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TERCEIRIZAÇÃO
Estou terceirizando o serviço de digitar os textos desse blogue. Além de ser uma tarefa entediante, repetidas vezes acabo derramando o vinho da missa no teclado. Não se trata de pura e simplesmente preguiça, mas de consciência histórica. Percebam que, por exemplo, os Romanos e os Gregos, que eram pessoas sensatas, repudiavam qualquer trabalho manual.
Portanto, me dedicarei apenas ao "otium cum dignitate" e passarei a ditar os textos para uma de minhas noviças, que após os deveres concubinatários, os digitará neste blogue, e o Manto da Paz se Estenderá sobre as Almas.
BARÃO DE ITARARÉ (1895-1971)
Crianças, como ando ocupado com assuntos terrenos - que entre outras coisas envolvem sexo totalmente não-programado e uso recreativo de produtos farmacêuticos -, não estou tendo tempo (leia-se paciência) para escrever. Portanto, vou tomar emprestados textos do Barão de Itararé e distrair suas mentes ociosas ávidas por entretenimento.
FILHO ÚNICO
Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único.
VIAGEM DE NÚPCIAS
Os recém-casados chegavam à estação da estrada de ferro, para iniciar a sua viagem de núpcias. Ela, muito nervosa e emocionada, sentia-se constrangida com os olhares indiscretos daquela gente estranha à sua felicidade. Foi nesse momento que ela dirigiu um comovido apelo ao não muito jovem esposo:
- Meu bem, por favor!... Vamos ver se nos comportamos agora de tal forma que estes basbaques pensem que já estamos casados já há muito tempo.
- Está certo - concordou o recém-marido - e, então, vai tu carregando estas malas.
HORÓSCOPO DE ABRIL
Abril é o mês dos bobos. Trata-se, portanto de um mês igual aos outros, porque afinal nós todos fazemos bobagens o ano inteiro.
Em todo caso, é um mês próprio para se realizar bons negócios e firmar tratados internacionais com pessoas ou entidades que sejam mais bobas que nós, o que também pode se fazer em qualquer época do ano.
Abril é favorável para se iniciar questões judiciárias, que entretanto podem acabar num mês impróprio e, neste caso, o constituinte levará mesmo na cabeça.
Este período do ano é ainda bom para se fazer longas viagens, principalmente se os credores começam a importunar muito a gente.
Paulo Coelho que se cuide! Levedo Enterprises lança mais uma contribuição imorredoura às letras rúnicas, púnicas, janízaras e esotéricas.
OS TRÊS DESEJOS
Conta-se que viveu certa vez um homem honesto que passava o tempo na expectativa da noite milagrosa que o Livro promete aos crentes de fé ardorosa, a Noite de Atendimento, na qual um homem piedoso pode ver realizarem-se todos seus desejos.
Numa das últimas noites de Ramadã, Malik, o santo homem, que havia jejuado rigorosamente todos os dias do mês, sentiu-se de repente visitado pela graça divina.
Chamou a mulher e disse-lhe:
- Sinto-me puro diante do Eterno e estou convencido de que esta é a minha grande Noite. Como meus desejos serão atendidos pelo Gratificador, quis consultar-te sobre o que devo pedir, pois sempre beneficio-me de teus conselhos.
- A quantos desejos tens direito?, perguntou a mulher.
- A três
Aconselhou a mulher:
- Tu bem sabes que a perfeição de um homem e seu deleite maior estão enraizados na sua virilidade. Homem algum pode ser perfeito se for casto ou impotente ou um eunuco. Em conseqüência, quanto maior o zibb de um homem, maior será sua posição no mundo e mais longe estará no caminho da perfeição, inclina-te, portanto, humildemente diante do Poderoso e pede-lhe fazer crescer teu zibb até a munificência.
Imediatamente, o homem inclinou a cabeça e, dirigindo as palmas das mãos para o céu, orou:
- Ó Benfeitor, ó Generoso, aumenta meu zibb até a munificência.
Esse desejo foi atendido assim que expresso. E o santo homem viu seu zibb dilatar-se e crescer até assemelhar-se a uma cabaça deitada entre duas abóboras.
