Padre Levedo
Sábado, Agosto 31, 2002
GLAUCO MATTOSO (1951-)

Quando li a orelha da edição fac-similar do "Jornal Dobrabil" (um folhetim bizarro que Glauco fez circular entre 1977 e 81), me chamou a atenção a quantidade de elogios dispensados ao autor. Se me permitem a expressão plebéia, pagação de pau mesmo. O texto tecia loas à cultura enciclopédica delirante, ao domínio safado de várias línguas - entre elas o Volapuque e o Gujarati, ao despudor diante de todas as glórias, à erudição léxica de Glauco; e concluía com "cada palavra de Glauco Mattoso é uma reverberação. Não há como ultrapassá-lo." Assinado, Millôr Fernandes.

Que coisa. O Glauco já foi achincalhado a torto e a direito, e quem assina a orelha recheada de ovações do seu livro é o Millôr. Acho que Glauco merece, e muito, tudo o que foi dito. No final das contas, o que importa é quem nos elogia; quem faz escárnio de nós que vá pra puta que o pariu. E, cá pra nós, ser elogiado desta maneira escancarada logo pelo Millôr é uma consagração.

O site oficial do Glauco é passagem obrigatória para os que se interessam pela sua obra. Aqui irei mostrar alguns trechos do "Jornal Dobrabil".

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Arte é tudo aquillo que não tem utilidade ou que, tendo utilidade, a questiona (*). Antiarte seria tudo que, embora apparentemente inutil, tem a utilidade de mostrar que a arte não tem utilidade. A esthetica, portanto, não existe, pois sempre se descobrem utilidades para aquillo que é artístico, e sempre se inventam artes para aquillo que é utilitario, e assim não se podem estabelecer leis para separar o util do agradavel e o inutil do desagradável.

(*) Questiona-se a utilidade de alguma coisa usando a coisa para outra utilidade ou a utilidade para outra coisa.
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KALEIDOSCOPIO

Relendo cartas com olho unico.
Delenda Carthago com olho punico.
Lenda escripta com olho runico.
Lente elliptica com olho conico.
Mente espirita com olho cynico.
Demente hysterica com olho clinico.
Semente hermética com olho cyclico.
Serpente heretica com olho biblico.
Sentença enclitica com olho obliquo.
Substancia lithica com olho liquido.
Sciencia critica com olho logico.
Verdecencia cryptica com olho glauco.
Experiencia optica com olho cego
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MANIFESTO OBSONETO

dedicado a Kairo & Kac
(mas a indireta vai pra outros poetas ditos sujos que nunca esquecem o modess e trocam de meia de meia em meia hora)

Isso não é poesia que se escreva,
é pornografia tipo Adão & Eva:
essa nunca passa, por mais que se atreva,
do que o Adão dá e do que a Eva leva.

Quero a poesia muito mais lasciva,
com chulé na língua, suor na saliva,
porra no pigarro, mijo na gengiva,
pinto em ponto morto, xota em carne viva:

Ranho, chico, cera, era o que faltava!
Sebo é na lambida, rabo não se lava!
Viva a sunga suja, fora a meia nova!

Pelo pelo na boca, jiló com uva!
Merda na piroca cai como uma luva!
Cago de pau duro! Nojo? Uma ova!

EMENDA: um versificador mais atento certamente notará que não vou muito atrás do assento, digo, do acento, mas enfrento um metrinho rijo, digo, rígido, e fico em cima da rima...
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da série fábulas rasas

O CU E O CALÇADO

Corre nos guetos uma lenda segundo a qual todo bofe que tem pés grandes é muito bem dotado. Quando a bichinha debutante ficou sabendo, saiu pela rua feito um cachorrinho. Logo que viu um rapaz calçando tênis tamanho 44, tratou de segui-lo, calculando o comprimento do tênis. A oportunidade de conferir surgiu quando o rapaz entrou num mictório. A bichinha grudou-lhe no calcanhar e ficou de olho, mas - oh, decepção! - era só do tamanho do dedinho do pé. Não se aguentou, virou-se para o bofe e protestou: - Você não tem vergonha de ficar usando sapatos emprestados?

MORALIDADE: Mais vale uma sola na mão que dois palmos em vão.
MORALIDADE ASSOCIADA: Pé de galinha não mata pinto.
Quarta-feira, Agosto 28, 2002
LABOR IMPROBUS OMNIA VINCIT (*)

Recebi a visita do meu grande amigo Frei Damião (**), que bateu à minha porta às seis da manhã. Eu, que meditava sobre a transitoriedade da existência, me surpreendi em vê-lo tão cedo, já que é um notório beberrão, jogador e notívago.

- Damião! Já está de pé?
- Já não, ainda. Estou voltando do cassino.

Convidei-o a entrar. Por questões de cortesia, abri um merlot fraquinho - lembrem-se, era de manhã cedo - e servi dois grandes copos. Ele esvaziou metade do seu com dois goles.

- Hummm, era isso que eu precisava.
- Ganhou alguma coisa no blackjack?
- Depois de pagar as bebidas, saí empatado. O que já é lucro, pois não?

Conversamos um pouco mais. Principiamos a discorrer sobre as vantagens e desvantagens de uma vida pia, austera e casta. Obviamente, a parte das vantagens logo foi esquecida, pois não tínhamos nada a dizer. Passamos para as desvantagens. Damião citava Blake: "O Caminho do Excesso conduz ao Palácio da Sabedoria". Eu não deixava por menos e invocava Millôr Fernandes: "A abstinência é a mais estranha forma de perversão sexual".

Estávamos nesse pingue-pongue filosófico quando Damião iniciou uma espécie de monólogo exegético sobre simplex intelligentia, scientia visionis e scientia media, divisões da onipresciência divina. Sua voz foi ficando cada vez mais distante, enquanto eu me lembrava de um episódio ocorrido na remota época em que eu era um ímpio e um pecador.

Nos tempos do curso noturno de química havia aquela colega, a Jô, que acabei conhecendo melhor e se transformou em uma grande amiga. O namorado dela aparentemente era cheio de tutu, pois tinha carrão e ia buscá-la todos os dias na porta do colégio. Numa bela noite, ela me ofereceu carona e aceitei. Pulei pro banco de trás do carro e depois de um tempo comentei com o namorado dela:

- Carrão, hein?
- Pois é, disse ele, me orgulho desse carro. Tudo o que eu tenho na vida eu consegui com esforço próprio. Nunca ganhei nada de mão beijada não. As pessoas sempre me perguntam como é que eu cheguei lá. E sempre respondo: com trabalho, muito trabalho. Eu sempre trabalhei muito.
- Falar em trabalho, disse a Jô, pegou a encomenda do Dodi?
- Sim e mais um pouco. Taí atrás. Levedo, faz favor, pega o pacote que está debaixo do banco da Jô.

Enfiei a mão debaixo do banco e puxei um pacote de dois quilos de ganja.

- CARALHO!

Os dois na frente gargalharam.

- Pessoal, eu disse, se vocês precisarem de ajuda com isso...

Fomos para o apartamento da Jô. Ela foi procurar alguma coisa na lavanderia e nós largamos o tijolo na mesa de centro da sala. O boyfriend dela serviu 3 doses de uísque e ficamos bebendo até que a Jô apareceu com uma serra e um jornal. Abriu o jornal no chão ao lado da mesa e desembrulhou o tijolo. Aí o cara calçou uma das pontas do tijolo com o joelho enquanto serrava a ponta que tinha ficado para fora da mesa. Minha função era segurar o bloco que ia se soltando e evitar que caísse no jornal, que estava aparando a "serragem". Depois de segmentar o tijolão em tijolinhos e embrulhá-los, sentamos e bebemos mais um uísque.

- Bem, falou o cara, já que acabou o trabalho, vamos à diversão.

Pegou o jornal e cuidadosamente, com uma habilidade impressionante, despejou a abundante serragem em papel-seda e confeccionou um Double-Corona Jamaicano.

Minhas reminiscências foram interrompidas por Damião, que me perguntava:

- Você concorda comigo, Levedo?
- Hein? Porra, acho que é isso mesmo. Droga, acabou o vinho.
- Vamos tomar a saideira na padaria?
- Fechado. Simbora.

Descemos a rua. O sol já brilhava forte. Parecia que ia ser um dia legal. Pelo menos tinha começado bem.

