Padre Levedo
Quarta-feira, Julho 31, 2002
MAIS UM MILAGRE

Holy shit! Apareceu a imagem de uma santa na lente dos meus óculos! Agora estou cobrando dez reáu de quem olhar para mim!
Terça-feira, Julho 30, 2002
ALICE NO MUNDO CORPORATIVO

Todo mundo que trabalha ou trabalhou em empresas gigantescas sabe que estes são os lugares mais bizarros que existem no mundo. Fala-se um dialeto próprio, as pessoas usam um pedaço de pano ridículo e inútil ao redor do pescoço, e - muito importante - é um ajuntamento de gente que tem um código de conduta peculiar, que não está escrito em lugar algum, desafia a lógica e deve ser seguido à risca.

Em suma, uma loucura.

A língua. Termos como "equalizar", "maximizar", "produção" devem ser usados em abundância. Se você usar linguagem simples, será secretamente considerado um jumento pelos colegas e, pior, pelo seu chefe. Se precisar, use o Fabuloso Gerador de Lero-lero, citado nos comments do post anterior. Creiam, já teve gente que leu várias páginas daquele lixo com a firme convicção que aquilo consubstanciava uma verdade.

O chefe. Só existem dois tipos de chefe: o filho-da-puta e o grandessíssimo filho-da-puta. Quando você faz alguma coisa errada, eles despejam um caminhão de estrume na sua cabeça. Quando você faz alguma coisa certa, eles simplesmente ignoram. Mas, se você for um funcionário excepcional e fizer tudo certo, eles recebem bônus no final do semestre.

A hora do espanto. Não importa o que você faça; todo o stress de uma semana inteira pode ser compactado para caber na sexta-feira à tarde. Das 17 às 18 horas, então, ocorre o fenômeno da "hora do espanto". Os telefones, que estavam apenas na espreita, juntam-se numa sinfonia furiosa de campainhas. Os computadores, percebendo que você está com pressa, começam uma operação tartaruga. O chefe principia a sugerir, de maneira sádica, que talvez você tenha que vir trabalhar no sábado. Nesses casos, é aconselhável usar o método ninja: às 18 horas em ponto, sem dar tchau para ninguém, muito discretamente, finja que vai ao banheiro e suma.

Reuniões. Esse é o motivo pelo qual a Humanidade jamais atingirá seu potencial pleno. As reuniões são uma espécie de cerimônia ritual onde se celebra a estupidez humana. É uma perda de tempo inacreditável. Se eu citasse aqui todas as idiotices que já escutei em reuniões eu estouraria meu espaço de armazenamento no HPG. Mas, como diria Mencken, as pessoas precisam viver de alguma coisa. O método usado nas reuniões é perfeitamente democrático: os chefes ouvem atentamente a opinião de todos e depois fazem o que bem entendem. Se der errado, a culpa é sua.
Segunda-feira, Julho 29, 2002
CIRCULAR

No mundo atual, a consulta aos diversos produtores de insumos causa impacto indireto na reavaliação dos procedimentos normalmente adotados. Pensando mais a longo prazo, o aumento do diálogo entre os diferentes setores produtivos apresenta tendências no sentido de aprovar a manutenção das condições financeiras e administrativas exigidas. Gostaria de enfatizar que o julgamento imparcial das eventualidades facilita a criação do remanejamento dos quadros funcionais. Caros amigos, a estrutura atual da organização cumpre um papel essencial na formulação do levantamento das variáveis envolvidas.

Acima de tudo, é fundamental ressaltar que a competitividade nas transações comerciais exige a precisão e a definição das condições inegavelmente apropriadas. Assim mesmo, a constante divulgação das informações ainda não demonstrou convincentemente que vai participar na mudança do processo de comunicação como um todo. O que temos que ter sempre em mente é que a necessidade de renovação processual promove a alavancagem dos paradigmas corporativos. Evidentemente, o início da atividade geral de formação de atitudes nos obriga à análise das novas proposições. É claro que a mobilidade dos capitais internacionais afeta positivamente a correta previsão dos modos de operação convencionais.
Domingo, Julho 28, 2002
UM CANÁRIO

Esses dias saí para beber com um colega de profissão que é padre no interior de São Paulo. Depois da undécima dose de steinhager, ele me contou uma história extremamente interessante. Ele possuía como bichinho de estimação um canário. Canário daqueles cantantes e vistosos. Depois de um tempo, um moleque chamado Juquinha(*) começou a importunar o Padre.
- Padre, o senhor me dá esse canário?
E o Sacerdote respondia:
- Nem fudendo, moleque. Vai jogar bola, vai.
Mas como toda a criança tem uma persistência capaz de irritar até um frade de pedra, o petiz insistia.
- Ah, Padre, me dá esse canário!
- Juquinha, pára de me incomodar. Não dou o canário!
O tempo, como sempre faz, passou - e o Juquinha pedindo e o Padre negando. Até que um dia ocorreu o inevitável.
- Padre, me dá esse canário.
- PEGA ESSA MERDA DESSE CANÁRIO E SOME DA MINHA FRENTE!
Então fez-se a paz: Juquinha com o canário e o Padre com paz de espírito. Até que, um dia, apareceu uma menina para se confessar com o Padre.
- Ah, Padre, estou tão envergonhada! O Juquinha está namorando comigo e ele me pediu que desse a bundinha para ele!
E o Sacerdote, sem hesitar:
- Minha filha, dá logo a bunda pra ele senão ele não vai te deixar em paz!

(*) o nome é fictício
Sexta-feira, Julho 26, 2002
DENDROFILIA AGUDA

Esse foi o título de uma coluna do David Drew Zingg na Folha, lá pelo final dos anos 90. Eu sempre lia o Tio Dave, até que ele nos sacaneou e morreu em 2000. O artigo estava comigo até bem pouco tempo, porém foi comido pelo meu cachorro. Então catei algumas informações na Grande Rede e recompus parcialmente o texto, que era um pequeno dicionário de perversões. Cá está ele (e toda colaboração será bem-vinda):

Belonofilia: excitação sexual obtida com o uso de agulhas ou outros objetos pontudos

Dendrofilia: atração sexual por árvores, plantas ou legumes. Homens usam melancias e outras frutas grandes com polpa macia e também buracos em bananeiras como substitutos de uma vagina ou ânus. Mulheres e homens usam legumes faliformes (cenouras, pepinos, abobrinhas, espigas de milho) para introdução vaginal ou anal, como substitutos de um pênis

Cisvestismo: termo cunhado por Magnus Hirschfeld, ainda no século passado, designa o interesse sexual despertado por roupas especiais: uniformes militares ou de policiais; roupas de domésticas ou de garçonetes; roupas de babás; smokings, ternos ou jalecos

Salirofilia: excitação sexual pela aproximação, cheiro, sensação ou ingestão de suor ou saliva (fluidos contendo sal).

Sacofricosis: ato de cortar o fundo do bolso dianteiro da calça para poder se masturbar em público com menor chance de ser detectado

Oculolinctus: ato de lamber o globo ocular do(a) parceiro(a)

Tricofilia: fetiche por cabelos. É um fetiche específico através do qual a pessoa se excita e sente desejos sexuais ligados ao cabelo
Quinta-feira, Julho 25, 2002
HIC! (SIC!)

Recebi um e-mail de um beócio, criticando meu hábito de redigir posts em estado de embriaguês. O que o apedeuta não sabe é que não há problema algum nisso; se beber tornasse impossível a atividade de escrever, quase toda a literatura que a raça humana produziu não existiria. Estaríamos reduzidos a pouco mais que George Bernard Shaw e o Dalai Lama, o que seria lamentável, pois não? Isso sem falar nas agências de publicidade, que simplesmente teriam de fechar as portas.