A mulher ficou terrificada pelo que viu e fugia para fora de casa cada vez que o santo homem se aproximava dela com seu novo tesouro. Chorava e gritava:
- Como ousaria eu acolher este poderoso instrumento, capaz de furar os rochedos repetidas vezes?
Finalmente, o pobre homem gritou:
- Oh, horrível mulher, o que posso fazer com esta máquina? A culpa é tua.
- Que Allah me proteja, exclamou a mulher. Roga ao Profeta, ó velho cabeça-de-vento, dizendo: "Enquanto Deus vive, não preciso de tamanho zibb. E não o pedi. Solicito que seja diminuído." Tal será teu segundo desejo.
O santo homem levantou os olhos para o céu e disse:
- Ó Allah, suplico-te que me salves desses dons abundantes demais e dos problemas que me criaram!
Bastou pronunciar essas palavras para que seu ventre se tornasse liso, sem zibb e sem testículos, como se fosse o ventre de uma menor pudica.
Inútil dizer, essa nova situação não agradou ao bom santo e agradou menos ainda a sua mulher, que começou a amaldiçoá-lo e acusá-lo de enganá-la. Então, a revolta do homem não conheceu mais limites. Gritou: "Vê a que conduzem teus estúpidos conselhos, ó mulher ignorante! Eu tinha três desejos e podia usá-los para obter quantas riquezas quisesse neste mundo e no outro. Agora que dois deles se foram em vão, pedirei ao Senhor restabelecer as coisas como estavam antes.
Seu desejo foi atendido, e obteve simplesmente o zibb que tinha antes.
HISTÓRIAS DE CANIBAIS
Se você fosse um autóctone da Nova Zelândia, da tribo dos Maoris, seus valores morais seriam - a princípio - substancialmente diferentes. Para esses botocudos, que viveram isolados do resto do mundo até os ingleses botarem ordem naquela zona, nada dava mais status na tribo do que matar o melhor amigo e devorá-lo num grande banquete. Talvez por causa disso era um povinho que relutava muito em fazer novas amizades. Quando os anglo-saxões perguntaram - movidos talvez por aquela peculiar curiosidade mórbida dos Súditos do Império Onde o Sol Nunca se Põe - qual o gosto da carne humana aos índios, ficaram sabendo que era muito semelhante à carne de porco. Tanto que, na língua deles, "homem" era chamado de "porco comprido".
Aqui mesmo em Pindorama existiram canibais. Quando os Portugas e demais Europeus de arrasto apareceram, estabeleceu-se uma certa relação amistosa com a indiada, que degringolou assim que os nativos perceberam que aquela gente branca queria mesmo era foder (no mau sentido) com eles.
Os Tupinambás, quando apanhavam algum infeliz que julgavam inimigo, faziam uma grande festa para comê-lo, festa essa onde compareciam mulheres e crianças da tribo, em alegre expectativa. No meio da aldeia, dois índios, cada um com um cipó, laçavam o sujeito pela cintura e o imobilizavam, de pé. Aí vinha um outro índio, forte pra cacete, portando uma borduna, que é uma espécie de porretão, e abria a cabeça do coitado. Depois todos ajudavam a preparar os miúdos e a carne para o banquete.
Muita gente teve esse triste destino. Em 1556 o Bispo Sardinha foi supostamente comido por índios no litoral do Brasil. Esta história tem algumas versões: (a)foram os Caetés que comeram o Bispo em Alagoas; (b)os Tupinambás é que fizeram McBishop Feliz em Sergipe; (c)ele não foi comido, mas assassinado por jagunços do Governador-Geral porque era muito metido em assuntos de política*. Em estando correta uma das duas hipóteses antropofágicas, bem que esse trecho de "Viva o Povo Brasileiro", do João Ubaldo Ribeiro, poderia servir como cardápio do certame:
"...então pegou um porrete..., arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco de carne de primeira pra churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de lingüiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da redução, a fim de que preparassem algumas para ele."