(*) soltando a tecla SAP: o trabalho persistente vence tudo. Latim é o que há!
(**) o nome é fictício
Terça-feira, Agosto 27, 2002
O PONTO MAIS ALTO DA CARREIRA

Foi tudo muito rápido. O Executivo Bem-Sucedido sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou, deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal. Ainda meio zonzo, atravessou-o e deu de cara com uma miríade de pessoas, todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas.

Sem entender bem o que estava acontecendo, o executivo bem-sucedido abordou um dos passantes:

- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para meu escritório porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazido para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No Céu.
- No, no Céu?...
- É.
- Tipo assim, o Céu, aquele? Com querubins voando e coisas do gênero? Que é isso, amigo, você está com gozação?
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), o executivo bem-sucedido custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva. Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis Técnicas Avançadas de Negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ele iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotado para assumir a posição de vice-presidente na empresa. E foi aí que o interlocutor sugeriu:

- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o Síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (tlec!)

Surge Pedro.
- Pois não?

O executivo bem-sucedido quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro. Mas o executivo havia feito um curso intensivo de Approach para Situações Inesperadas e reagiu rapidinho:

- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou um executivo bem-sucedido e...
- Executivo...Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executivo"?
- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que o executivo bem-sucedido teve um insight. A máxima autoridade ali no Paraíso aparentava ser um zero à esquerda em Modernas Técnicas de Gestão Empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, o executivo poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.

- Sabe, meu caro Pedro, se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na Produtividade Sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho peagadê em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
- Ah, não sabemos.
- Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
- Hã?
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo, isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option, com uma campanha motivacional impactante, tipo "O Céu é seu".
- Fantástico!
- É claro que antes de mais nada precisaríamos de uma hierarquização e de um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver. Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo! O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias hi-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado esotérico, por exemplo, me parece extremamente atrativo.
- Incrível!
- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teríamos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo: o desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que poderemos partir para a implementação?
- Não, significa que você terá muito futuro em nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno.
OH, MULHERES DE POUCA FÉ!

Após ausentar-me por alguns dias para importantes reuniões da Cúria Metropolitana, eis que eu - o Sacerdote Maldito - estou de volta brandindo meu Santo Cajado.
Sexta-feira, Agosto 23, 2002
UM JIPE NA MÃO E NADA NA CABEÇA

Existe um certo tipo de pessoa cuja principal finalidade neste mundo é gerar caos. São gente boa, aparentemente normais, conversam com civilidade, mas não podem ficar um dia sequer sem sacanear alguém. Acho que isso é uma síndrome e deveria ser estudada pelas psicólogas. Aliás, por que será que as psicólogas normalmente são boazudas? Certa vez fui numa entrevista para ver se conseguia emprego e a psicóloga do RH, uma morena com seios enormes, surge na minha frente com um decote mais profundo que a crise da Argentina. Ela parecia duas bolas de sorvete espremidas numa só casquinha. Aquele decote atraía meus olhos como novelos de lã atraem gatinhos. Perdi parcialmente o contato com a realidade, na contemplação daquelas imensas protuberâncias mamárias. Não conseguia compreender direito o que ela me perguntava tampouco responder com uma frase completa, e provavelmente por isso recebi uma avaliação de "disperso" e não consegui o emprego. Mas, tergiverso.

Estamos no ano de 1959.

O Odone sofria dessa síndrome de sacanear os outros. Estava sempre pensando nisso. Uma vez conseguiu o telefone de um notório conquistador da cidade onde morava. Muito habilidoso com a voz, ligou para o sujeito fazendo-se passar por mulher, e querendo marcar um encontro. Ele se descreveu fisicamente para o Don Juan como sendo uma irmã gêmea da Angelina Jolie, se ela fosse nascida na época. O cara, maravilhado, disse que o encontro podia ser em qualquer dia, qualquer hora. A "Angelina" então marcou ao meio-dia, na frente de um asilo para cegos, onde não havia árvore num raio de duzentos metros, tampouco qualquer marquise ou abrigo. Era um verão escaldante, um dos piores que já se tinha visto. Ele ainda arrematou, fazendo uma voz melíflua: "Vá vestido com astracã, acho tão chique homem de astracã(*)!"

Pois o tal conquistador se postou na frente do asilo, no dia e hora combinados. Trajava astracã, camisa e gravata. O sol estava de rachar, e à medida que o tempo ia passando, as gotas de suor se multiplicavam na sua testa. E nada da "mulher" aparecer. E nenhuma árvore, nenhuma sombra onde se abrigar. Uma da tarde. Nada da beldade, e a camisa já estava encharcada de suor fazia tempo(**). Aí o Odone passou pela frente do asilo, só para ver se o golpe tinha surtido efeito. Apenas deu uma olhadinha para o otário e passou reto, gargalhando.

Pois um dia Odone arrumou um jipe, caindo aos pedaços. O jipe não tinha uma cor bem definida, era algo entre verde e ferrugem; mas bem ou mal andava, o que era o mais importante.

Ele tinha esse amigo, um tal de Toninho Vagareza, que também adorava sacanear os outros. "Toninho" era um armário de três portas, todas abertas. Um cara totalmente pacífico, mesmo porque ninguém seria louco de sair no braço com ele sem ter um ou dois exércitos de reforço.

Foi Odone quem fez a proposta pro Toninho, proposta essa imediatamente aceita.

O Toninho pegou uma velha espingarda do seu pai, que nem disparava mais. Entrou no jipe e foram para o centro da cidade. Chegaram na frente de uma loja com bastante movimento e jogaram o carro para cima da calçada, bem à frente de um sujeito que ia passando. Saltam Odone e Toninho - com a espingarda -, e Odone começa a berrar, para estupefação do anônimo pedestre:

- FOI ELE, ANTÔNIO! FOI ELE QUE DEFLOROU A TUA IRMÃ! É ELE MESMO!

Então o armário de três portas apontava a espingarda para o transeunte já paralisado pelo medo. Aí eles ouviam de tudo: lamúrias, confissões inesperadas, biografias condensadas, declarações de amor à mãe, ou apenas uivos. Depois da "performance", saíam rindo para tomar uma cerveja.

Repetiram a brincadeira umas três vezes até o dia em que o jipe do Odone quebrou de vez. Os comerciantes do centro da cidade deram graças a Deus.

(*) o astracã é um tecido composto de lã trançada, para climas MUITO frios
(**) na maioria das espécies animais, os machos fazem coisas inacreditavelmente estúpidas para conseguirem uma trepada; o homem faz parte dessa maioria
Quinta-feira, Agosto 22, 2002
MARIANNE MOORE (1887-1972)

Dizem que talvez Marianne Moore tenha sido a figura mais original da poesia norte-americana, justamente num período em que esta esbanjava originalidade. O andamento de prosa que imprimiu a seus versos, entretanto discretamente rimados, a metrificação silábica em vez da acentual como é comum em inglês, as citações aspeadas que incluía em seus poemas e que os assemelhava a uma colagem, tudo isso provocou a princípio espanto e logo a seguir admiração nos poetas seus contemporâneos e nos que vieram depois. Eis um dos seus poemas:

IN THIS AGE OF HARD TRYING,
NONCHALANCE IS GOOD AND

"really, it is not the
business of the gods to bake clay pots ". They did not
do it in this instance. A few
revolved upon the axes of their worth
as if excessive popularity might be a pot;

they did not venture the
profession of humility. The polished wedge
that might have split the firmament
was dumb. At last it threw itself away
and falling down, conferred on some poor fool, a privilege.

"Taller by the length of
a conversation of five hundred years than all
the others", there was one, whose tales
of what could never have been actual -
were better than the haggish, uncompanionable drawl

of certitude; his by-
play was more terrible in its effectiveness
than the fiercest frontal attack.
The staff, the bag, the feigned inconsequence
of manner, best bespeak that weapon, self-protectiveness.
Quarta-feira, Agosto 21, 2002
EU SEI DE TUDO!

Dois moleques estavam brincando quando um deles disse: "Ei, Juquinha(*), eu sei uma maneira de ganhar grana que sempre funciona!" Claro que o outro quis saber. "É o seguinte: cê chega pro seu pai e fala, bem sério: 'pai, eu sei de tudo'. Aí ele te dá um dinheiro pra ficar de bico calado. Vai por mim: não falha!"

O Juquinha meditou sobre o assunto durante um breve tempo e resolveu testar. Chegou em casa, lá estava papi tomando cerveja e vendo uma partida de futebol. Ele chegou do lado da poltrona e falou pro pai, bem sério: "pai, eu sei de tudo!"

