que você acha disso?

2) Você tem nojo de suas próprias secreções? E das de sua mulher?

3) Você já brincou de enterro?

4) Você sonha com o diabo?

Mas a avaliação não se limitou ao questionário. De posse desse perfil íntimo, os responsáveis pela avaliação o "convidaram" a passar uma semana numa fazenda afastada da cidade, com outros profissionais da empresa. “No convívio, todos os 'podres' detectados nas respostas são jogados na cara da pessoa na presença dos outros, inclusive do presidente da empresa”, relata o executivo.
“Chega-se ao ponto de se questionar diretamente o presidente da empresa por que aquele funcionário cheio de defeitos foi contratado, isso diante de todo mundo, inclusive do próprio funcionário”, diz ele.
Quanto ao sentido da avaliação, o executivo não soube explicar. “0 máximo que eu vi de resultado foram algumas pequenas cumplicidades reveladas entre as pessoas que lá conviveram, nada além disso."
Sábado, Maio 11, 2002
OH, MULHERES DE POUCA FÉ

Calma, Padre Levedo retorna triunfante: hoje vou mostrar um pouquinho de Sade para vocês. Andei ocupado com assuntos seculares, entre os quais uma assessoria espiritual para uma famosa modelo (conhecida nos maldosos circuitos da moda como "chester" - só tem peito e osso), um porre monumental acompanhado de Dercy Gonçalves e um jogo de sinuca disputadíssimo na rua Augusta.
Perdi o jogo, pois estava nervoso devido à situação no Oriente Médio. Saindo pela calçada, me deparo com uma puta urinando em via pública. A menina, agachada, produzia um pequeno riacho de mijo que corria até o asfalto. Fiquei comovido com a situação. Quem não ficaria? Perguntei se ela aceitava tíquete. Aceitava.
OPASQUIM21

Criançada, leiam o excelente jornal do Ziraldo. Leiam enquanto não vai à falência, igual ao empreendimento anterior dele, a revista "Bundas" - uma das melhores revistas que eu já li. A questão é que o grande Ziraldo, como administrador, é um ótimo humorista. Provavelmente ele pensava que estava na Inglaterra, editando a revista "Punch". Acho que depois da trolha que levou - um milhão de reais em dívidas -, ele se deu conta que isso aqui, ô, ô, é um cantinho de Brasil, iá, iá..., e resolveu baratear a produção, usando papel jornal e não papel cuchê.
Essa notinha saiu n'OPasquim21:

"Ouça, Bustani: acreditar que a ONU não é propriedade dos Estados Unidos e Israel é a mesma coisa que acreditar que o Brasil é propriedade dos brasileiros. Toque-se"
SADE

Donatien Alphonse François, Marquês de Sade. Na vida e na literatura, esse cara foi coerente. Nasceu em Paris, em 1740 e morreu no sanatório de Charenton em 1814. Passou boa parte da vida na cadeia, acusado de crimes de licenciosidade, perversões sexuais, violência sexual, etc. Era, de fato, um tarado que ignorava as regras da convivência social. É preciso ter muita coragem para viver como ele viveu. Ou ser doido. Gosto muito de Sade. Aí vai um micro-conto dele:

O MARIDO COMPLACENTE

Toda a França sabia que o príncipe de Bauffremont tinha mais ou menos o mesmo gosto que o cardeal de que acabamos de falar(*). Deram-lhe em casamento uma moça muito inexperiente e que, seguindo o costume, só foi instruída na véspera.
- Sem maiores explicações - disse a mãe -, porque a decência me impede de entrar em certos detalhes (**), não tenho senão uma coisa a lhe recomendar, minha filha. Desconfie das primeiras propostas que lhe fizer o seu marido. Diz-lhe firme: Não, sr., não é por aí que se toma uma mulher honesta; por qualquer outra parte que desejar, mas por aí não, por certo...
O casal se deita e, por um princípio de pudor e de uma honestidade que se estaria longe de suspeitar, desejando fazer as coisas em regra ao menos pela primeira vez, o príncipe oferece à mulher os castos prazeres do matrimônio. Mas a jovem, bem-educada, se lembra da lição:
- Por quem me toma, sr.? Imaginou que eu consentiria nestas coisas? Por qualquer outra parte que desejar, mas por aí não, por certo...
- Mas sra...
- Não, faça o que quiser, não me convencerá nunca.
- Bem, sra., é preciso satisfazê-la - diz o príncipe palmilhando seus lugares prediletos. - Ficaria aborrecido se dissessem que eu pretendi contrariá-la.
E que venham agora nos dizer que não vale a pena instruir as filhas sobre o que devem a seus maridos!