Monteiro Lobato também dá umas dicas de como era aproveitada a carne:
"Já as índias nunca se queixavam de encruamento estomacal. Cabiam-lhes as partes internas, mais tenras e de mais fácil digestão, fosse qual fosse a nacionalidade da rês**. Tinham o hábito de ferver a barrigada em grandes vasilhas até que tudo se desfizesse em caldo grosso e muito apreciado, ao qual davam o nome de mingau. Esta "puré" destinava-se às crianças e convalescentes, nunca fazendo mal a ninguém, em que pese a suspeitíssima propaganda de Staden. No preparo deste mingau há um detalhe que não pode ser contado aqui. O batoque. O batoque preventivo... O batoque que impedia que algo se perdesse... A culinária francesa, ao inventar a bécassine assada com as tripas cheias ao natural, não inventou coisa nenhuma."
(*) No trotar da História, os Caetés e os Tupinambás foram todos eliminados. Já os jagunços ligados ao poder proliferaram extraordinariamente. Seleção Natural é isso aí!
(**) Lobato está falando de carne humana, viu?
PADRE LEVEDO E O FABULOSO GERADOR DE LERO-LERO NA GRANDE IMPRENSA !![]()
BERNARD SHAW FALA SOBRE A CLASSE POLÍTICA EM GERAL
Esperteza não é atributo cívico. E não se usa um gambá para cuidar de galinhas só porque entende muito de galinheiro.
CUNICULTURA
Todo mundo sabe da minha profunda admiração por Paul Rabbit. Creio que todo escritor wannabe deveria espelhar-se no seu estilo esotérico-fast food ao invés de adotar como lema "Quero Ser Charles Bukowski". Mesmo porque Bukowski gramou boa parte da vida e não tinha modos, enquanto Rabbit já colhe os muitos frutos da sua insulsa atividade literária e, last but not least, é um Gentleman dos Trópicos - jamais você encontrará termos chulos nos textos dele. Convenhamos, ser um pé-rapado boca-suja qualquer um consegue, pois não? Já o estilo flórido, prenhe de aplomb e wisdom do nosso Imortal é para os poucos genuínos Artífices da Grande Literatura. E se até o país de Hugo e Baudelaire reconhece o Dom de Paul Rabbit, quem são vocês para discutir, seus pacóvios?
INFORME ECONÔMICO
SÃO PAULO - Após saborear um suculento mocotó com duas Malzbier no bar do Bigode, nosso Presidente Eleito emitiu uma discreta porém intensa eructação. O fato imediatamente gerou nervosismo no Mercado, disparada do Dólar, queda nas Bolsas e elevação do Risco Brasil.
REQUIEM
Cazzo, morreu o Dr. Smith!
TRADUTTORI, TRADITORI
Com o advento da Globalização, as Colônias já estão se modernizando e produzindo SPAMs redigidos na língua dos lumpens locais mais a versão em Latim Moderno, o Inglês. Temos sinais de que aqui mesmo no nosso Florão da América a patuléia já se afinou com a Nova Ordem Mundial e estão enviando propaganda com tradução para a língua do Uncle Sam. E traduções de qualidade! A prova disso é o e-mail abaixo, cuja parte em inglês está taco a taco com Poe, talvez Whitman. Confesso que levei algum tempo para compreender o texto, mas quando finalmente atinei com a sutileza do tradutor, quedei-me em mudo espanto, dando cabo de meia caixa de Chablis para me recuperar.
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RAGATANGA!
Conversei com meu assessor para assuntos demoníacos, Pai Jacob de Ogum (o único pai-de-santo judeu no mundo todo), e lhe mostrei a letra da musiquinha de um tal de Rouge (quem é Rouge?) que estava sendo considerada um mantra ou uma invocação ao demônio(*).
Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi
Ele franziu a testa, em meditação. Depois falou:
- Isso não é uma invocação, é um pedido.
- Um pedido? Estão pedindo o que ao demônio? Poder, riqueza, fama, vida eterna? Fala, homem, todo mundo quer saber o que diz aí!
- É um pedido de pizza. Diz, literalmente: "meia quatro queijos, meia portuguesa sem cebola e com borda de catupiry".
Dei uns cascudos no pai-de-santo e rescindi o contrato de consultoria.
(*) sinônimos: pé-redondo, canhoto, não-se-diz, capa-verde, dubá-dubá, chifrudo, tinhoso, diacho, capeta, etc.