O pai, imediatamente, disse bem baixinho: "Shhh, quieto, moleque! Tua mãe tá lavando louça na cozinha e pode ouvir! Toma aqui dez reáu e cala essa boca!"

Juquinha, encantado, pensou: "Caralho, não é que essa merda funciona mesmo!"

E estendeu seu pequeno raciocínio: "Mas, se funcionou com o papai, bem que pode funcionar com mamãe...."

Chegou na cozinha, onde a mãe estava com o umbigo colado na pia, lavando louça. O petiz se aproximou e disse, bem sério: "Mamãe, eu sei de tudo!"

A mulher largou uma panela que estava lavando, enxugou as mãos com o pano de prato e falou bem no ouvido do moleque: "Shhh, quieto, Juquinha! Teu pai está na sala e pode ouvir. Toma aqui cinco reáu e vai brincar lá fora, vai!"

Sentindo-se o Edir Macedo de sua geração, Juquinha saiu feliz da vida com o dinheiro. Na porta de casa topou com o carteiro, que vinha entregar uma pilha de propagandas inúteis e contas.

"Será que funciona com o carteiro também?", pensou o pequeno crápula. Chegou para o funcionário do Glorioso Correio Nacional e disse: "Senhor carteiro, eu sei de tudo!" O sujeito parou, olhou para ele e disse "Ah, cê sabe de tudo, moleque?" E o Juquinha: "Sim, eu sei de tudo!" Aí o carteiro falou:

"Então me dá um abraço, filhão!"

(*) o nome foi alterado para preservar a identidade do fedelho
COISA FINA

Estava eu conversando com minha noviça predileta quando acabou o uísque. Essa é uma das raras situações em que me bate um formidável mal-estar. Havia que ser tomada uma atitude.

Fui buscar o uísque e encontrei uma 'oferta' no pão de açúcar: Jack Daniels (750 ml) a incríveis 72 reais!!! Quase mando o Abílio Diniz enfiar no rabo aquelas garrafas. E tem aquelas vitrines com tranca, onde eles colocam os produtos mais caros. Eu estava atrás de um Passport, e este Passport estava enjaulado. Pedi para uma mocinha que ia passando para abrir o cofre-forte dos tesouros etílicos. Enquanto ela ia buscar a chave, fiquei reparando nas bebidas que estavam sob tão severo esquema de segurança. Sabem o que encontrei lá? Um Drury's. De 13 reáu. Enquanto na prateleira dos vinhos, logo ao lado, havia várias garrafas desprotegidas com preços bem acima do Drury's. Vá entender...
Segunda-feira, Agosto 19, 2002
O ÉBRIO (VICENTE CELESTINO)

Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou

Só nas tabernas é que encontro meu abrigo
Cada colega de infortúnio é um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam os meus tormentos

Já fui feliz e recebido com nobreza até
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha fé
E nos parentes... confiava, sim!

E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então
O falso lar que amava e que a chorar deixei
Cada parente, cada amigo, era um ladrão
Me abandonaram e roubaram o que amei

Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração

Quero somente que na campa em que eu repousar
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo
Domingo, Agosto 18, 2002
BUTANIKU NO SHIOGAYAKI

A culinária japonesa é austera mas repleta de boas surpresas. Nunca me esqueci da primeira vez que fui a um restaurante japonês e pedi carne de porco grelhada ao molho de gengibre; foi algo como que uma revelação divina. Como a dona do restaurante foi com a minha cara, me passou a receita.

Comece abrindo uma garrafa de saquê. Dizem que o saquê é uma das bebidas mais complicadas de se produzir: há a fermentação do arroz, múltiplas filtragens, o controle da temperatura e etc e etc. Acho que dizem isso só para aumentar o preço da garrafa, mas tudo bem. O saquê nacional é tão bom quanto o japonês. Na verdade, o melhor saquê que já bebi era americano, o Gekkeikan.

O saquê pode ser bebido quente (não aqueça demais senão o álcool evapora), na temperatura ambiente ou gelado. Tome um bom gole. Veja como ele não parece ser muito forte, mas não se iluda. Já comi muita gente graças a essa característica "ninja" do saquê: ter muito álcool e não aparentar. Mas, onde estávamos?

O molho. Esse é todo o segredo da coisa. Pegue um gengibre, descasque, rale e esprema o suco com as mãos em uma xícara. Pronto, a parte mais difícil passou. Acho que já dá para beber mais um saquê, né?

O velho Edmundo, num de seus surtos de loucura, me confidenciou que os japoneses, na verdade, são extraterrestres tentando se passar por humanos. Foi terrível o esforço que fiz para não rir na cara dele - o velho era forte pra caralho, e poderia ficar violento.

Bem, adicione shoyu, açúcar, saquê e um pouco de óleo ao suco de gengibre. Não coloque muito saquê - o que a gente vai beber depois?

Deixe finas fatias de lombo de porco no molho de gengibre por uns dez minutos. Aproveite esse tempo e beba mais saquê. Perceba como é fácil ficar de porre bebendo esse troço. Parecia um vinhozinho branco inofensivo, né?

Esquente um pouco de óleo numa frigideira em fogo médio, adicione as fatias de carne de porco e grelhe os dois lados até dourar. Não dê uma de mané, sobrepondo as fatias. Se for necessário, frite uma por uma. Vá bebendo, enquanto isso.

Depois da carne toda frita, coloque na frigideira e despeje o molho de gengibre - não me diga que você botou fora, Joãozinho - e cozinhe em fogo médio até a carne atingir o ponto de "glaçado", ou seja, ficar com brilho. Então é só cantar a música tema do Ultra-Man e partir pro abraço.
SUSHI

era o nome da música que Oscar Peterson estava tocando no Ibirapuera, numa manhã de verão escaldante. Era bebop, o que significa: apenas um pretexto para improvisar como um doido. Iniciou um duelo entre ele e o guitarrista, um escandinavo de nome Ulf. Isso, cá pra nós, não é nome, é mais um desabafo. Com aquela música, esqueci de tudo, do calor, da minha latinha de cerveja, do suor.

Quando eles partiram para uma música mais lenta
e "cool", passou um vendedor de cerveja que deu um berro que ecoou por toda a frente do palco:
- OLHA A KAISER BEM GELAAAADAAAA!
E todo mundo:
- SHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!
Aí então ele, sem perder a pose:
- Porra, parece que tão num velório!
Sexta-feira, Agosto 16, 2002
MONEY TALKS, SHIT WALKS

Talvez a mais valiosa de todas as propriedades humanas, depois de um ar de empáfia e superioridade, seja a reputação de bem-sucedido. Nenhuma outra coisa torna a vida mais fácil. Em 90% dos homens existe um impulso irresistível para se ajoelhar aos pés da riqueza, submeter-se ao poder que ela detém e enxergar toda espécie de superioridade nos ricos ou nos que se dizem ricos. É verdade que há sempre uma ponta de inveja junto com isto, mas é uma inveja expurgada de ameaça: o homem inferior, no fundo, teme fazer mal ao homem com dinheiro; tem medo até de pensar mal dele pelo menos de alguma forma patente e ofensiva. O que paralisa o ódio natural deste homem por seu superior é, digamos, a tímida esperança de que talvez lhe sobrem até alguns trocados se for bonzinho - e que lhe renderá mais soprar do que morder.