(*) no conto anterior, Sade falou de um cardeal que só comia o cu da mulherada.
(**) HAHAHAHAHA
Quarta-feira, Maio 08, 2002
CU DE PATO NÃO É GAVETA

Nas páginas amarelas da Veja tem uma entrevista com um senhor cujo nome fiz questão de esquecer. O cara, podre de rico, tem 57 anos e declara, sem o menor pudor, que esta história de qualidade de vida é bobagem: O negócio é trabalhar, trabalhar, trabalhar, e trabalhar com pressão e stress. E que deve-se dedicar 150% do tempo ao trabalho. E que ninguém fica rico trabalhando "apenas" 8 horas por dia.
Claro que ele falou isso tudo porque é o chefão. Se fosse empregado, duvido que suas opiniões continuassem as mesmas.
SPLEEN

Caraca, esqueci de explicar, no post sobre Baudelaire, o que raios significa "spleen". É uma expressão inglesa intraduzível, da mesma forma que "saudade" é intraduzível para o inglês. "Spleen" é uma espécie de desânimo de existir, um tédio da vida, a sensação de que são inúteis os dias que passam - um após o outro. Entendeu? Você acaso já sofreu de "spleen"? Agora o seu sentimento tem um nome (chiquérrimo, aliás). Quando perguntarem porquê você está de orelha murcha, responda, fixando o olhar no horizonte: "é spleen..."
ERRATA

Onde se lê "leia-se", leia-se "onde se lê".
Segunda-feira, Maio 06, 2002
CHARLES BAUDELAIRE

Baudelaire é um dos muitos excelentes poetas franceses; e como todo poeta francês, era um doidão. Recebeu de herança do pai militar 100.000 francos-ouro, aos dezoito anos. Não faço idéia de quanto exatamente seja isso, mas era uma grana preta. O cara era chegado a muita bebida, putaria e ao uso recreativo de produtos farmacêuticos - se é que me entendem. Em dois anos, gastou metade da herança. Começaram os problemas financeiros, que o perseguiram até o fim da vida - pudera, o cara era um tonto em relação às finanças pessoais e só se envolvia com agiotas e exploradores. Expirou nos braços da sua mãe aos 47 anos, depois de uma vida conturbadíssima, vítima de sífilis.
A poesia de Baudelaire é esquisita (claro, por que diabos eu escreveria sobre ele?) e muito bonita (idem). Vamos ver um dos seus poemas.

SPLEEN

Je suis comme le roi d'un pays pluvieux,
Riche, mais impuiss
ani, jeune et pourtant très-vieux,
Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,
S'ennuie avec ses chiens comme avec d'autres bêtes.
Rien ne.peut l'égayer, ni gibier, ni faucon,
Ni son peuple mourant en face du balcon.
Du bouffon favori la grotesque ballade
Ne distrait plus le front de ce cruel malade;
Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,
Et les dames d'atour, pour qui tout prince est beau,
Ne savent plus trouver d'impudique tolleite
Pour tirer un souris de ce jeune squelette.
Le savant qui lui fait de l'or n'a jamais pu
De son être extirper l'élément corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
El dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,
Il n'a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé(*).

SPLEEN

Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que, desprezando do vassalo a cortesia,
Entre seus cães e os outros bichos se entedia.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,
Nem seu povo a morrer defronte do balcão.
Do jogral favorito a estrofe irreverente
Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.
Em tumba se transforma o seu florido leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Não sabem mais que traje erótico vestir
Para fazer este esqueleto enfim sorrir.
O sábio que ouro lhe fabrica desconhece
Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,
Em vez de sangue flui a verde água do Letes(*).

(*) Em grego, Léthé, um dos rios do Inferno. Sua água fazia esquecer o passado àqueles que dela bebessem.