Numa das epístolas de Paulo, no Novo Testamento, ele recomenda a um moço que tome um vinhozinho de vez em quando, para seus problemas de estômago. Por que não recomendou um Alka-Seltzer ou magnésia bisurada? Hein? Hein? É óbvio que Paulo era um pinguço, e ele escreveu boa parte do Novo Testamento. E meu grande amigo Jesus, naquela festa de casamento, transformou água em quê? Em tubaína? Em Fanta Uva? Em guaraná Dolly? Nananinana! Em vinho, e vinho excelente, segundo as testemunhas. Ele também era chegado num copo. OK, não foi ele que escreveu o Evangelho mas convenhamos, andar sobre a água é bem mais difícil que escrever.

Um ou dois uísques na moringa até ajudam na hora de ordenar as palavrinhas no papel - ou no editor de texto. Pensem nos grandes nomes da literatura que eram porristas notórios: Faulkner, Jack London, Bukowski, Baudelaire, Poe, Padre Levedo, Hemingway, etc. Creiam-me, se esse pessoal fosse tão sóbrio quanto um pastor no domingo de manhã, suas obras não teriam metade da graça.
Quarta-feira, Julho 24, 2002
ALLAN TURING (1912-1954)

Turing foi um matemático inglês que ajudou muito a encurtar a segunda guerra mundial. Estendendo o trabalho de um polonês que começou a decifrar a máquina "enigma" - um complexo embaralhador de letras usado para criptografar mensagens nazistas -, Turing tornou as mensagens supostamente secretas dos alemães em texto limpo e claro. A informação privilegiada permitiu que os aliados planejassem e executassem com sucesso a invasão da Normandia.
Durante a guerra, devido aos seus preciosos serviços, os militares fizeram vista grossa ao fato de que Turing era homossexual - na época, seria um escândalo ter um veado na folha de pagamento do Exército Real da Inglaterra. Findo o combate, quando já não era tão útil, simplesmente disseram a ele para ficar de bico calado sobre todo o episódio envolvendo a "enigma" e que fosse para casa. Allan se suicidou, deprimido, obeso, impotente e quase anônimo aos 42 anos, comendo uma maçã temperada com cianureto. Que curioso: décadas depois, Mick Jagger recebe o título de Sir outorgado pela Rainha. Turing cometeu o pecado de ser homossexual na época errada.
Terça-feira, Julho 23, 2002
UM SACERDOTE NÃO CONSEGUE MAIS MEDITAR EM PAZ

Duas de minhas secretárias - Safira das Paixões, a judia, e Raquel Cristina, a árabe, iniciaram uma discussão absolutamente pueril na mesa de jantar. Não levo muita fé na pureza racial delas pois ambas são cariocas e Safira é mulata estilo Diana Ross e Raquel lembra a Doris Day. Uma afirmava que Sharon era mais bonito que Arafat e a outra discordava. Bastou um meu olhar pétreo para que se calassem.

Eu refletia sobre uma incumbência que me fora dada por VRMI de la Squadra Anti-Reale, FH do vosso C. Como resolver o problema da nossa dívida externa? Olhando para Safira e Raquel tive uma idéia luminosa: por que não sugerir aos árabes que se convertessem ao judaísmo? Afinal de contas ambos têm o mesmo DEUS e ambos são primos semitas. Nosso representante na ONU exigiria apenas que as circuncisões árabes fossem realizadas por rabinos brasileiros ao preço módico de dez dólares por prepúcio, o que nos daria, no barato, dez bilhões de dólares.

Desisti da idéia, pois seria difícil convencer os árabes mesmo se lhes déssemos o Ronaldinho Cabeça de Xota de contrapeso. Não conseguia me concentrar, pois Safira e Raquel, embora em voz baixa, continuavam discutindo. Uma queria Tony Curtis no lugar de Arafat e a outra Omar Shariff no lugar de Sharon. Mandei-as para o quarto de castigo.

Mal elas se afastaram tive outra idéia ainda mais luminosa. E se vendêssemos o Piauí para Israel? O Piauí tem muito mais terra seca do que Israel. Em troca repassaríamos nossa dívida para os judeus que gozam da simpatia de Bush e teríamos um vizinho rico assim como o México tem os Estados Unidos. Se vendêssemos o Piauí com povo abateríamos 10% e se o vendêssemos sem povo cobraríamos 10% a mais. Caso os piauisenses preferissem ficar, seriam circuncidados gratuitamente e tratados como cidadãos de segunda categoria tal qual ocorre com os palestinos, o que sempre seria melhor do que sua situação atual. Telefonei ao Rei. Ele informou-me que já vendera a Amazônia mas que os condes Barbalhão e Amazolino haviam ficado com o dinheiro. Meu mordomo, Sir Anthony Hopkins, informou-me que Rogerinho Boquinão, meu assessor de imprensa, ex-cafifa e ex-professor de anatomia maligna me esperava em meu gabinete. Eu havia lhe passado a incumbência de ir em meu lugar ao Baile da Ilha Fiscal que Alexandre Aciolly deu para os novos ricos e famosos por apenas 600 mil dólares. Não vou a festa de novo rico a não ser muito bem pago. Perguntei ao Rogerinho como transcorrera o ágape. E ele:

- Apanhei uma gonorréia. Não sei se foi da perua, da atriz, da modelo ou da candidata a deputado.
Segunda-feira, Julho 22, 2002
ONE MAN, ONE VOTE

Andei visitando alguns sites onde encontrei debates extremamente violentos sobre as próximas eleições para Presidente. A princípio, não quis acreditar, mas depois - confrontado com os fatos - tive que admitir: ainda existe gente que pensa que vive numa democracia. Alguns, pasmem, crêem que podem alterar o rumo do país votando. Outros, inacreditavelmente, julgam que são donos do próprio nariz e que o Brasil pertence aos brasileiros.

Fui correndo ler a última "Veja", para me acalmar e ficar a par das últimas diretrizes de Washington.
Domingo, Julho 21, 2002
JAMES JOYCE (1882-1941)

Joyce é, provavelmente, o mais celebrado escritor da Irlanda. Tem até um pub aqui em SP com o nome da sua famosa obra, “Finnegans Wake”. Joyce passou dezesseis anos escrevendo esse livro, e afirmava que ninguém conseguiria lê-lo em menos tempo. Ele morreu cego, como Borges. Relutei em falar sobre Joyce pois não tenho como traduzir a complexa estrutura de referências que cada palavra do "Finnegans" contém. É um hipertexto, da época em que hipertextos não existiam. James se propôs a escrever um livro que contivesse todos os livros, e mais: todas as línguas, todas as tradições e todo o universo. Não sei se ele conseguiu isso; porém, apenas se propor a fazer isso já faz dele um sujeito corajoso. Ou doido. Aqui estão os três primeiros parágrafos de “Finnegans Wake”, que foram objeto de uma exegese de Roberto Pompeu durante seis edições da revista CULT. Sim, o texto começa com letra minúscula.

riverrun, past Eve and Adams, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.

Sir Tristram, violer d'amores, fr'over the short sea, had passencore rearrived from North Armorica on this side the scraggy isthmus of Europe Minor to wielderfight his penisolate war: nor had topsawyer’s rocks by the stream Oconee exaggerated themselse to Laurens County’s gorgios while they went doublin their mumper all the time: nor avoice from afire bellowsed mishe mishe to tauftauf thuartpeatrick not yet, though venissoon after, had a kidscad buttended a bland old isaac: not yet, though all's fair in vanessy, were sosie sesthers wroth with twone nathandjoe. Rot a peck of pa's malt had Jhem or Shen brewed by arclight and rory end to the regginbrow was to be scen ringsome on the aquaface.

The fall (bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!) of a once wallstrait oldparr is retaled early in bed and later on life down through all christian minstrelsy. The great fall of the offwall entailed at such short notice the pftjschute of Finnegan, erse solid man, that the humptyhillhead of humself prumptly sends an unquiring one well to the west in quest of his tumptytumtoes: and their upturnpikepointandplace is at the knock out in the park where oranges have been laid to rust upon the green since devlinsfirst loved livvy.
Sexta-feira, Julho 19, 2002
WE SURE CAN FUCK, MISTA!