Seja qual for o processo psicológico, chega-se sempre a uma grande afabilidade. Espalhe a notícia de que Fulano arrasou no mercado de ações, casou-se com uma viúva rica ou passou a perna no governo em alguma transação patriótica e logo todos se convencem de que o desmazelo de Fulano pelas roupas é só uma excentricidade, que sua opinião sobre vinhos merece ser ouvida ou que suas alucinações políticas são dignas de atenção. O homem considerado pobre nunca tem a menor chance. Ninguém quer ouvi-lo. Ninguém dá a mínima para o que ele pensa, sabe ou sente. Ninguém tem paciência para suas lamentações. Aprendi isto cedo na vida e o pus em prática desde então. Já lucrei muito mais com homens (e mulheres) pela reputação de estar bem de vida do que por ter sido honesto com eles, ou por espantá-los com minha sagacidade, por dar duro no trabalho ou talvez por uma espécie de beleza singular e inefável.
Quinta-feira, Agosto 15, 2002
RESPOSTA DO TESTE DO MOLHO PARA CARNE HUMANA DO DR. LECTER

Se você respondeu a, c, h, você é uma pessoa normal, porém levemente pervertida.
Se você respondeu b, d, g, você é uma pessoa normal, porém egocêntrica.
Se você respondeu e, f, i, você é uma pessoa normal, porém tente melhorar essa auto-estima.
Quarta-feira, Agosto 14, 2002
HANNIBAL LECTER DIZ QUEM VOCÊ É A PARTIR DO SEU MOLHO

Se você fosse assado e servido em uma bandeja de prata com guarnição de alface e legumes, qual seria o molho que mais combinaria com a sua carne?

a) Bechamel
b) Shoyu
c) Sauce Bernaise
d) Iogurte com hortelã
e) Vinagrete
f) Qualquer coisa que venha em sachets do McDonald's
g) O da mamma, capiche?
h) Molho Tártaro
i) Aquilo que eles põem no Churrasco Grego(*)

(*) Para os não-paulistanos que, em benefício de sua própria saúde, ignoram a existência do Churrasco Grego, eu explico: imaginem um espeto vertical giratório, com finas fatias de algo que parece ser carne espetadas até formar uma massa disforme que é fatiada aos poucos, e a "carne" (há dúvidas sobre a exata natureza da substância) é colocada em um pão francês e coberta com alguma coisa que tenta se passar por molho vinagrete, mas só levando ao Ratinho e pedindo exame de DNA para saber. Este quitute, mais um refresco "grátis", saía por 50 centavos no Centro Velho. Agora, com a alta do Dólar, não sei a quanto anda.

COMO AVALIAR O RESULTADO

Isso será postado amanhã. Aguardem.
Terça-feira, Agosto 13, 2002
A IMORTALIDADE DA ALMA

Quando se trata da imortalidade da alma, vou logo dizendo que, seja isto o que for, parece-me inteiramente inacreditável e grotesco. Não há uma única prova plausível a seu favor; mas há uma vasta massa de provas irrefutáveis contra ela, e essas provas só fazem crescer em peso e consistência toda vez que um teólogo abre a boca. Todos os argumentos favoráveis à imortalidade da alma podem ser reduzidos a quatro. O primeiro é lógico e se baseia na suposição de que seria impossível imaginar Deus criando uma besta tão nobre como o homem, e deixá-lo morrer sem mais aquela, depois de alguns anos desagradáveis na terra. A resposta é simples: posso imaginá-lo muito bem, assim como outras pessoas também podem. Além disso, não há razão para acreditar que Deus veja o homem como nobre: ao contrário, todos os testemunhos teológicos disponíveis apontam na outra direção. O segundo argumento é o de que a crença na imortalidade é universal na humanidade, e esta universalidade é uma ampla prova de sua verdade. A resposta é: a) que inúmeros homens discordam disto, alguns de maneira violenta e até com chacotas; b) que, mesmo que todos os homens dissessem sim, isto nada provaria, porque todos os homens certa vez disseram sim à existência das bruxas. O terceiro argumento é o de que os mortos, falando pela boca de médiuns bem-dotados, comunicam-se freqüentemente com os vivos, logo também devem estar vivos. Infelizmente, esta prova é tão dúbia que, para lhe dar crédito, é preciso um tipo especial de cabeça, e este tipo de cabeça está longe de ser convincente. O quarto e último argumento é francamente baseado na revelação: a alma é imortal porque Deus disse que é, e ponto.

Confesso que este último argumento me parece bem mais respeitável do que os outros: pelo menos, não faz nenhuma tentativa tola de asfixiar os métodos da ciência com uma proposição teológica. Mas, de qualquer forma, está cheio de ratoeiras óbvias. Seus proponentes vêem-se em sérias dificuldades quando instados a responder quando e como a alma entra no corpo, e de onde vem. Será especialmente criada em cada instância ou será o fruto de duas almas paternas? Em qualquer dos casos, em que momento ela surge? No momento da concepção ou pouco depois? No primeiro caso, o que acontece à alma de um zigoto expelido, digamos, uma hora depois da fertilização? Se a morte daquela alma se dá em seguida, então a alma não é imortal em todos os casos, o que significa que sua imortalidade não pode ser uma certeza em nenhum; e se, ao contrário, a alma vai para o Céu ou o Inferno, ou para qualquer outro escalão intermediário, somos levados a acreditar que os bispos e arcebispos que pululam além-túmulo são forçados a se associar, e em termos de igualdade, com formas que não aprenderam a pensar ou falar e parecem-se mais com girinos do que com cristãos. E se for respondido que todas as almas, depois da morte, evoluem até o mesmo ponto e perdem todas as características da carne, então qualquer esquema imaginável de jurisprudência post-mortem torna-se ridículo.

A suposição de que a alma entra no corpo algum tempo depois da concepção apresenta dificuldades tão ou mais sérias, mas vou poupá-los desta tortura. Será suficiente dizer que isto nos força a acreditar que, durante algum tempo, um embrião humano, apesar de vivo, não será um ser humano; ou que um ser humano pode existir sem alma. Ambas as hipóteses me revoltam - a primeira, como um estudante de biologia; a segunda, como um abnegado súdito de um grande Estado Cristão. Todas as respostas dos teólogos profissionais são inadequadas. Os católicos tentam driblar o problema despachando as almas dos não batizados a uma espécie de Limbus Infantum, o qual não é nem o Céu nem o Inferno, no que incorrem em petição de princípio. Quanto aos protestantes, eles simplesmente se recusam a discutir o assunto. Sua posição parece ser a de que todo mundo deve acreditar na imortalidade da alma por uma questão de decência e que, quando se chega a isto, os detalhes são irrelevantes. Mas meu apetite pelos detalhes continua a me azucrinar. Tenho de ser naturalmente curioso sobre uma doutrina que, se for provada verdadeira, será da maior importância para mim. À falta de luz sobre o assunto, continuarei acreditando com tristeza que, quando soarem os sinos e dispararem os canhões, e as pessoas se corroerem de dor enquanto meu barro humano estiver sendo embalsamado para ser exposto na Câmara de Vereadores de São Paulo, terá sido o verdadeiro fim de uma nobre e adorável criatura que, um dia, respondeu pelo nome de Levedo.
Segunda-feira, Agosto 12, 2002
DA SÉRIE "ENSAIOS ZODIACAIS": MULHERES DE SAGITÁRIO

Há um certo nariz empinado nas sagitarianas; existe algo de petulante e marcial na relação delas com as outras pessoas. São mulheres atrevidas, desdenhosas. Mas se você conseguir ganhar a simpatia de uma delas, prepare-se: sexo furioso; uso recreativo de substâncias farmacêuticas, álcool, haxixe e etc; muitas conversas inesquecíveis. Parece que as mulheres desse signo sabem que são fodonas mesmo e não têm vergonha de demonstrar isso para aqueles que caem na graça dos seus favores. O símbolo de sagitário é o centauro - trata-se de um signo masculino - e talvez por isso as sagitarianas sejam tão cheias de iniciativa e partam para cima quando se interessam por uma "presa". Damas na rua, putas entre quatro paredes; passionais, atrevidas, ladinas: assim são as sagitarianas.
Sábado, Agosto 10, 2002
ROY BUCHANAN EMPURRA GODZILLA PELO BECO

Roy foi pro céu em 88, em circunstâncias suspeitíssimas. Preso numa blitz porque dirigia bêbado e cheirado, arrastaram ele pruma delegacia em Washington, onde supostamente ele cometeu suicídio enforcando-se com o próprio cinto. Lembra Herzog, né não? Pois vejam, isso também acontece nos Estêites. O corpo dele permaneceu congelado num freezer por uns seis anos enquanto corria um processo criminal movido pela sua mulher contra a polícia, pois ela não se convencia com a versão oficial. Sabia que o marido, apesar de louco, não era burro, e não ia enfiar o pescoço no laço do cinto e ficar sufocando até morrer. O processo deu em nada (pois vejam, isso também acontece nos Estêites) e Roy acabou sendo enterrado seis anos após a sua morte, como um maldito peixe congelado.

"When a Guitar Plays the Blues" é o álbum dele que eu mais gosto, e recomendo. Todas as músicas são excelentes. Existem coisas, neste CD, que assustam. Não à toa, Jeff Beck é fã de Buchanan - e isso, sejamos francos, não é pouca coisa. Examinemos "Sneaking Godzilla Thru The Alley":

O piano começa em uníssono com o contrabaixo, num lento mantra que sugere uma criatura pesada caminhando. A guitarra de Roy geme, como um gato de beco, soltando longos lamentos oscilantes. O tempo passa e a situação começa a ficar mais séria. A guitarra deixa de ser o animal dócil que iniciou a música; agora entramos no perigoso terreno da insanidade. Uivos pavorosos, gritos, ecos, o caos e algo além. No fim, misericordiosamente, Roy alivia a mão e voltam os gemidos da guitarra, magoada depois de tanta pancadaria.

