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FREEDOM - CHARLES MINGUS
This mule ain't from Moscow, this mule ain't from the South,
But this mule's got some learning - mostly mouth to mouth.
This mule could be called stubborn and lazy,
But in a clever sort of way, this mule's been waiting and planning
And working - in seclusion- for a sacred kind of day.
The day that burning sticks - or crosses- is not mere child's play.
But a madman in his most incandescent bloom whose loveless soul,
Is imperfection in its most lustrous bloom.
Stand fast, old mule, soothe in contemplation,
Thy burning hole and aching thigh.
That your stubbornness is of the living,
And cruel anxiety is about to die.
Stand fast young old mule. Stand fast.
TORRADINHA?
A Noviça Flávia, após um execrável período de silêncio no qual se comportou como muda Mona Lisa irônica, enviou-me uma receita. Como ela (sei do cacófato e não me aporrinhem) ficou sensibilizada com meu post sobre pão, decidiu usar o Fabuloso Pão de Cerveja para criar uma não menos fabulosa Bruschetta. Ela baptizou o antipasto como "Bruschetta de Berinjela", mas mudei este nome para um mais apropriado. Percebam o estilo Vitoriano do texto, quase que escorregando para o blasé. As notas são minhas.
BRUSCHETTA DI MELANZONE ALLA LAMPEDUSA
Bruschetta de berinjela ( para iniciados )
- Não tente fazer isso em casa. Todos os participantes dessa receita são profissionais e foram especialmente treinados para essa exibição.
- Proibido para menores de 30 anos.
Ingredientes:
* 01 CD de jazz, de preferência Charles Mingus (1)( pode ser substituído por Anthony Cox sem prejuízo do resultado final. As variantes com outros instrumentos que não o baixo acústico não foram testadas e não garantimos seus resultados. )
* 01 pão de cerveja ( vide receita )
* 01 garrafa do tinto seco e taninoso de sua preferência. Eu recomendaria um bom italiano de guarda, mas alguém capaz de preparar uma bruschetta não precisa de recomendações para vinhos.
* 01 Cohiba, Montecristo ou Ashton Cabinet.
* 01 xícara de azeite grego. A receita é italiana, mas foda-se. Ninguém faz azeite de oliva como os gregos.
* 02 berinjelas cortadas em cubos. Compre as de casca rosáceo escura e, ao contrário do que a sensualidade recomenda, rejeite as de tons vinho. Elas amargam.
* 02 colheres (sopa) de vinagre. Evite os temperados. É hora de to be tender agora.
* 02 cebolas brancas, novas, cortadas em cubos. Cebolas brotadas tb. amargam.
* 02 dentes de alho roxo espremidos ( sim, PRECISA ser alho roxo ).
* 01 pimentão vermelho, um verde e um amarelo cortados em cubos. Você sabe, metade do que você come é o que você vê ( a outra metade é o que você cheira ), portanto não ignore a necessidade de pimentões de três cores. Não é frescura, é sabor.
* 01 colher de chá de orégano
* 1/4 de xícara de uvas passas pretas
* 1/4 de xícara de castanha de caju
* Manteiga ( de preferência President ) para untar
Modo de preparo
Chegue da praia. Abra o vinho e deixe-o resfriar na porta da geladeira, porque 'tá um calor danado. ( É, na porta da geladeira. Confie em mim. ) Ponha o CD do Mingus, bem alto. Funciona melhor se você tiver lido a biografia dele, ou visto o documentário. Tome banho, um bom banho de meia hora, com sais e óleo. Sirva o vinho e deixe respirar. Deite-se no sofá da sala e acenda o charuto. Espirre, pra mostrar ao Pe. Levedo que você é insider.
Vá para a cozinha, corte o pão de cerveja em fatias e unte com manteiga. Em uma panela de bronze ( sim, TEM de ser de bronze ), frite a berinjela no azeite. Quando der ponto de água, acrescente o vinagre, a cebola, o alho e o sal ( acho que eu não botei "sal" nos ingredientes, mas é claro que vai sal, marinho, de preferência ), misture com delicadeza ( ou talha ) e junte os pimentões e o orégano. Refogue por uns dez minutos, enquanto escuta o melhor baixista do mundo. SÓ AGORA beba o vinho. Grandes taninosos de guarda são como mulheres voluntariosas: precisam de tempo de espera, de paciência, e de uma boca pronta(2). Puristas diriam para beber água antes do vinho, a fim de limpar o gosto de tabaco. Tolice. É como fazer sexo oral e depois não querer beijar na boca(3).