Existe um fenômeno que ocorre na alma feminina que sempre me deixou muito intrigado. Conversei com vários amigos e amigas, e todos e todas confirmaram o fato. Mas ninguém conseguiu me explicar convincentemente as razões de tal comportamento. Até que, por acaso, topei com um trecho de um livro de Gilberto Freyre que esclareceu de vez a situação. Mas, vamos por partes.

O fenômeno em si é o fascínio que as mulheres brasileiras têm por estrangeiros. Fascínio que beira a tara, em casos mais graves. O sujeito pode ter a aparência mais absolutamente comum, mas basta falar algumas palavras em língua estrangeira, ou em péssimo português carregado no sotaque, que a mulherada se derrete.

Conheci um sujeito da Nova Zelândia (leiam "Professor Underberg parte IV", na minha home page) que, na sua estada de um ano e meio aqui em São Paulo, só não comeu a Mama Bruschetta. Uma vez fomos ao Finnegan's Pub, conhecido reduto das marias-passaporte. Ficamos conversando no balcão e logo se aproximaram duas meninas, sorrindo e falando um inglês básico, perguntando de onde éramos. O Jeff falou que era da Nova Zelândia. Eu falei, em português, que era brasileiro mesmo. As duas, a partir daí, me ignoraram. Percebi que precisaria ou mentir ou ir para um bar "nativo", para conseguir companhia feminina. Ali aparentemente não queriam produto nacional. Acabei deixando os três lá e fui para outro barzinho.

Uma semana depois, o gringo me falou que as duas, que eram primas, levaram ele para a casa delas, treparam a noite toda (sem camisinha, no estilo Luciana Gimenez) e, de manhã, trouxeram CAFÉ NA CAMA para ele.

Convenhamos, isso é que é receber bem um estrangeiro.

Mas foi o Freyre que elucidou o mistério. No seu livro, ele explica que, na época do descobrimento, as índias se esfregavam nos portugueses - sujos, rotos e fedidos depois de meses no mar -, oferecendo-se para trepar. Para elas, os estrangeiros eram deuses, e - óbvio - era considerado um privilégio dar para um deus.

Aí compreendi o comportamento galináceo das brasileiras em relação aos gringos: é atavismo. E da genética, como se sabe, ninguém escapa.
Quinta-feira, Julho 18, 2002
POLENTA COM SHIMEJI

A polenta com "funghi" nunca foi um prato sofisticado. É comida de camponês italiano, feita de farinha de milho e cogumelos colhidos em qualquer canto. Uma coisa sem frescura, e que custa, certamente, muito menos que uma polenta no Fasano. Como diria Charles Mingus, complicar algo simples qualquer idiota faz; e, pior, sempre tem idiotas para comprar o resultado. A receita abaixo foi criada por uma de minhas secretárias, noviça Kelly Self-Service, e aprovada com louvores pelo Sacerdote que vos fala.
Vamos iniciar os trabalhos bebendo uma dose de genuína grappa italiana. Vá com calma, esse troço é forte. A grappa é um destilado do bagaço da uva, uma espécie de cachaça da terra de Dante.
Pegue uma cebola grande e pique-a bem miúda. Coloque para fritar em manteiga, em fogo baixíssimo. Nesse ponto, já é hora de abrir um vinho tinto. Pode ser um cabernet honesto. Beba calmamente uma taça, enquanto a cebola vai fritando. Aproveite e pique os cogumelos - antes corte fora a base do caule deles. Quando a cebola estiver bem frita, coloque uma colher de chá de açúcar. Mexa mais um pouco, junte sal à gosto e os cogumelos. Tampe a panela. Ei, cadê o vinho? Beba mais uma taça. Não deixe os cogumelos cozinharem muito. Depois de uns quatro minutos, acrescente o creme de leite, mexendo sempre. Quando ferver, desligue o fogo.
Os cogumelos não são animais nem vegetais. Pertencem a uma categoria intermediária. Existem cogumelos venenosos, que normalmente são mais coloridos - sim, aqueles clássicos cogumelozinhos vermelhos com pintinhas brancas são tóxicos. E existem exemplares que, se ingeridos, provocam alucinações. Um amigo meu bebeu chá de um cogumelo destes e simplesmente foi até a praça e passou a se comportar como um cão, cheirando as pessoas, latindo e andando de quatro. Bem, o shimeji não é venenoso nem alucinógeno, não se preocupe.
Beba mais uma dose de grappa, de uma vez só. A polenta eu não vou explicar como se faz, leia na embalagem. Ela deve ficar com uma consistência um pouco mole.
Depois da polenta pronta, vamos montar o prato. Porém, antes, beba mais uma taça de vinho. Disponha a polenta em todo o fundo do prato. Por cima, coloque o molho de shimeji. Salpique com um pouco de pimenta do reino. E cante comigo: "Quaaandooo seee mangia la bela polenta, la bela polenta se mangia cosí, se mangia cosí oooooOOOOOOoooo bela polenta cosí, tcha tcha pum tcha tcha pum tcha tcha pum pum pum pum...."
Quarta-feira, Julho 17, 2002
GOD'S INSURANCES, INC.

Essa quem me contou foi um colega evangélico que, como vocês poderão ver, é um humorista dos bons.

Durante o culto, o pastor incitava os fiéis a relatar os supostos milagres que ocorreram após as suas conversões ao Evangelho.
- Venham e subam no palco! Testemunhem sobre o poder de Deus!
Uma mulher se levanta e vai até lá. Pega o microfone.
- Ah, pastor, meu filho teve o carro roubado! Mas eu orei, jejuei, com fé, muita fé, e depois de trinta dias a seguradora pagou o carro! Direitinho!
UM PAPINHO MANEIRO

Ontem resolvi ligar para meu grande amigo, DEUS. Disquei o número. Ouvi a voz inconfundível - uma mistura de Cid Moreira com Pavarotti.
"Você ligou para DEUS. No momento não posso atender. Se desejar falar com um de nossos anjos, disque 2. Se desejar ..."
- DEUS, DEUS, atende que eu sei que O Senhor está em todas as partes, inclusive aí do outro lado da linha!
Clique.
- Levedo, há quanto tempo! Como vão as coisas?
- Olha, o uísque que estou bebendo poderia ter o dobro da idade, mas ainda assim a gente vai tocando o barco.
- E a eleição?
- Pois é, Todo Poderoso, liguei para falar sobre isso mesmo. Na verdade, para fazer um apelo.
- Manda.
- Todo mundo sabe que o Senhor é brasileiro.
- Sim.
- E que pode tudo.
- hm.
- Então, pelo amor de Vós, faça com que o Lula ganhe a eleição e a gente deixe de sustentar os gringos!
Um longo silêncio. Aí DEUS falou.
- Levedo, a princípio Eu posso tudo, mas assustar o MERCADO não!
Segunda-feira, Julho 15, 2002
MOCOTÓ

Na época em que Porto Alegre era uma cidade pequena, meu avô freqüentava uma barbearia no centro da cidade. O proprietário, um português, era famoso por ser muito irritadiço e perder a cabeça facilmente. Mas era o melhor profissional da cidade, e o seu salão vivia cheio. Um dia, resolveu comprar um telefone, novidade naqueles tempos. Comprou a linha e instalaram o aparelho. Porém, o número pertencia anteriormente a um açougue que tinha ido à falência. Logo começaram os problemas:
- Alô.
- Alô, é do açougue?
- Não, meu sinhoire. É do barbeiro.
Fone no gancho. Alguns minutos. TRIIIM.
- Barbearia Vicente.
- Alô, não é do açougue?
- Não, meu sinhoire. Aqui é da barbearia.
Como o salão estava cheio, o portuga estava se controlando para não destratar as pessoas que ligavam. Mas meu avô, que era muito amigo do barbeiro, notou que ele estava ficando vermelho. Depois de atender a todos os clientes - e ao maldito telefone que não parava de tocar, o salão ficou só com o meu avô, que estava esperando para aparar o bigode. Então toca o telefone.
- Alô.
- Alô, é do açougue?
Aí o português não agüentou:
- É SIM, É DO AÇOUGUE! E TUA MÃE ESTÁ AQUI, PENDURADA PELO CU E SENDO VENDIDA COMO CARNE DE TERCEIRA!
Domingo, Julho 14, 2002
UMA EXPLICAÇÃO - NECESSÁRIA - SOBRE O TEXTO ACIMA