CORTA!

Karen me falou, baixando os olhos, que faria o que eu quisesse. Bastava pedir. Estávamos sozinhos no apartamento. Mamãe havia saído.
Pedi, encostando a boca no seu ouvido. Enquanto ela tirava a roupa, revelando a brancura tóxica daquela pele tenra, coloquei "Sneaking Godzilla Thru The Alley" para tocar. Os gemidos da guitarra se confundiram com os gemidos dela, que me disse, olhando para trás: "dói, mas não pára". Naquela tarde de outubro, Roy empurrou Godzilla pelo beco. E eu segui seu exemplo.
Sexta-feira, Agosto 09, 2002
UBI BENE, IBI PATRIA
onde se vive bem, aí está a pátria

Nunca entendi direito o sentimento ao qual se dá o nome "patriotismo". Vamos ao dicionário: "Amor da pátria, devoção ao seu solo e às suas tradições, à sua defesa e integridade". Vamos um pouco mais além: "Pátria: país ou estado em que se nasceu e ao qual se pertence como cidadão". Mas, caramba, isso é uma casualidade. Alguém pode escolher onde vai nascer? Vocês acham que aquelas crianças palestinas que estão sendo suavemente moídas escolheriam nascer lá? Eu por mim teria escolhido nascer na Suécia, e estaria agora tomando meu breakfast e lendo uma notinha de rodapé no jornal falando sobre a instabilidade político-econômica num distante país bizarro chamado Brazil.

Na verdade o estímulo ao "patriotismo" foi uma jogada de marketing dos mais ricos para fazer com que o populacho defendesse suas posses contra invasores externos. As posses dos mais ricos, que fique bem claro. Exércitos foram formados para defender "a pátria". O povo, fascinado com a algaravia e pompa dos desfiles militares, engoliu a idéia de "patriotismo" com anzol e tudo. E a formação de exércitos também foi um método de controlar a população, já que os malditos pobres procriam como coelhos e uma guerrinha qualquer de vez em quando serve para exterminar os machos jovens, que estão com os hormônios saindo pelas orelhas e poderiam sair trepando por aí, aumentando desnecessariamente a quantidade de bocas a ser alimentadas. Uma espécie de rightsizing.

Joãozinho, o que a "pátria" já fez por você?
Quinta-feira, Agosto 08, 2002
KURT VONNEGUT JR. (1922-)

Este é talvez um dos prosadores mais criativos na história das letras estadunidenses. E teve uma vida muito movimentada. Combatendo na segunda guerra mundial, teve que se refugiar do bombardeio de Dresden num matadouro. Adotou três dos filhos da irmã, que morreu de câncer 24 horas depois do marido morrer num acidente ferroviário. E por aí vai. Mas a prosa de Vonnegut é engraçadíssima. Um livro dele, "Hocus Pocus", é escrito em formato de blog (o livro é de 1990). Vejamos.

Meu nome é Eugene Debs Hartke, nasci em 1940. Recebi este nome por ordem do meu avô materno, Benjamin Wills, que era um Socialista e um Ateu, nada mais que um zelador na Universidade Butler, em Indianápolis, Indiana, em homenagem a Eugene Debs de Terre Haute, Indiana. Debs era um Socialista e um Pacifista e um Líder Sindical que concorreu diversas vezes à Presidência dos Estados Unidos da América, e obteve mais votos do que qualquer outro candidato indicado por um terceiro partido na história deste país.
Debs morreu em 1926, quando eu nada era além de uma derrota de 14 anos de idade.
Agora o ano é 2001.
Se tudo tivesse corrido do jeito que muita gente imaginava, Jesus Cristo estaria entre nós de novo, e a bandeira americana estaria plantada em Vênus e em Marte.
Quem dera!
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Pelo menos o Mundo vai acabar, um fato previsto com grande alegria por muitos. Vai acabar em pouco tempo, mas não no ano 2000, que veio e se foi. Disso eu concluo que Deus Todo-Poderoso não é grande coisa em Numerologia.
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O avô Benjamin Wills morreu em 1948, quando eu tinha mais de 8 anos, mas não antes de ter certeza de que eu sabia de cor as palavras mais famosas ditas por Debs, que são:
"Enquanto houver uma classe baixa, eu pertencerei a ela. Enquanto houver um elemento criminoso, eu estarei com ele. Enquanto houver uma alma na prisão, eu não serei livre."
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Eu, apesar de ter o nome de Debs, fui sempre um medroso. Dos 21 aos 35, fui soldado profissional, Oficial Comissionado no Exército dos Estados Unidos. Durante esses 14 anos eu teria matado Jesus Cristo, Deus Pai, Deus Mãe, ou o que fosse, se um oficial superior ordenasse. No final abrupto e humilhante e desonroso da Guerra do Vietnã, eu era Tenente-Coronel, com 1.000s e 1.000s de subordinados.
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Durante essa guerra, que foi só uma questão de comércio de armas e de munição, suponho que houve uma possibilidade microscópica de eu, no meio de uma barragem de fósforo branco ou de um ataque aéreo com napalm, ter invocado a volta de Jesus Cristo.
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Nunca quis ser um soldado profissional, embora eu tenha me tornado um bom soldado, se é que isso existe. A idéia de ir para West Point veio de modo tão inesperado quanto o final da Guerra do Vietnã, quase no fim do meu último ano do curso secundário. Eu estava pronto para ingressar na Universidade de Michigan, cursar Inglês e História e Ciência Política, e lá trabalhar em um jornal estudantil diário me preparando para a carreira de jornalista.
Mas de repente meu pai, que era engenheiro-químico metido com a fabricação de plásticos que duravam 50.000 anos, e tão cheios de excrementos quanto um peru de Natal, disse que eu tinha que ir para West Point. Ele mesmo nunca foi militar. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele era valioso demais como civil, profundo pesquisador em química, para ser enfiado em uma farda de soldado e transformado num suicida-homicida imbecil em 13 semanas.
Eu já tinha sido aceito pela Universidade de Michigan, quando inesperadamente apareceu a oferta de uma entrevista na Academia Militar dos Estados Unidos. A oferta veio em um momento ruim da vida do meu pai, quando ele precisava de alguma coisa para se vangloriar e impressionar nossos vizinhos simplórios. Eles iam achar que uma entrevista para West Point era uma grande coisa, como ser escolhido para participar de um time profissional de beisebol.
Então ele me disse o mesmo que eu costumava dizer aos novos soldados de infantaria que chegavam de barco ou de avião:
- Esta é uma grande oportunidade.
Quarta-feira, Agosto 07, 2002
PENSAMENTO DO DIA

Essa é do genial Quino, criador da Mafalda. Ele é cartunista argentino e pertence ao seleto grupo de seis ou sete argentinos que são boa gente. Já as argentinas são todas boa gente.

"A preguiça é a mãe de todos os vícios, mas uma mãe é uma mãe e é preciso respeitá-la, pronto!"
AGORA VAI

Como meu sonho de consumo é tomar chá das cinco com Paulo Coelho e José Sarney, comecei a escrever um livro místico de auto-ajuda. É impossível que os Imortais da ABL fiquem indiferentes a esta contribuição imorredoura às Letras Nacionais. Alea Jacta Est.

O CAMELO DE TRÊS CORCOVAS por Pedro Lebre

CAPÍTULO UM

do encontro entre Ahmed e Babaganoush

Ahmed respirou o ar poeirento, onde pairava o odor inequívoco de bosta de ovelha. Podia ouvir os delicados esfíncteres pot-potiando inesgotáveis pérolas de estrume deserto afora, sob o ameno sol do fim de tarde. Sentia-se cansado. Quinze anos cuidando de animais estúpidos, dando estilingaços na bunda de lobos mais ousados, sentando o cacete nas ovelhas rebeldes, enfim, uma vida lamentével.

A lição

Ahmed conduzia seu rebanho por um lugar qualquer quando um velho veio na sua direção. O velho era um sábio, mas Ahmed, na sua ignorância, disse: “arreda, patrãozinho, que o nêgo aqui tem que levar os bichinho”. O sábio fez um sinal cabalístico, paralisando a língua profana do ignorante pastor. Em seguida, disse:

“Ignoto viajor, teus filhos não são teus filhos, pois os humildes herdarão a terra. Girls just wanna have fun. Florentina, Florentina, Florentina de Jesus. O Senhor é o meu pastor, logo sou sua ovelha. Responda-me, caríssimo bigorrilho: um pastor cria ovelhas para quê?”