Acrescente as passas e a castanha, e misture rápido e bem. Tire do fogo e deixe esfriar. Se você mora no Rio, isso vai levar mais ou menos uma hora, mas aí em SP é mais rápido. Volte pro sofá ( espero que sua cinza ainda não tenha caído ) e repita o CD. Seu vinho deve estar mais exigente agora, portanto você pode bebê-lo mais rapidamente ( espera-se que você esteja no fim da garrafa quando voltar para a cozinha ). Ligue pr'aquela pessoa interessante e diga que está preparando bruschettas ( dica para meninas: se ele fizer trocadilhozinhos óbvios com "bruschetta", ele NÃO É interessante. A origem da palavra vem de "chamuscado, tostado" ). Conte que elas ficam prontas em vinte minutos, peça mais uma garrafa de vinho ( mais leve que o que bebe agora ) e diga à pessoa "para vir como está". Afinal, você só vai servir uma torrada enfrescalhada.
Volte para a cozinha. Coloque as fatias de pão numa assadeira, unte com POUCA manteiga e leve ao forno médio até ficarem douradas. Retire do forno e distribua o refogado de berinjela sobre as fatias. Passe perfume, ponha um CD mais animado ( nova dica para meninas: pretinhos básicos são chiques, transparências são sexies, mas eu vestiria camiseta branca de algodão e prenderia o cabelo - óleo deixa cheiro... - de um jeito casual. ) Coloque as fatias novamente no forno quando a companhia chegar ( dois minutos são suficientes ) and be happy. O refogado pode ser guardado na geladeira por até uma semana.
(1) Mingus nasceu numa base militar no Arizona e, quando adulto, se internou voluntariamente num hospício. O CD que você deve ouvir é "Epitaph", mais especificamente uma faixa chamada "Freedom".
(2) cazzo
(3) CAZZO!
UMA NOITE MAL-DORMIDA
Todos têm um "Momento Martin Luther King" na vida quando repetem a Célebre Frase "Eu Tenho Um Sonho." Levedo, inovando mais uma vez, repetirá o Grande King mas trocando o tempo do verbo: "Eu tive um sonho." Não no aspecto idealista da palavra, mas no sentido real mesmo; e foi ontem de noite, dormindo com a Noviça Marilu, que me leu trechos de Discursos de Posse da ABL para que eu pegasse no sono mais rápido. Aí sonhei.
No sonho eu estava viajando no espaço em uma nave e os tripulantes eram eu, uma equipe de Nado Sincronizado Feminino da Itália, o Ferrugem e um hamster geneticamente modificado para ter QI 850. Perguntei pro Hamster, que digitava sei lá o que no computador usando o focinho: "Ei chapinha, prondié que a gente tá indo nessa porra dessa nave?" Aí ele me falou: "Vamos pro Planeta HKPLZ-001/G, que é habitado exclusivamente por clones. E aproveita e aperta o SHIFT aí pra mim."
Chegamos no planeta e abro a porta da nave, e a primeira pessoa que vejo é o Juan Cleber(1). "Juan, cê por aqui???" E, atrás dele, outro Juan Cleber. E mais um. Na verdade, uma multidão de Juans Cléberes. Perguntei pra um deles: "Raios, que que é isso?" E o clone: "Ué, NESSE PLANETA nós somos TODOS Juan Cleber! HI! HI! HIIII!!!" Nesse ponto, despertei do sono esperneando e gritando "NÃO! NÃO!"
Mas agora fiquei encucado: em se considerando o significado alegórico do meu sonho, em que número apostar no Bicho? Algum palpite?