Tem gente achando que "O Dia em que Saturno Piscou para Júpiter" e "Seis Velas para Van Halen" são fragmentos autobiográficos. Não são. Se eu escrevesse minha biografia, provavelmente seria banido do planeta. Também há reclamações sobre o estilo - desleixado, na opinião de alguns. Ora, queriam que um jovem guitarrista porra-louca escrevesse como Cervantes?
SEIS VELAS PARA VAN HALEN

(Esta é a continuação do texto “O Dia em que Saturno Piscou para Júpiter”)

Os amigos é que me salvam do pior. Acho que já estaria na sarjeta se não fossem essas criaturas que, inexplicavelmente, se apegam à minha pessoa. E o mais intrigante é que não faço nenhum esforço para agradar. Simplesmente escuto o que elas têm a dizer, depois falo alguma coisa vagamente positiva e pronto. Já simpatizam comigo. Não que eu ache a vida grande coisa, ou seja um filantropo - na verdade, encaro os outros como pneus de proteção nas curvas de uma pista de corrida: se tudo vai bem, pouco me importa se eles estão ou não lá. Mas se a gente erra uma manobra, agradeço aos céus que eles existem. Os sacanas impedem que eu arrebente a cabeça em um muro.

Liguei pro Sérgio e expliquei a situação: tinha recém saído da casa dos meus velhos e precisava de um canto onde dormir. Ele prontamente ofereceu o sofá da sala, e claro que aceitei. A noite ia mordendo devagarinho o crepúsculo
. Fui caminhando até o apartamento onde ele morava com a mãe. O céu misturava cores tão bonitas que tive de parar. Na calçada, olhando para cima, enquanto o rebanho usual de trabalhadores formigava ao meu redor, consegui me sentir bem pela primeira vez desde que fechei a porta da casa dos meus pais.

Este Sérgio era uma figura. Tinha mais ou menos a minha idade, e estava terminando a faculdade. Estatística. Algo muito, mas muito chato. A vantagem é que ele nunca ousava comentar nada do curso com nenhum amigo: não havia ninguém disposto a ouvir sobre desvio padrão e outras merdas desse tipo. Ele, como já disse, morava com a mãe. Ela era separada do pai dele, um sujeito excessivamente tímido, daqueles que nem se nota a presença, andando com passinhos suaves, falando em voz baixa coisas irrelevantes, tentando passar despercebido. Talvez fosse um grande cara, mas a impressão que ficava é que ele era um bostalhão.

Já a mãe do Sérgio era uma mulher vigorosa, extrovertida. Trabalhava com vendedora, e trabalhava duro. Nove horas por dia, convencendo o pessoal a comprar livros - o que não é tarefa fácil. Além disso, era cozinheira de mão cheia; transformava até uma simples polenta num banquete.

Os dois moravam num apartamento de um quarto, perto do centro da cidade. Cheguei lá antes da noite cair por completo, e subi até o décimo andar. Fui recebido com festa:

- Aí, malandro, qual foi a merda?

Fiquei meio sem jeito e respondi qualquer coisa, tipo "enchi o saco de ficar lá em casa". O Sérgio viu então a guitarra.

- Ô rapaz! Onde tu arranjou essa tábua de cortar carne? Cruzes, pesa meia tonelada!

E aí ele riu. Tudo bem. Me senti mais à vontade.

A mãe dele ainda não tinha chegado do trampo. O Sérgio também tinha uma guitarra, caindo aos pedaços, e - mais importante que isso - tinha também um amplificador. De modo que, imediatamente, ligamos a minha guitarra no amplificador e comecei a tocar. Hum! Bem melhor do que usar o 3 em 1 lá de casa!

Depois ele experimentou a guitarra, reclamou muito do peso dela (de fato, era necessário algum preparo físico para segurar o instrumento), mas gostou do timbre. Depois, pegou a guitarra dele e plugou no amplificador. Ficamos tocando até a mãe dele chegar.


Foi tudo acertado entre nós. Era um esquema simples: eu dormia na sala, BEM cedo, sem fazer ruído nenhum nem acender luz alguma. Pela manhã, preparava o café para todos nós. Comíamos em alegre falatório, comentando tudo quanto era assunto. Depois Sérgio e sua Mama saíam, e eu limpava a casa toda (o que era fácil, pois o apartamento era minúsculo). Depois disso, tinha o dia livre para fazer o que bem entendesse. Minha sorte é que o Sérgio tinha uma porção de discos bons e quase sempre eu ficava de papo pro ar, ouvindo música e tocando guitarra. Quando batia o tédio, saía para caminhar.

Minha grana estava se evaporando com muita rapidez, portanto tinha que controlar os gastos. Não estava com nenhuma vontade de procurar emprego, pelo menos durante um tempo. Na esquina tinha aquela banquinha de jornal onde eu sempre parava para ler os jornais e folhear as revistas especializadas em guitarra. Não tinha dinheiro para comprar nada, e então ficava lendo até que o jornaleiro me enxotava. Não era um sujeito malvado, apenas desconfiado.

Num dia, cheguei na banca e havia uma revista de literatura com o Nietzsche na capa. Falei em voz alta: "Frederico! Há quanto tempo!" O jornaleiro, sempre com um pé atrás, me perguntou: "tu conhece Nietzsche?"

Agora, um parêntese. Antes de entrar pro quartel, no segundo grau, namorei uma menina maluquíssima. Ela tinha seios enormes, e eu passava o tempo todo agarrando aquelas tetas. Durante as aulas, na lanchonete, no ônibus, no recreio, andando na rua. Ela tinha sempre um livro na mão, era uma intelectual. Foi ela que me explicou a teoria do super-homem do Nietzsche. O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem. Grande merda. Mas acabei memorizando algumas idéias daquele alemão doido.

Portanto, respondi ao jornaleiro: "O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem". Nunca imaginei o impacto que isso provocaria nele. Imediatamente me considerou uma pessoa ilustrada e principiou a discutir animadamente sobre filosofia. Eu não tinha condições de conversar sobre isso, então desviei do assunto e ele se aquietou um pouco. Porém, a partir deste dia, eu passei a ter livre acesso para ler o que quisesse na banquinha. Beleza.

Um dos problemas na guitarra do Sérgio é que, quando a gente levantava muito o volume, ela "apitava". Lendo as revistas sobre guitarra, eu fiquei sabendo que o Eddie Van Halen tinha tido o mesmo problema com alguns dos seus primeiros instrumentos, e resolveu a questão mergulhando os captadores em parafina líquida.

Outro parêntese. Um captador é uma bobina que envolve seis ímãs, responsável por captar a vibração das cordas de uma guitarra e transformar esta vibração numa corrente elétrica, que é amplificada e se torna audível. Trata-se de uma peça delicada, que normalmente possui 13000 voltas de fio de cobre da espessura de um fio de cabelo.

Então eu sabia como consertar a guitarra do Sérgio. Falei para ele e, a princípio, ficou hesitante. "Mas como vamos derreter a parafina?" Respondi que bastava pegar uma panela bem grande com água fervendo, colocar uma panela menor boiando por cima e encher de velas. "Tudo bem, mas o captador vai ficar branco! E a minha guitarra é preta!" Bem, um argumento difícil de rebater - mas uma espécie de musa inspiradora sorriu para mim naquele momento e respondi, de pronto: "a gente compra vela preta numa casa de artigos prá macumba!"