E fez o sinal para soltar a língua do pobre ignoto pastor. Então este disse:

“Mestre, a felicidade existe em servir o eu interior de cada um, e não em encher o bucho. Almas que se encostam podem cruzar a avenida, mas só se o sinal estiver verde. O Profeta disse: deveis agir como ursos com bafo de flores - fortes porém delicados; másculos porém exigentes em relação às echarpes; e rigorosos na pronúncia de vol-au-vent.”

E então as tênues cores do pôr-do-sol envolveram os dois, aprendiz e Mestre, na bruma imemorável dos tempos pretéritos.
Terça-feira, Agosto 06, 2002
MILES DAVIS

Há o execrável cotidiano que nos ocupa com trivialidades. Há o fazer a barba, ou maquiar-se; falar com gentes e responder a perguntas; existem contas a pagar e roupas a vestir. Essa enumeração poderia seguir indefinidamente: são muitas as formas do tédio.

Porém, há um momento em que, depois de cumprirmos nossa tarefa de operar no mundo, podemos tirar os sapatos e recostar na poltrona. Uma bebida, por favor.

Luzes indiretas. No aparelho de som, "Decoy", de Miles Davis. A faixa 6, "That's Right". Um blues lentíssimo. Já de início um trompete que parece se dissolver no ritmo lasso, como se fosse feito de metal derretido, solta notas preguiçosas e aveludadas. É noir, é no ar, é cool a não poder mais.

Uma transição. O trompete se cala e algo que parece uma guitarra - não sei o que John Scofield usou na sua Gibson -, inicialmente acompanhada pelo sax e depois mergulhando em um solo, fala coisas muito estranhas para você. Coisas esquisitas, inesperadas. Em voz baixa, tranqüilamente, como se fossem confissões.

Onze minutos. E então os sons vão se tornando ainda mais mansos. E finalmente desaparecem no silêncio.
Segunda-feira, Agosto 05, 2002
PENA DE VIDA

Quando peguei o táxi, o motorista começou a conversar comigo. O problema é que era de manhã cedo, eu estava a caminho do aeroporto para ir até Brasília e enfrentar uma reunião vital para a minha carreira. Não tinha conseguido dormir direito e estava irritado e ansioso. E o sujeito - OK, ele não tinha nada a ver com os meus problemas - continuava a fazer comentários e perguntas.

Fui monossilábico a maior parte do percurso. Num determinado ponto, o cinesíforo disse:

- Eu acho que esses bandidos que seqüestram e matam, todos deveriam ir para o paredão, viu? Pena de morte para eles!

Aí eu me descontrolei. Resolvi acabar com aquela palhaçada.

- Não, nada disso. O negócio é pena de vida.

- Pena de vida?

- Sim. É só pegar um pedaço de borracha de pneu, colocar na nuca do indivíduo e dar um tirinho de calibre 22, na quarta vértebra. O cara fica tetraplégico, sem poder se mexer. Aí a gente joga ele em uma cela escura, sem luz nenhuma, e deixa ele boiando no próprio cocô.

- Hein?!?

- Mas o cara NÃO pode morrer: é necessário entupir ele com antibióticos e dar todo o tratamento médico para que ele viva pelo menos noventa anos apodrecendo no escuro, como um pedaço de queijo asqueroso. E ele o tempo todo implorando para que matem ele.

- O senhor fala sério?

- Claro, sai muito mais caro que matar o sujeito, mas eu acredito que em alguns casos vale a pena. Sim, eu falo sério.

Não ouvi mais nenhuma palavra e o chofer me cobrou a menos a corrida.
Sexta-feira, Agosto 02, 2002
BULLSHIT!

Certa vez namorei uma menina cuja avó havia sido modelo - numa época em que modelo e puta não eram necessariamente sinônimos. A velhota, apesar de estar na extremidade mais longa dos sessenta anos, ainda fazia sucesso nos bailes da Terceira Idade. Vi algumas fotos que ela guardava cuidadosamente em um álbum, dos bons tempos da passarela. Nas fotos, pude ver que além de bonita, ela tinha sido muito, mas muito gostosa. Ainda bem que procriou e a sua filha também e aquele DNA privilegiado foi parar na minha namorada. Mas, tergiverso.

Com a idade, a velha foi ficando mais e mais desbocada, estilo Dercy Gonçalves. Nas muitas vezes em que conversamos, ela pontuava as frases com "caralho", "porra", "cu-da-mãe" e outros termos menos refinados. É óbvio que eu achava engraçadíssimo conversar com ela.

Talvez a melhor estória que ela me contou foi um incidente ocorrido com uma colega de trabalho, uma tal de Valéria. Naqueles remotos tempos, a coisa mais importante na vida de uma mulher era arrumar um marido. E ser virgem era condição sine qua non para casar - cruzes, isso me parece até ficção científica. Porém, como ninguém é de ferro, a mulherada liberava a porta de serviço para os namorados. Isso foi confirmado esses dias pela grande atriz Eva Vilma, que declarou pertencer à geração que se casava semi-virgem.

Pois bem, a Valéria, apesar de ser modelo, era muito tímida fora da passarela. Não tinha namorado. Porém, um dia se apaixonou por um tenente da Força Aérea. Beijinho vai, abracinho vem, chegou a hora de ela dar uma "prova de amor" para ele (acho hilariante o modo como se falava naquela época). Em suma, morder a fronha.

A questão é que o tenente era um pé-de-mesa. Pirocudo mesmo. E inepto. Enfiou a jeba até o talo na bundinha da Valéria e, apesar dos gritos e do choro dela, foi até o fim. Resultado: quando tirou o mangalho, veio tinto de sangue.

A Valéria disse pro tenente nunca mais aparecer na frente (e atrás, presumo) dela e foi para o hospital. A coitada - no sentido mais radical do termo - recebeu tratamento de uma enfermeira que lhe perguntou como aquilo tinha acontecido (*). A moça, por questões de pudicícia, contou uma versão bizarra: disse que estava no campo colhendo flores (**) quando, ao se curvar sobre uma touceira de margaridas, veio um touro correndo e enfiou um dos chifres no seu cu.

Bem, a enfermeira achou o caso tão extraordinário que comentou com a sua filha mais tarde, em casa. O problema é que a filha dela era a avó da minha namorada, que era tão discreta quanto o Otávio Mesquita: todo o povinho da moda acabou sabendo da estória.

(*) perguntou gaiatamente, pois não?
(**) percebam o aspecto bucólico e poético do relato
Quinta-feira, Agosto 01, 2002
JUAN RULFO (1918-1986)

Eu já tinha ouvido o nome de Juan Rulfo, mas jamais tinha lido algo de sua autoria. Eis que um leitor amigo me envia, gentilmente, um conto dele e dados biográficos. Hm, assim fica fácil postar. Obrigado, Mário!
Rulfo nasceu no México e teve uma vida difícil; perdeu os pais muito jovem, e depois todos os parentes na Revolução. Escreveu apenas um livro de contos, "El llano en llamas" e um romance,"Pedro Paramo". Além de escritor, era também fotógrafo. Depois que ficou famoso, parou de escrever e proferiu essa frase enigmática: "Eu era como um passarinho que estava apenas alçando vôo, mas cortaram-me as asas". Juan morreu de cirrose.