(1) Juan Cleber é tocador de charango na Orquestra Filarmônica de Tegucigalpa
PÃO
Escolher um hobby é uma decisão importantíssima na vida de qualquer Cidadão de Bom-Senso. Eu tenho a mais firme convicção de que um hobby revela muito mais sobre o caráter de uma pessoa do que sua profissão - ok, reconheço que algumas profissões não deixam a menor dúvida sobre a Estatura Moral dos que a exercem; todos sabem, por exemplo, a que laia pertencem Advogados Tributaristas, Banqueiros e Modelos. Mas (gostaria de ser enfático a respeito disso), ainda assim, o que uma pessoa faz com seu tempo livre é de suma importância não só na questão do Marketing Pessoal mas como fator de auto-estima. Como alguém pode se olhar no espelho pela manhã, quando seu hobby é colecionar embalagens raras de Sucrilhos? E os que juntam moedas antigas e fazem questão de aporrinhar os amigos mostrando sua coleção?
Conheci um sujeito que acumulava latas de cerveja do mundo todo. O cara levava seu hobby a sério ("levar um hobby a sério" é um oxímoro(1), e equivale a assinar um atestado de portador de idiotia crônica(2)), e me convidou certa vez a conhecer as suas latas. Havia de tudo: as "ales" inglesas, as belgas, cervejas da austrália, da china, etecétera. Uma coisa me chamou a atenção: TODAS as latas estavam cheias. Perguntei pro cara: vem cá, cê nunca bebe uma latinha de vez em quando? Ele me olhou como se eu fosse um Herege: O QUÊÊÊ??? NÃO, É SÓ PARA COLECIONAR!
'Nuff said.
Quando os assuntos do Alto Clero e as Obrigações Sacerdotais junto às Noviças não ocupam minha agenda, me dedico ao meu hobby, que é cozinhar. É divertido e enche o estômago. Sem nenhuma modéstia, posso declarar - com a consciência mais leve do que uma esternutação(3) de beija-flor - que cozinho muito bem. Na verdade, posso dizer que cozinho de uma maneira escandalosamente elegante, bem-humorada e criativa. E, dentre as muitas especialidades que preparo com galhardia e excelência, se destaca o meu nunca suficientemente louvado Pão de Cerveja.
Como todo Urbanóide criado com os sanduíches do McDonald's, você não tem a menor idéia do que seja um pão feito em casa. Você não reconheceria um pão caseiro nem se ele viesse correndo em sua direção na rua, gritando: "EU SOU UM PÃO CASEIRO! EU SOU UM PÃO CASEIRO! ME BESUNTE COM MANTEIGA!!!" Mas, tendo uma partícula de boa-vontade e seguindo à risca minhas instruções, você não só conseguirá preparar o MELHOR PÃO QUE JÁ COMEU NA VIDA como vai impressionar a mulherada com suas supostas habilidades de mestre-panificador.
Em primeiro lugar, mané, perceba que você vai trabalhar com fermento biológico. Se você conseguiu terminar o ensino fundamental, deve saber que estamos falando do "saccharomices cerevisiae", um fungo que desempenha um papel importantíssimo na História da Humanidade, pois nos fornece duas maravilhas: o Pão Levedado e a Cerveja. Meu nome, inclusive, é uma homenagem a esse microscópico organismo sangue-bom, espécie de Mártir que doa sua Pequena Vida para que possamos comer pão e encher a caveira de cerveja.
O problema com o fermento biológico é que ele está vivo. Sim, aquela massa parda e com cheiro peculiar, que se parece com algo que você acabou de tirar do ouvido, é formada por BILHÕES de criaturinhas vivas que PRECISAM continuar vivas para que o pão cresça. Portanto, todos os ingredientes que serão usados na receita do pão devem estar à temperatura ambiente para que o fermento não fique incomodado com excesso de frio ou calor e entre em greve. Não se esqueça disso.
Como é impossível cozinhar sem ter algo para molhar o bico, vamos no supermercado comprar - adivinhe? - cerveja. Mas estou falando de Cerveja de Verdade, feita segundo a Reinheitsgebot de 1516, e não uma Kaiser da vida(4). Algumas que se encaixam nesse perfil - ou que não se encaixam, mas são boas mesmo assim - são a DAB, a Erdinger, a Corsendonc(5) e a Lowenbrau Munchen. Vamos aproveitar a viagem para adquirir os ingredientes para o pão: farinha de trigo, ovos, fermento biológico, uma latinha de cerveja preta Xingu, lingüiças (200g), uma cebola, manteiga, óleo de girassol, sal e açúcar.