Resolvido esse detalhe, fomos até o centro velho, onde tinha um monte de lojas especializadas em bruxaria e macumba. Numa delas, havia uma estátua em tamanho natural do diabo - apesar de eu não saber quanto ele tem de altura. Era como se fosse uma pessoa, só que era totalmente vermelho, segurava um tridente e tinha chifrezinhos. Decidimos entrar nessa loja. Havia um longo balcão e uma moça muito entediada, lendo "Capricho". Eu falei: "precisamos de uma meia-dúzia de velas pretas." A mulher foi até uma gaveta, pegou um pacote das tais velas e colocou em cima do balcão. Aí falou: "Se vocês vão fazer trabalho forte, é melhor já levar papel celofane, fita vermelha e bandeja de prata". Eu olhei pro Sérgio e ele desviou o olhar, para não rir. Disse que só as velas já estava bom, obrigado.

Voltamos para casa. Coloquei um panelão com água para ferver. Enquanto isso, o Sérgio desparafusava os dois captadores da guitarra. Pus as velas numa panelinha bem velha e falei, solenemente: "Oh, poderoso Príncipe das Trevas, aceitai este sacrifício e transformai as notas que sairão dos captadores em notas dignas de Van Halen!" Quando derreteu tudo, apaguei o fogo e mergulhamos os captadores na negra parafina liquefeita. Depois os retiramos e esperamos secar. Quando colocamos de volta na guitarra, percebemos que um deles não funcionava mais (e nunca mais funcionaria, por sinal). O outro, porém, tinha ficado perfeito. Agora, podíamos tocar em volumes insanos sem problema algum.

Ou quase. O que eu não sabia era que a panelinha velha que usei para derreter as velas era uma panela de estimação da mãe do Sérgio. Quando ela chegou do trampo e viu sua querida panelinha cheia de parafina preta, teve um troço. Começou a falar descontroladamente, naquele timbre agudo e irritante que as mulheres usam quando querem foder com a nossa paciência. Ela xingou tanto o filho dela quanto eu. Não podia falar nada, afinal estava lá devido à generosidade deles. Mas o Sérgio ficou puto com ela. Nunca tinha visto ele brabo, e não foi muito agradável o espetáculo. Ele agarrou com força os braços da mãe e gritou de um jeito que poderia ser ouvido em Madagascar: "EU COMPRO UMA PORRA DE PANELA NOVA PRA TI MAS CALA A BOCA! AGORA!"

Merda, não conseguia me livrar de confusão e gente perturbada.

O clima, obviamente, ficou uma droga. O Sérgio chegou pro meu lado, mais calmo, e disse: "olha, precisamos conversar". Só olhei para ele e perguntei: "quanto tempo eu tenho?" Aí ele sorriu, meio sem jeito, e falou: "tem que ser logo; a casa, no final das contas, é dela".

Naquela noite, saí para andar sozinho e pensar um pouco na vida. Decidi gastar uma parte do meu dinheiro com algumas cervejas e vodka. Fiquei ligeiramente bêbado. Andava pelas ruas desertas, olhando o céu e tentando imaginar o que viria pela frente. Eu sabia que teria de procurar emprego e achar um teto onde morar em paz. Mas tudo isso, de certa forma, perdia um pouco da urgência, pois estava embrulhado num suave torpor alcoólico. Como era verão, achei um banco em uma praça e dormi feliz, olhando as estrelas e cantando baixinho "My Way".
Sábado, Julho 13, 2002
"NÃO TENHO NADA CONTRA OS IMBECIS, DESDE QUE NÃO PROCRIEM"
- Paulo Francis, num momento de bom-humor

"DIGA A VERDADE E SAIA CORRENDO"
- Provérbio iugoslavo

"SE VOCÊ ACHA QUE A EDUCAÇÃO CUSTA CARO, TENTE A IGNORÂNCIA"
- Berek Bok

"EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É CAOLHO"
- Pára-choque de caminhão

"TODOS PRECISAM CRER EM ALGO. CREIO QUE VOU BEBER MAIS UMA CERVEJA"
- Groucho Marx, mas bem que poderia ser da minha lavra
Sexta-feira, Julho 12, 2002
CORREIO

Agora tem linque para a minha Santa Caixa Postal. O linque já existia na minha home page, mas tinha gente que não sabia. Agora, vocês podem fazer sua confissão com muito mais conforto. O próximo passo será adicionar comments, com a ajuda da noviça Sylvia.
Quinta-feira, Julho 11, 2002
OPRÓBRIOS CORDON-BLEU

No post sobre espiritismo, faltou anotar que a frase de Pirandello, "assim é, se lhe parece", provavelmente é a maneira mais elegante, erudita e suave de dizer "creia no que quiser, estou cagando e andando".
Quarta-feira, Julho 10, 2002
EU LEIO GENTE MORTA... O TEMPO TODO

Tem uma amiga minha que costuma ler livros psicografados, ou seja, livros supostamente ditados para médiuns por espíritos desencarnados. Li algumas páginas destas obras sobrenaturais, e confesso que não me impressionei nem um pouco. Não consegui identificar qualquer variação no estilo monocórdio e edulcorado que espíritos distintos teimavam em usar. Me abstive de comentar esse fato com a minha amiga, pois como dizia Pirandello, "assim é, se lhe parece".
Esses dias examinei um artigo sobre uma editora espírita que já havia publicado vários livros psicografados. Num deles, uma coletânea de contos, figurava o nome de Gilberto Freyre. O trecho pinçado pelo autor do artigo era pouco menos do que um meloso rascunho de novela mexicana. Absolutamente diferente, tanto no estilo quanto na temática, das obras que Freyre escrevia, quando vivo: desencarnado, ele parecia roteirista de "Marissol". O artigo termina concluindo que a morte faz muito mal ao estilo de um escritor.
O próprio Kardec, no Livro dos Espíritos, alerta que, assim como no mundo dos vivos, no mundo dos espíritos também existem vigaristas. Talvez esses livros psicografados devessem vir com um selo assim: "Allan Kardec adverte: o espírito que ditou este livro pode ser um farsante".
ATÉ TU, BLOGGER?

Confirmando a teoria de que os softwares, em condições normais de temperatura e pressão, se comportam como bem entendem, ontem o BLOGGER me fez o favor de desfigurar meu post sobre Borges, expondo-me ao ridículo. Já contatei meus quinze advogados e eles estão salivando. Acho melhor o pessoal do BLOGGER depositar logo alguns milhões na minha conta numerada em Cayman ou irei soltar os advogados da coleira.
Terça-feira, Julho 09, 2002
BORGES

Dentre os muitos excelentes escritores argentinos, Jorge Luis Borges (1899-1986) se destaca pela multiplicidade de temas que aborda em seus textos; pela clareza e despojamento do estilo; e pela casualidade com que vai destilando sua imensa cultura - quase como se estivesse conversando com um amigo num café da calle Florida.
Borges ocupou o cargo de diretor da Biblioteca Nacional e foi membro da Academia Argentina de Letras. Em 1956, foi proibido de ler e escrever pelo seu oftalmologista. A partir daí, dependeu totalmente de sua mãe e outros generosos amanuenses. Lentamente, aprendeu a compor textos de memória e ditá-los depois. O texto abaixo foi extraído de "Otras Inquisiciones", de 1952.