LUVINA

De los cerros altos del sur, el de Luvina es el más alto y el más pedregoso. Está plagado de esa piedra gris con la que hacen la cal, pero en Luvina no hacen cal con ella ni le sacan ningún provecho. Allí la llaman piedra cruda, y la loma que sube hacia Luvina la nombran Cuesta de la Piedra Cruda. El aire y el sol se han encargado de desmenuzarla, de modo de que la tierra de por allí es blanca y brillante como si estuviera rociada siempre por el rocío del amanecer; aunque esto es un puro decir,porque en Luvina los días son tan fríos como las noches y el rocío se cuaja en el cielo antes que llegue a caer sobre la tierra.
"...Y la tierra es empinada. Se desgaja por todos lados en barrancas hondas, de un fondo que se pierde tan lejano. Dicen los de Luvina que de aquellas barrancas suben los sueños; pero yo lo único que vi subir fue el viento, en
tremolina, como si allá abajo lo hubieran encañonado en tubos de carrizo. Un viento que no deja crecer ni a las dulcamaras: esas plantitas tristes que apenas si pueden vivir un poco untadas en la tierra, agarradas con todas sus manos al despeñadero de los montes. Sólo a veces, allí donde hay un poco de sombra, escondido entre las piedras, florece el chicalote con sus amapolas blancas. Pero el chicalote pronto se marchita. Entonces uno lo oye rasguñando el aire con sus ramas espinosas, haciendo un ruido como el de un cuchillo sobre una piedra de afilar.
"Ya mirará usted ese viento que sopla sobre Luvina. Es pardo. Dicen que porque arrastra arena de volcán; pero lo cierto es que es un aire negro. Ya lo verá usted. Se planta en Luvina prendiéndose de las cosas como si las mordiera. Y sobran días en que se lleva el techo de las casas como si se llevara un sombrero de petate, dejando los paredones lisos, descobijados. Luego rasca como si tuviera uñas: uno lo oye mañana y tarde, hora tras hora, sin descanso, raspando las paredes, arrancando tecatas de tierra, escarbando con su pala picuda por debajo de las puertas, hasta sentirlo bullir dentro de uno como si se pusiera a remover los goznes de nuestros mismos huesos. Ya lo verá usted."
El hombre aquel que hablaba se quedó callado un rato, mirando hacia afuera.
Hasta ellos llegaba el sonido del río pasando sus crecidas aguas por las ramas de los camichines, el rumor del aire moviendo suavemente las hojas de los almendros, y los gritos de los niños jugando en el pequeño espacio iluminado por la luz que salía de la tienda.
Los comejenes entraban y rebotaban contra la lámpara de petróleo, cayendo al suelo con las alas chamuscadas.
Y afuera seguía avanzando la noche.
!Oye, Camilo, mándanos otras dos cervezas más! -volvió a decir el hombre. Después añadió: Otra cosa, señor. Nunca verá usted un cielo azul en Luvina. Allí todo el horizonte está desteñido; nublado siempre por una mancha caliginosa que no se borra nunca. Todo el lomerío pelón, sin un árbol, sin una cosa verde para descansar los ojos; todo envuelto en el calín ceniciento. Usted verá eso: aquellos cerros apagados como si estuvieran muertos y a Luvina en el más alto, coronándolo con su blanco caserío como si fuera una corona de muerto... Los gritos de los niños se acercaron hasta meterse dentro de la tienda. Eso hizo que el hombre se levantara, y fuera hacia la puerta y les dijera: "!Váyanse más lejos! !No interrumpan! Sigan jugando, pero sin armar alboroto."
Luego, dirigiéndose otra vez a la mesa, se sentó y dijo:
-Pues sí, como le estaba diciendo. Allá llueve poco. A mediados de año llegan unas cuantas tormentas que azotan la tierra y la desgarran, dejando nada más el pedregal flotando encima del tepetate. Es bueno ver entonces cómo se arrastran las nubes, cómo andan de un cerro a otro dando tumbos como si fueran vejigas infladas; rebotando y pegando de truenos igual que si se quebraran en el filo de las barrancas. Pero después de diez o doce días se van y no regresan sino al año siguiente, y a veces se da el caso de que no regresen en varios años.
"...Sí llueve poco. Tampoco o casi nada, tanto que la tierra, además de estar reseca y achicada como cuero viejo, se ha llenado de rajaduras y de esa cosa que allí llama 'pasojos de agua', que no son sino terrones endurecidos como piedras filosas que se clavan en los pies de uno al caminar, como si allí hasta a la tierra le hubieran crecido espinas. Como si así fuera."
Bebió la cerveza hasta dejar sólo burbujas de espuma en la botella y siguió diciendo:
-Por cualquier lado que se le mire. Luvina es un lugar muy triste. Usted que va para allá se dará cuenta. Yo diría que es el lugar donde anida la tristeza. Donde no se conoce la sonrisa, como si a toda la gente le hubieran entablado la cara. Y usted, si quiere puede ver esa tristeza a la hora que quiera. El aire que allí sopla la revuelve, pero no se la lleva nunca. Está allí como si allí hubiera nacido. Y hasta que se puede probar y sentir, porque está siempre encima de uno, apretada contra de uno, y porque es oprimente como un gran cataplasma sobre la viva carne del corazón.
"Dicen los de allí que cuando llena la luna, ven de bulto la figura del viento recorriendo las calles de Luvina, llevando a rastras una cobija negra; pero yo siempre lo que llegué a ver cuando había luna en Luvina,fue la imagen del desconsuelo...siempre.
"Pero tómese su cerveza. Veo que no le ha dado ni siquiera una probadita. Tómesela. O tal vez no le guste así tibia como está. Y es que aquí no hay de otra. Yo sé que así sabe mal; que agarra un sabor como a meados de burro. Aquí uno se acostumbra. A fe que allá ni siquiera esto se consigue. Cuando vaya a Luvina la extrañará. Allí no podrá probar sino un mezcal que ellos hacen con una yerba llamada hojasé, y que a los primeros tragos estará usted dando de volteretas como si lo chacamotearan. Mejor tómese su cerveza. Yo sé lo que le digo."
Allá afuera seguía oyéndose el batallar del río. El rumor del aire. Los niños jugando. Parecía ser aún temprano, en la noche.
El hombre se había ido a asomar una vez más a la puerta y había vuelto.