Chegando em casa, retire a pele das lingüiças e corte em pedaços pequenos. Abra uma cerveja - não a Xingu, caralho, essa é para o pão! - e dê um bom gole. Pense nos Judeus que ficaram quarenta anos andando pelo deserto no Êxodo, sem poder comer um pão Levedado e muito menos poder beber uma cervejinha, e ainda por cima tendo que ouvir Moisés gritar o tempo todo. Depois você se queixa da vida!
Frite bem a lingüiça usando meia xícara de óleo de girassol. Quando estiver no ponto, acrescente uma cebola pequena picada. Quando a cebola murchar, apague o fogo. Como você vai ter de esperar que a lingüiça esfrie, abra mais uma cerveja e cante o "Rap da Jubarte"
Em estando a lingüiça já fria, pegue uma tigela bem grande e coloque nela dois tabletes de fermento e duas colheres de açúcar. Com uma colher de pau, esfarele o fermento, que ao contato com o açúcar vai se transformar numa meleca asquerosa. Junte dois ovos crus, a lingüiça com o óleo da fritura, uma colher de manteiga, uma colher de sobremesa de sal e uma xícara da cerveja preta. Depois disso, vá acrescentando a farinha de trigo aos poucos, mexendo sempre com a colher de pau até que a massa fique consistente e não grude na colher.
Já está na hora de beber mais uma breja e botar, literalmente, a mão na massa. Sove bem a massa do pão, acrescentando mais farinha, se necessário, para que ela não grude na sua mão. No total, você vai usar mais ou menos meio quilo de farinha.
Pegue uma forma grande para pão, unte com manteiga e polvilhe com farinha. Espalhe a massa no fundo da forma e a cubra com um pano limpo. Deixe descansar por uns quarenta minutos ou até dobrar de volume. Pré-aqueça o forno. Coloque o pão para assar por 15 minutos em fogo baixíssimo, e mais 15 minutos em fogo alto. Voilá! Agora é só desenformar e comer o pão bem quente, com muita manteiga, gemendo de prazer.
NOTAS DE RODAPÉ
(1) Oxímoro: expressão ou frase contraditória, incongruente, tais como: luz negra, bruta flor, político honesto.
(2) É um saco ficar catando estas notas de rodapé, né não? Mas é aqui, no rodapé, que está a parte Cultural do post. Veja bem, "idiotia crônica" é um pleonasmo, pois não existe outro tipo de idiotia senão a crônica. Meu Deus, como eu sou culto! Caralho, se eu não for a ducentésima encarnação do Buda, não sei quem posso ser! Agora, com as técnicas de clonagem, vou montar uma Academia Brasileira de Letras Etílicas só com cópias do Padre Levedo. Sairemos às ruas, eu e meus clones, para cobrir de porrada os escrevinhadores wannabes, beber steinhager e declamar Leminski em Praça Pública.
(3) Eu sei o que significa "esternutação", mas você não. Vou curtir esse breve momento de superioridade intelectual enquanto você corre para o Google em pleno Surto Psicótico. Loser. (porra, estou malvado hoje!)
(4) De uma vez por todas: Kaiser não é cerveja; Kaiser é a Ira Engarrafada de Deus. Sobre a Reinheitsgebot, há os que dizem "amen" e os que dizem "oh, man!". Há controvérsias. Leia, por exemplo, a opinião do Ron.
(5) As palavras são poucas para louvar a Corsendonc e as Cervejas Trapistas Belgas. Estas são as Melhores Cervejas do Universo Conhecido, e provavelmente do Desconhecido também. Nas minhas preces, rezo pela Alma dos Desgraçados que atravessarão toda uma Vida Medíocre e Chatíssima sem ter jamais provado um gole sequer dessas Obras-Primas da Arte Cervejeira.