O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS

Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. Essa omissão é justa, se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614, Wilkins morreu em 1672, Wilkins foi capelão de Carlos Luís, príncipe palatino; Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford, Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres, etc.); mas condenável, se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia, pela criptografia, pela música, pela confecção de colméias transparentes, pela trajetória de um planeta invisível, pela possibilidade de uma viagem à lua, pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophícal Language (600 páginas in-quarto,1668). Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional; consultei, para redigir esta nota, The Life and Times of John Wilkins (1910), de P. A. Wright Henderson; o Wörterbuch der Philosophie (1924), de Fritz Mauthner; Delphos (1935), de E. Sylvia Pankhurst; Dangerous Thoughts (1939), de Lancelot Hogben.
Todos nós, em algum momento, já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama, esbanjando interjeições e anacolutos, jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon". Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua", nada se pode acrescentar a tais debates; excetuando as palavras compostas e as derivações, todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos. Não há edição da Gramática de la Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos, felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola", mas trata-se de pura vangloria, sem nenhuma corroboração. Por outro lado, essa mesma Real Academia elabora, a cada tantos anos, um dicionário que define os vocábulos do espanhol... No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII, cada palavra define-se a si mesma. Descartes, em uma epístola com data de novembro de 1629, já anotara que, mediante o sistema decimal de numeração, é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo, que é o dos algarismos(*); ele também propôs a formação de um idioma análogo, geral, que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. John Wilkins, por volta de 1664, acometeu o intento.
Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros, subdivisíveis em diferenças, por sua vez subdivisíveis em espécies. Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras; a cada diferença, uma consoante; a cada espécie, uma vogal. Por exemplo: de, quer dizer elemento; deb, o primeiro dos elementos, o fogo; deba, uma porção do elemento fogo, uma chama. No idioma análogo de Letellier (1850), a quer dizer animal; ab, mamífero; abo, carnívoro; aboj, felino; aboje, gato; abi, herbívoro; abiv, eqüino; etc. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845), imaba quer dizer edifício; imaca, serralho; imafe, hospital; imafo, lazareto; imarri, casa; imaru, chácara; imedo, poste; imede, pilar; imego, piso; imela, teto; imogo, janela; bire, encadernador; birer, encadernar. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal, do doutor Pedro Mata.)
As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários; cada uma das letras que as integram é significativa, como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso; depois, no colégio, elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta.
Definido o procedimento de Wilkins, falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. Consideremos a oitava categoria, a das pedras. Wilkins divide-as em comuns (pederneira, cascalho, piçarra), módicas (mármore, âmbar, coral), preciosas (pérola, opala), transparentes (ametista, safira) e insolúveis (hulha, greda e arsênico). Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre, azougue), artificiais (bronze, latão), recrementícios (limalhas, ferrugem) e naturais (ouro, estanho, cobre). A beleza figura na décima sexta categoria; refere-se a um peixe vivíparo, oblongo. Essas ambigüidades, redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo, (1) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1.000 subdivisões, correspondendo a 262 ao Papa; a 282 à Igreja Católica Romana; a 263 ao Dia do Senhor; a 268 às escolas dominicais; a 298 ao mormonismo; e a 294 ao bramanismo, budismo, xintoísmo e taoísmo. Não recusa as subdivisões heterogêneas, verbi gratia, a 179: "Crueldade com os animais. Proteção dos animais. O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. Vícios e defeitos vários. Virtudes e qualidades várias".
Registrei as arbitrariedades de Wilkins, do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas; notoriamente, não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. "O mundo - escreve David Hume - talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de sua execução deficiente; ou a obra de um deus subalterno, alvo de zombaria dos deuses superiores; ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada, que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion, V, 1779). Pode-se ir além; pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico, unificador, que tenha essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjeturar seu propósito; falta conjeturar as palavras, as definições, as etimologias, as sinoníinias do secreto dicionário de Deus.
A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode, contudo, dissuadir-nos de planejar esquemas humanos, mesmo sabendo que eles são provisórios. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos; o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é, sem dúvida, engenhoso. A palavra salmão não nos diz nada; zana, o vocábulo correspondente, define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso, fluvial, de carne avermelhada. (Teoricamente, não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino, passado e vindouro.)
Esperanças e utopias à parte, talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal... Crê, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fusões e conversões, podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. F. Watts, p. 88, 1904).

(*) Teoricamente, o número de sistemas numéricos é ilimitado. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos, um para cada número inteiro; o mais simples requer apenas dois. Zero escreve-se 0, um 1, dois 10, três 11, quatro 100, cinco 101, seis 110, sete 111, oito 1000... É invenção de Leibniz, que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching.
Domingo, Julho 07, 2002
DA SÉRIE "ENSAIOS ZODIACAIS": MULHERES DE ESCORPIÃO

Uma agência de encontros novaiorquina pedia uma lista de "nãos" definitivos, para cada inscrito(a), relatando o que seria inadmissível num pretendente, para que eles pudessem restringir a pesquisa a candidatos(as) mais palatáveis ao freguês. Depois de um tempo, a empresa notou que havia um padrão nas listas masculinas e femininas. Vejam só.

A LISTA DE NÃOS MASCULINA

- Mulheres fumantes
- Mulheres com filhos
- Mulheres do signo de Escorpião

A LISTA DE NÃOS FEMININA

- Homens fumantes
- Homens com filhos
- Homens do signo de Escorpião

Parece que este signo não é exatamente popular, mas isso é um preconceito absurdo. Conheci várias escorpianas e me relacionei sem problemas com todas elas. Claro, elas são terrivelmente possessivas, egoístas, manipuladoras e volúveis; porém, sabendo administrar isso, é possível enriquecer a biografia com trepadas memoráveis. E não paramos por aí, elas costumam ser mulheres inteligentes e boas de papo - com a exceção de uma maluca que conheci, e que se julgava vítima de perseguição pela maçonaria (?!?!). Inteligentes, ninfomaníacas, porra-loucas, possessivas, assim são as escorpianas.
O DIA EM QUE SATURNO PISCOU PARA JÚPITER

Eu sabia que a merda ia bater no ventilador. Morava com Papa e Mama, tinha 22 anos e o velho não parava de me aporrinhar.

- E aí, quando é que tu vai arranjar um emprego?

Emprego, emprego, emprego. Que troço chato. O que eu queria ser mesmo era guitarrista. Ninguém me entendia. Por que ficar feito trouxa trabalhando oito, dez horas por dia para encher o bolso do patrão, e recebendo uma merreca por isso? Acabava que nem o meu pai, depois de 40 anos no mesmo emprego, fazendo algo que detestava, se aposentando com uma mixaria e dando graças a Deus que tinha conseguido comprar a casa própria e um carro. Quer dizer, algo parecido com um carro.

O que me fudeu foi o exército. Tinha terminado o segundo grau e me pegaram pelo pescoço. Nada de desculpas: batalhão de comunicações. Nem gosto de me lembrar deste tempo. Vamos dizer que, depois de um ano, conseguiram fazer com que eu desenvolvesse um verdadeiro horror a qualquer tipo de disciplina. Fiz tudo certo, mas rangendo os dentes. Quando saí, jurei por todos os deuses e universos existentes que jamais me submeteria a outra pessoa.

Aí é que estava o problema. Os meus amigos até me arranjavam algum tipo de serviço, mas não durava muito. Dois, três dias, no máximo. Num deles, fiquei um dia apenas. Era vendedor de sapatos. Me colocaram dentro de um uniforme ridículo e eu tinha que ficar na porta da loja, prestando atenção nas mulheres que paravam defronte à vitrine. Se demoravam um pouco além do normal, tinha que me aproximar, sorrindo, e dizer algo como "a senhora não gostaria de entrar?"

Então a mulher entrava - geralmente uma gordona feiosa - e escolhia um sapato para experimentar. Acomodava aquela bunda cheia de merda num dos sofás e eu tinha que catar no depósito um par de sapatos do número, modelo e cor que a aberração da natureza tinha escolhido. Claro que eu demorava, pois ainda não conhecia bem o depósito. Quando eu voltava, a mulher já estava me olhando feio. Tinha que me ajoelhar - eu disse AJOELHAR - na frente daquela criatura repugnante e TIRAR O SAPATO DELA. Como era verão, subia aquele chulé asqueroso e eu tinha que continuar sorrindo. Calçava o sapato no pé daquela imensa gelatina de bosta e aí ela se levantava, andava até o espelho que ficava apoiado no chão e se virava de um lado para o outro. Levava uma eternidade. Aí ela voltava e me perguntava: "não tem amarelo?"