Ahora venía diciendo: Resulta fácil ver las cosas desde aquí, meramente traídas por el recuerdo, donde no tienen parecido ninguno. Pero a mí no me cuesta ningún trabajo seguir hablándole de lo que sé, tratándose de Luvina. Allá viví. Allá deje la vida... Fui a ese lugar con mis ilusiones cabales y volví viejo y acabado. Y ahora usted va para allá... Está bien. Me parece recordar el principio. Me pongo en su lugar y pienso... Mire usted, cuando yo llegué por primera vez a Luvina... ¿Pero me permite antes que me tome su cerveza? Veo que usted no le hace caso. Y a mi me sirve de mucho. Me alivia. Siento como si me enjuagara la cabeza con aceite alcanforado...Bueno, le contaba que cuando llegué por primera vez a Luvina, el arriero que nos llevó no quiso dejar siquiera que descansaran las bestias. En cuanto nos puso en el suelo, se dio media vuelta:
"-Yo me vuelvo- nos dijo.
"-Espera, No vas a dejar sestear a tus animales? Están muy aporreados.
"-Aquí se fregarían más- nos dijo- mejor me vuelvo.
"Y se fue dejándose caer por la Cuesta de la Piedra Cruda, espoleando sus caballos como si se alejara de algún lugar endemoniado.
"Nosotros, mi mujer y mis tres hijos, nos quedamos allí, parados en la mitad de la plaza, con todos nuestros ajuares en nuestros brazos. En aquel lugar en donde sólo se oía el viento...
"Una plaza sola, sin una sola yerba para detener el aire. Allí nos quedamos.
"Entonces yo le pregunté a mi mujer:
-¿En qué país estamos, Agripina?
Y ella se alzó de hombros
"-Bueno. Si no te importa, ve a buscar a dónde comer y dónde pasar la noche. Aquí te aguardamos -le dije.
"Ella agarró al más pequeño de sus hijos y se fue. Pero no regresó.
"Al atardecer, cuando el sol alumbraba sólo las puntas de los cerros, fuimos a buscarla. Anduvimos por los callejones de Luvina, hasta que la encontramos metida en la iglesia: sentada mero en medio de aquella iglesia solitaria, con el niño dormido entre sus piernas.
"-¿Qué haces aquí Agripina?
"-Entré a rezar- nos dijo.
"-¿Para qué?- Le pregunté yo.
"Y ella se alzó de hombros.
"Allí no había a quién rezarle. Era un jacalón vacío, sin puertas, nada más con unos socavones abiertos y un techo resquebrajado por donde se colaba el aire como un cedazo.
"-¿Dónde está la fonda?
"-No hay ninguna fonda.
"-¿Y el mesón?
"-No hay ningun mesón
"-Viste a alguien? ¿Vive alguien aquí? -le pregunté.
"-Sí, allí enfrente... unas mujeres... Las sigo viendo. Mira, allí tras las rendijas de esa puerta veo brillar los ojos que nos miran...Han estado asomándose para acá... Míralas. Veo las bolas brillantes de su ojos...
Pero no tienen qué darnos de comer. Me dijeron sin sacar la cabeza que en este pueblo no había de comer... Entonces entré aquí a rezar, a pedirle a Dios por nosotros.
"¿Porqué no regresaste allí? Te estuvimos esperando.
"-Entré aquí a rezar. No he terminado todavía.
"-¿Qué país éste, Agripina?
" Y ella volvió a alzarse de hombros.
"Aquella noche nos acomodamos para dormir en un rincón de la iglesia, detrás del altar desmantelado. Hasta allí llegaba el viento, aunque un poco menos fuerte. Lo estuvimos oyendo pasar encima de nosotros, con sus largos aullidos; lo estuvimos oyendo entrar y salir de los huecos socavones de las puertas; golpeando con sus manos de aire las cruces del viacrucis: unas cruces grandes y duras hechas con palo de mezquite que colgaban de las paredes a todo lo largo de la iglesia, amarradas con alambres que rechinaban a cada sacudida del viento como si fuera un rechinar de dientes.
"Los niños lloraban porque no los dejaba dormir el miedo. Y mi mi mujer, tratando de retenerlos a todos entre sus brazos. Abrazando su manojo de hijos. Y yo allí, sin saber qué hacer.
"Poco después del amanecer se calmó el viento. Después regresó. Pero hubo un momento en esa madrugada en que todo se quedó tranquilo, como si el cielo se hubiera juntado con la tierra, aplastando los ruidos con su peso... Se oía la respiración de los niños ya descansada. Oía el resuello de mi mujer ahí a mi lado:
"-¿Qué es? -me dijo.
"-¿Qué es qué?- le pregunté.
"-Eso, el ruido ese.
"-Es el silencio. Duérmete. Descansa, aunque sea un poquito, que ya va a amanecer.
"Pero al rato oí yo también. Era como un aletear de murciélagos en la oscuridad, muy cerca de nosotros. De murciélagos de grandes alas que rozaban el suelo. Me levanté y se oyó el aletear más fuerte, como si la parvada de murciélagos se hubiera espantado y volara hacia los agujeros de las puertas y las vi. Vi a todas las mujeres de Luvina con su cántaro al hombro, con el rebozo colgado de su cabeza y sus figuras negras sobre el negro fondo de la noche.
"-¿Qué quieren?- les pregunté- ¿Qué buscan a estas horas?
" Una de ellas respondió:
"-Vamos por agua.
"Las vi paradas frente a mí, mirándome. Luego como si fueran sombras, echaron a caminar calle abajo con sus negros cántaros.
" No, no se me olvidará jamás esa primera noche que pasé en Luvina.
"...¿No cree que esto se merece otro trago? Aunque sea nomás para que se me quite el mal sabor del recuerdo."
-Me parece que usted me preguntó cuántos años estuve en Luvina, ¿verdad?...La verdad es que no lo sé. Perdí la noción del tiempo desde que las fiebres me lo enrevesaron; pero debió haber sido una eternidad... Y es que allá el tiempo es muy largo. Nadie lleva la cuenta de las horas ni a nadie le preocupa cómo van amontonándose los años. Los días comienzan y se acaban. Luego viene la noche. Solamente el día y la noche hasta el día de la muerte, que para ellos es una esperanza.
"Usted ha de pensar que le estoy dando vueltas a una misma idea. Y así es, sí señor... Estar sentado en el umbral de la puerta, mirando la salida y la puesta del sol, subiendo y bajando la cabeza, hasta que acaban aflojándose los resortes y entonces todo se queda quieto, sin tiempo, como si viviera siempre en la eternidad. Esto hacen allí los viejos.
"Porque en Luvina sólo viven los puros viejos y los que todavía no han nacido, como quien dice... Y mujeres sin fuerzas, casi trabadas de tan flacas. Los niños que han nacido allí se han ido... Apenas les clarea el alba y ya son hombres. Como quien dice, pegan el brinco del pecho del pecho de la madre al azadón y desaparecen de Luvina. Así es allí la cosa.
"Sólo quedan los puros viejos y las mujeres solas, o con un marido que anda donde sólo Dios sabe dónde... Vienen de vez en cuando como las tormentas de que les hablaba; se oye un murmullo en todo el pueblo cuando regresan y uno como gruñido cuando se van... Dejan el costal de bastimento para los viejos y plantan otro hijo en el vientre de sus mujeres, y ya nadie vuelve a saber de ellos hasta el año siguiente, y a veces nunca... Es la costumbre. Allí le dicen la ley, pero es lo mismo. Los hijos se pasan la vida trabajando para los padres como ellos trabajaron para los suyos y como quién sabe cuántos atrás de ellos cumplieron con su ley...
"Mientras tanto, los viejos aguardan por ellos por el día de la muerte, sentados en sus puertas, con los brazos caídos, movidos sólo por esa gracia que es la gratitud del hijo... Solos, en aquella soledad de Luvina.

"Un día traté de convencerlos de que se fueran a otro lugar, donde la tierra fuera buena. '!Vámonos de aquí! -les dije-. No faltará modo de acomodarnos en alguna parte. El gobierno nos ayudará.'
"Ellos me oyeron, sin parpadear, mirándome desde el fondo de sus ojos, de los que sólo se asomaba una lucecita allá muy adentro.
-¿"Dices que el gobierno nos ayudará, profesor?
¿Tú no conoces al gobierno?
"Les dije que sí.
-"También nosotros lo conocemos. Da esa casualidad. De lo que no sabemos nada es de la madre de gobierno.
"Yo les dije que era la Patria. Ellos movieron la cabeza diciendo que no. Y se rieron. Fue la única vez que he visto reír a la gente de Luvina. Pelaron los dientes molenques y me dijeron que no, que el gobierno no tenía madre.
"Y tienen razón, ¿sabe usted? El señor ese sólo se acuerda de ellos cuando alguno de los muchachos ha hecho alguna fechoría acá abajo. Entonces manda por él hasta Luvina y se lo matan. De ahí en más no saben si existe.
"Tú nos quieres decir que dejemos Luvina porque, según tú, ya estuvo bueno de aguantar hambres sin necesidad -me dijeron-. Pero si nosotros nos vamos, Quién se llevará a nuestros muertos? Ellos viven aquí y no podemos dejarlos solos.
"Y allá siguen. Usted los verá ahora que vaya, Mascando bagazos de mezquite seco y tragándose su propia saliva. Los mirará pasar como sombras, repegados al muro de las casas. casi arrastrados por el viento.
-¿"No oyen ese viento?- Les acabé por decir-. Él acabará con ustedes.
"Dura lo que debe de durar. Es el mandato de Dios me contestaron. Malo cuando deja de hacer aire. Cuando eso sucede ,el sol se arrima mucho a Luvina y nos chupa la sangre y la poca agua que tenemos en el pellejo. El aire hace que el sol se esté allá arriba. Así es mejor.
"Ya no volví a decir nada. Me salí de Luvina y no he vuelto ni pienso regresar.
..."Pero mire las maromas que da el mundo. Usted va para allá ahora, dentro de pocas horas. Tal vez ya se cumplieron quince años que me dijeron a mí lo mismo: 'Usted va a ir a San Juan Luvina.' En esa época tenía yo mis fuerzas. Estaba cargado de ideas..Usted sabe que a todos nosotros nos infunden ideas. Y uno va con esa plata encima para plasmarla en todas partes. Pero en Luvina no cuajó eso. Hice el experimento y se deshizo...
"San Juan Luvina. Me sonaba a nombre de cielo aquel nombre. Pero aquello es el purgatorio. Un lugar moribundo donde se han muerto hasta los perros y ya no hay ni quien le ladre al silencio; pues en cuanto uno se acostumbra al vendaval que allí sopla, no se oye sino el silencio que hay en todas las soledades. Y eso acaba con uno. Míreme a mí. Conmigo acabó. Usted que va para allá comprenderá pronto lo que le digo..
"¿Qué opina usted si le pedimos a este señor que nos matice unos mezcalitos? Con la cerveza se levanta uno a cada rato y eso interrumpe mucho la plática. !Oye , Camilo, mándanos ahora unos mezcales!
"Pues sí, como le estaba yo diciendo..."
Pero no dijo nada. Se quedó mirando un punto fijo sobre la mesa donde los comejenes ya sin sus alas rondaban como gusanitos desnudos.
Afuera seguía oyéndose cómo avanzaba la noche. El chapoteo del río contra los troncos de los camichines. El griterío ya muy lejano de los niños. Por el pequeño cielo de la puerta se asomaban las estrellas.
El hombre que miraba a los comejenes se recostó sobre la mesa y se quedó dormido.