Quinta-feira, Maio 02, 2002
SPENCER TUNICK

Este senhor é um fotógrafo que ganha a vida tirando fotos de multidões de gente nua. No último sábado ele trabalhou no parque ibirapuera, aqui em sanpablo. Cerca de mil pessoas se inscreveram para posar nuas a céu aberto, em troca de uma foto original do americano doidão. Os trabalhos iniciaram mais ou menos às cinco da matina. É óbvio que eu estava lá. Como iria perder um evento histórico destes?
Vamos aos fatos. Havia uma quantidade desproporcional de homens. Muitos veados. As mulheres eram minoria, talvez dois por cento da multidão. Fotógrafos e repórteres por todo lado. Helicópteros imóveis sobre o caos. Só umas cinco fêmeas me chamaram a atenção, o que é muito pouco, considerando-se que tive que pular da cama às quatro e meia num sábado. Lamentável. Havia um senhor de idade, com a cabeleira totalmente branca. Havia uma mulher cheia de tatuagens, que lembrava uma vaquinha malhada. Cheiro de saco mal lavado. Pirocas, muitas pirocas. Lembrava uma rebelião no Carandiru. Disgusting.
WHY I DO LOVE SAINT PAUL

San Pablo é uma cidade cujas idiossincrasias nunca foram encaradas pelo lado espiritual. Trata-se de injustiça: isso aqui é quase um SPA para a alma. Aos incréus que duvidam disso, provarei galhardamente meu ponto de vista.

BELEZA ESPIRITUAL. Esta cidade é infestada de mulheres feias. Mas feias mesmo. A impressão que dá é que estamos passeando por uma tela de Picasso. Com o tempo, porém, a gente se acostuma e passa a valorizar mais os aspectos não-visuais da mulherada, por exemplo: bom papo, cultura, uma sólida criação judaico-cristã, etc. Claro, tem sempre algum degenerado que, confrontado com as mocréias e catraias pululantes, ao invés de admirar-lhes os atributos espirituais, reduz ao mínimo seu critério estético - ou seja, come o que aparecer pela frente. Um devoto me confessou: "tendo bundão, tá valendo". Vejam a que ponto degradante as pessoas mal orientadas espiritualmente podem chegar.

PACIÊNCIA. O trânsito e seus eternos engarrafamentos são uma excelente oportunidade para desenvolver a paciência, pois é impossível prever a que horas chegaremos a um determinado lugar - as ruas estão sempre entupidas de carros. Nenhum paulistano, após sentar o rabo em um carro, levanta mais. Pegar ônibus ou metrô é algo considerado ofensivo para qualquer proprietário de um veículo. Resultado: todos se fodem com o tráfego infernal. Porém, não podemos ver a coisa desta maneira tão negativa. Relaxe. Repita "Ommm" na hora do rush. Sorria para o motorista ao lado.

DESAPEGO AOS BENS MATERIAIS. "Saí de São Paulo porque lá tem muita violência. Tem ladrão por toda parte". Essa singela e verdadeira frase foi dita por um assaltante de bancos, preso em Alagoas. Ser assaltado é tão comum que passou a ser uma espécie de esporte dos paulistanos. Uma modestíssima loja de ferragens, no Brás, cujo proprietário era um velhinho, era regularmente assaltada por um moleque de 17 anos. Por incrível que pareça, o rapaz nunca usou de violência. Simplesmente chegava, olhava pro velho e enfiava a mão no caixa. Isso sim, é desapego aos bens materiais! Vejam que exemplo de fortitude moral! Meus filhos, não verão país como esse! Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós... ops! desculpe a recaída patriótica.
Quarta-feira, Maio 01, 2002
ENQUANTO O PRESIDENTE PROSA, O VICE VERSA
- Millôr Fernandes, de porre
RILKE

Rainier Maria Rilke - dizem - é o maior poeta da língua alemã desde Goethe. Nasceu em Praga, no Império Austro-Húngaro em 1875. Era (sejamos francos) um parasita da nobreza. Viveu isolado do mundo, em castelos cedidos por aristocráticos mecenas, escrevendo poemas enquanto a mulherada implorava pela sua atenção. Por DEUS e todos os santos, isso é o mais próximo que consigo imaginar de um paraíso na terra. Mas não é isso o que interessa; o que interessa é o que ele escreveu. Vamos, portanto, a um poema dele.

DER PANTHER
Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergebn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weíche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wílle steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hineín,
geht durch der Glieder angespannte Stille
und hört im Herzen auf zu seín.

A PANTERA
No Jardin des Plantes, Paris

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existissem mil grades
e mundo nenhum mais além.

O passo elástico, macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. - Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha -
e se apaga quando chega ao coração.