Agüentei até o meio-dia. Na hora do almoço, tirei o uniforme e falei pro gerente: "amanhã eu venho acertar os papéis."

Assim era a coisa. Até o dia em que comprei a guitarra. Uma tia minha, provavelmente devido a senilidade precoce, me deu 500 paus de presente de aniversário, em segredo - pois o velho ia falar pra caralho se soubesse que a irmã dele estava dando dinheiro para um "vagabundo que não quer saber de nada". Beijei as mãos da minha tia, emocionado. Saí correndo para o centro da cidade, como se o céu tivesse se aberto e alguma porra de um arcanjo tocasse harpa para mim.

Na loja de instrumentos musicais, escolhi minha guitarra. Era uma imitação muito vagabunda de uma Gibson Flying V que pesava meia tonelada. Mas era o que o dinheiro podia comprar. O vendedor ficou curioso: "qual o amplificador que tu usa?" Respondi que não tinha amplificador. O sujeito me perguntou então como é que eu pretendia tocar. Disse que ia ligar no aparelho de som, aí ele caiu na gargalhada. Me disse que era até possível, mas a qualidade do som que ia sair era mais ou menos a de um radinho de pilha. Perguntei quanto era um amplificador de guitarra. Ele me falou números grandes demais para meu bolso. Só dava mesmo para comprar o instrumento. Merda, tudo bem. Voltei para casa abraçado com minha querida guitarrinha.

No firmamento, os planetas giravam e tramavam uma conspiração para enxovalhar meu futuro.

Como já disse, o velho tinha algo parecido com um carro. Disse "parecido" porque estava em petição de miséria. Era um fiat 147 de duas cores: bege e ferrugem. As portas não tinham trinco, eram fechadas com fios de arame. O banco do acompanhante era solto, o que transformava qualquer passeio em uma sessão num touro mecânico. O câmbio só ia até a segunda marcha - o que, pensando bem, até era melhor, pois aquele amontoado de ferro velho podia se desmanchar em velocidades mais elevadas. Para dar ignição, eu precisava empurrar o traste enquanto o velho ficava girando a chave até o motor pegar. Aquele carro era uma espécie de resumo irônico da vida do meu pai.

Não à toa, Papa entornava uma birita. Tendo vivido uma vidinha patética como a dele, era melhor esquecer de si mesmo. Pois no dia em que comprei a guitarra, o velho tinha saído de carro (que milagrosamente tinha dado partida sem ter que ser empurrado - não falei que os astros estavam de sacanagem comigo?) para ir ao boteco encher a cara.

Ainda não falei que morávamos em uma casa afastada da cidade, com um vastíssimo quintal e muito verde ao redor. A estradinha que levava até a rodovia era de terra batida.

Pois bem, voltei para casa com minha guitarra enquanto o velho estava no bar, bebendo, e minha mãe estava visitando uma vizinha. Liguei o instrumento no aparelho de som e comecei a tocar. Tinha algumas noções de música, que um colega de quartel me ensinara em um violão ensebado. O vendedor estava certo: o som que saía era horrível. Mas eu estava feliz, me sentindo uma espécie de Kurt Cobain rural. Já podia prever um futuro tão brilhante que teria de usar óculos escuros. Carros. Mulheres. Mansões. Mulheres. Iates. Mulheres. Viagens. Mulheres.

Enquanto me deleitava com esta edificante meditação, o velho estava tomando a saideira no boteco. Tinha bebido bem mais que o normal. Pegou o carro, que novamente deu partida sem problemas, e foi guiando até em casa. Quando ele saiu da rodovia e entrou na estradinha de terra, já nem se lembrava do enorme buraco que a chuva tinha cavado na terra batida e que a prefeitura não tapava fazia três meses. Por enorme, quero dizer que o buraco tinha uns 2 ou
3 metros de diâmetro por um de profundidade. Foi lá que Papa entrou com carro e tudo. Por sorte, ele conseguiu sair do veículo e do buraco, mas ficou furioso, claro. Eu diria, mais que furioso. A combinação de muita birita com o acidente estúpido que havia acontecido por descuido dele próprio o havia transformado em uma besta irracional.

Neste ponto, Saturno pisca o olho para Júpiter.

O velho subiu a estradinha, bufando e praguejando. Perto de casa, pôde ouvir a minha interpretação de Smoke on the water, do Deep Purple. Quando ele abriu a porta e me viu tocando guitarra na sala, seu rosto ficou roxo. Parei de tocar, prevendo encrenca.

- DE ONDE SAIU ESSA MERDA?
- É emprestada de um amigo.
- DESLIGA ESSA PORRA! DESLIGA ESSA PORRA!
(despluguei a guitarra do som)
- JUNTA A TUA ROUPA E SAI DA MINHA FRENTE!
- Hein?!?
(ele me agarra pela gola da camisa e grita na minha cara)
- VAGABUNDO! VAI TRABALHAR! SEU MERDA! SEU MEEERDAAA! SOME DAQUI! VAI EMBORA ANTES QUE EU TE MATE, DESGRAÇADO!

Bem, percebi que o mais sensato a fazer era sair dali mesmo, antes que ele partisse para a porrada. Seria ridículo sair no soco com o meu próprio pai. Enfiei minhas 3 camisas, 2 cuecas, uma calça e um tênis na mochila. Estava também de saco cheio com aquela situação. Foda-se. Enquanto o velho estava na cozinha, bebendo mais cachaça, entrei no quarto dos meus pais e peguei uma grana da bolsa de Mama. Ela entenderia. Agarrei a guitarra e saí silenciosamente do meu "lar, doce lar", em direção ao maior, mais atemorizante, mais estimulante ponto de interrogação que já tinha visto.
Sexta-feira, Julho 05, 2002
THANKS GOD IT'S FRIDAY! (tm)

Sim, meus caríssimos bigorrilhos: o Todo-Poderoso nos concedeu mais uma sexta-feira. Hoje irei ordenar uma noviça que insiste em seguir meus Santos Ensinamentos. Em caráter absolutamente sigiloso, revelarei aqui todo o procedimento que consubstancia o Ritual de Ordenação.

1. ENDOSCOPIA. Material necessário: um funil grande, um metro de mangueira, uma lata de cerveja e uma dose de vodka. Modo de usar: conecte a mangueira na saída do funil; peça para a menina se sentar numa cadeira e tampar a ponta livre da mangueira com o dedo; jogue a dose de vodka no funil e depois a cerveja; erga o funil bem acima da cabeça dela; peça para ela enfiar a ponta da mangueira na boca e destampá-la. É importante que ela NÃO tente engolir a bebida em etapas; deve apenas deixar o esôfago livre para que o estômago se encha imediatamente. Claro que às vezes dá lambança mas, se tudo der certo, ela estará devidamente calibrada em questão de segundos.

2. CONFISSÃO. Material necessário: lenços de papel e uma garrafa de conhaque. Modo de usar: vá servindo cálices de conhaque para a moça. Depois de um tempo, pergunte se ela nunca sentiu algo especial por um primo, ou ficou arrepiada quando o cachorro lambia suas coxas. Nesta altura do campeonato, é provável que a moçoila se desmanche em lágrimas de saudade (talvez do primo, talvez do cachorro), e os lenços de papel serão providenciais.

3. KARAOKÊ. Material necessário: nenhum. Modo de usar: ofereça o microfone para a moça e peça "Happy Birthday" na versão Marylin Monroe bêbada, cantando para JFK.

4. ARREPENDIMENTO. Material necessário: KY. Modo de usar: ei, vocês já estão cansados de saber como se faz isso, né não?
AS MULHERES SE ENTREGAM A DEUS QUANDO O DIABO NÃO QUER MAIS SABER DELAS

Não me lembro direito qual o autor dessa frase, mas bem que poderia ser Honoré de Balzac, conversando com Bukowski no além-túmulo. Pensei nisso quando li, na última Galileu, sobre as conversões aparentemente improváveis de Monique Evans, Gretchen e Baby Consuelo (agora Baby do Brasil) ao Evangelho. Bem, pelo menos os cultos ficaram muito mais animados.
Quarta-feira, Julho 03, 2002
DEVEMOS APRENDER ATRAVÉS DA LEITURA?

Vejam só o que o escritor argentino Roberto Arlt (1900-1942) escreveu sobre a inutilidade dos livros.

Um leitor me escreve:

"Me interessaria muitíssimo que V.S.ª escrevesse algumas notas sobre os livros que os jovens deveriam ler, para que aprendam e formem um conceito claro, amplo, da existência (não excetuando, é claro, a experiência própria da vida)".

O CORPO NADA LHE PEDE...

O corpo não lhe pede nada, querido leitor. Mas, onde o senhor vive? Acredita, por acaso, por um minuto, que os livros lhe ensinarão a formar "um conceito claro e amplo da existência"? Está enganado, amigo; enganado até dizer chega. O que os livros fazem é desgraçar o homem, acredite. Não conheço um só homem feliz que leia. E tenho amigos de todas as idades. Todos os indivíduos de existência mais ou menos complicada que conheci haviam lido. Lido, desgraçadamente, muito.

Se houvesse um livro que ensinasse, veja bem, se houvesse um livro que ensinasse a formar um conceito claro e amplo da existência, esse livro estaria em todas as mãos, em todas as escolas, em todas as universidades; não haveria lar que, na estante de honra, não tivesse esse livro que o senhor pede. Percebe?

O senhor não percebeu ainda que se as pessoas lêem é porque esperam encontrar a verdade nos livros. E o máximo que podem encontrar num livro é a verdade do autor, não a verdade de todos os homens. E essa verdade é relativa... essa verdade é tão pequenininha... que é preciso ler muitos livros para aprender a depreciá-los.

OS LIVROS E A VERDADE

Calcule o senhor que na Alemanha publicam-se anualmente mais ou menos 10.000 livros, que abrangem todos os gêneros de especulação literária; em Paris ocorre a mesma coisa; em Londres, idem; em Nova Iorque, igual.

Pense nisto:

Se cada livro contivesse uma verdade, uma só verdade nova na superfície da Terra, o grau de civilização moral que os homens teriam alcançado seria incalculável. Não é assim? Agora, pense o senhor que os homens dessas nações cultas, Alemanha, Inglaterra, França, estão atualmente discutindo a redução de armamentos (não confundir com supressão). Agora, o senhor seja sensato por um momento. Para que serve uma cultura de dez mil livros por nação, despejada anualmente sobre a cabeça dos habitantes dessas terras? Para que serve essa cultura, se no ano de 1930, depois de uma guerra catastrófica como a de 1914, discute-se um problema que deveria causar espanto? Para que serviram os livros, o senhor pode me dizer? Eu, com toda sinceridade, declaro que ignoro para que servem os livros. Que ignoro para que serve a obra de um senhor Ricardo Rojas, de um senhor Leopoldo Lugones, de um senhor Capdevila, para circunscrever-me a este país.

O ESCRITOR COMO OPERÁRIO

Se o senhor conhecesse os bastidores da literatura, perceberia que o escritor é um senhor que tem o ofício de escrever, como outro, o de fabricar casas. Nada mais. O que o diferencia do fabricante de casas é que os livros não são tão úteis como as casas e, depois... depois que o fabricante de casas não é tão vaidoso como o escritor. Em nossos tempos, o escritor se acha o centro do mundo. Conta lorotas à vontade. Engana a opinião pública, consciente ou inconscientemente. Não revê suas opiniões. Acredita que o que escreveu é verdade, pelo fato dele ter escrito. Ele é o centro do mundo. As pessoas que experimentam dificuldades até para escrever para a família acreditam que a mentalidade do escritor é superior à de seus semelhantes e está enganada no tocante aos livros e no tocante aos autores. Todos nós, os que escrevemos e assinamos, o fazemos para ganhar o arroz-com-feijão. Nada mais. E, para ganhar o arroz-com-feijão, não vacilamos, às vezes, em afirmar que o branco é preto e vice-versa. E, além disso, às vezes até nos permitimos o cinismo de dar risada e de achar que somos gênios...

DESORIENTADORES

A maioria de nós que escreve, o que faz é desorientar a opinião pública. As pessoas buscam verdades e nós lhes damos verdades enganosas. O branco pelo preto. É doloroso confessá-lo, mas é assim. É preciso escrever. Na Europa, os autores têm seu público; para esse público, dão um livro por ano. O senhor pode acreditar, de boa fé, que em um ano se escreva um livro que contenha verdades? Não, senhor. Não é possível. Para escrever um livro por ano é preciso contar lorotas. Dourar a pílula. Encher a página de frases.É o ofício, "o métier". As pessoas recebem a mercadoria e acreditam que é matéria-prima, quando se trata apenas de uma falsificação grosseira de outras falsificações que também se inspiraram em falsificações.

CONCEITO CLARO

Se o senhor quer formar "um conceito claro" da existência, viva. Pense. Aja. Seja sincero. Não engane a si próprio. Analise. Estude-se. O dia em que o senhor conhecer a si próprio perfeitamente, lembre-se do que lhe digo: em nenhum livro vai encontrar nada que o surpreenda. Tudo será velho para o senhor. O senhor lerá por curiosidade livros e livros e sempre chegará a esta fatal palavra terminal: "Mas se eu já não tinha pensado nisso!" E nenhum livro poderá lhe ensinar nada. Salvo os que se escreveram sobre esta última guerra. Vale a pena conhecer esses documentos trágicos. O resto é papel...

El Mundo, 26/02/1930
trecho extraído de "Aguafuertes Porteñas", de Roberto Arlt


UMA DO VERÍSSIMO

Disparos aleatórios das minhas sinapses me trouxeram à lembrança uma tira do LFV que li faz muito tempo. Vou tentar descrever a estorinha.

Um indivíduo gordíssimo vai ao médico, que lhe faz um ultimato.

- Você tem que tomar uma decisão: ou faz um regime e vive, ou opta pelo churrasco, pela macarronada, pelo risoto e morre.

O gordo medita longamente e por fim pergunta:

- Esse risoto, é de que?
Terça-feira, Julho 02, 2002
A MICROSOFT SABE QUEM É VOCÊ

Este foi o subject de um e-mail que chegou na minha Santa Caixa Postal. Aí vai a mensagem na íntegra. Vejam o que o excesso de tempo livre - aliado a uma má Orientação Espiritual - pode fazer com a mente das pessoas... Tsc, tsc...

Tirei essa notícia de um portal de notícias. Vê se pode ........

O programa estava muito bem escondido mas foi descoberto.

Siga as instruções e fique pasmado com o que você vai ver.
Clique em: iniciar/Programas/Acessórios/Calculadora;
Clique no menu da calculadora na opção "Exibir";
Depois mude para a opção "Cientifica";
Agora Digite: 12237514
Não erre o número e fique atento...
Agora clique na opção hexadecimal, que fica no canto superior esquerdo da calculadora (hex), e veja sua identificação.
É incrível!!! Faça agora mesmo.

Segunda-feira, Julho 01, 2002
TECNOFOBIA

Criançada, mudei de novo o esquema de Arquivos e parece que, agora sim, ficou mais ou menos. E não aporrinhem meus viajados testículos; não tenho muita paciência com essas tecnicalidades: meu foco é no texto. Amém.
EU VEJO GENTE MORTA... O TEMPO TODO

Após a concretização da minha profecia de que seríamos Penta, creio que as coisas ficaram mais claras nas céticas cabecinhas dos que duvidavam da minha Paranormalidade e da minha Linha Direta com DEUS. A todos estes descrentes, envio uma solene banana metafísica. Agora vão se ajoelhar no milho, jejuar e se arrepender, senão os enviarei à boca do Lúcifer Maior. Amém.