Padre Levedo
Segunda-feira, Abril 28, 2003
A CORRENTE

Esta Corrente é tão antiga quanto a Humanidade; suas origens se dissolvem no discurso confuso dessa Grande Mentirosa, a História. A Corrente não pode ser interrompida, não pode ser quebrada; o Céu e a Terra passarão, mas a Corrente permanecerá. Você, agora como Modesto Elo desta Corrente Indestrutível, tem como dever passar adiante este texto para mais vinte pessoas, num período de quarenta e nove horas após o seu recebimento. Procedendo assim, o seu Ser estará em Harmonia com a Lei Imutável do Universo, que é a Lei da Causa e do Efeito; e também a Corrente será conhecida e expandida, aspergindo suas Bênçãos sobre seus Elos. Porém, de acordo com a atitude de cada um ao receber a Corrente, podem advir tanto Bênçãos como Desgraças, senão vejamos:

- Gregor Samsa recebeu a Corrente e ignorou-a; numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, deu por si na cama transformado num gigantesco inseto;

- O Faraó do Egito riu-se da Corrente e Deus mandou uma penca de Pragas sucessivas sobre ele e, de lambuja, mandou Moisés dar no pé com todos os escravos judeus, causando um tremendo déficit na mão-de-obra da Construção Civil;

- Juan Cleber nem deu bola pra Corrente e uma doença rara transformou seu cérebro em Miojo sabor Galinha Caipira; desde então ele tem utilizado apenas o Bulbo Raquidiano para pensar;

- Derrik Hewlett Packard, um nerd muito supersticioso, usou um programa de envio de SPAM e mandou a Corrente para 35 milhões de e-mails. Um deles caiu na caixa postal de Hannibal Lecter, que localizou Derrik e brindou-o com um peeling de ácido fluorídrico gratuito, graças à Corrente;

- Severino da Silva recebeu a Corrente e a enviou para vinte pessoas. Um dia, chegando em casa, encontrou a mulher dando para um pastor da Igreja Universal, o que trouxe incontáveis Bênçãos àquele lar e, nove meses depois, um filho Ungido que fez companhia aos seus onze meio-irmãos;

- Deusdolina Cícera de Canjibirra, gari, encontrou um papel com a Corrente na rua e seguiu à risca as instruções; depois de uma semana, foi atropelada por uma perua escolar cheia de pré-adolescentes que prestaram, com inépcia mas muito boa-vontade, os primeiros socorros. Disso resultou uma lesão na espinha dorsal que a deixou paraplégica e aposentada precocemente por invalidez, recebendo uma nababesca pensão de um Salário. Viram como a Corrente funciona?
Terça-feira, Abril 22, 2003
AVISO AOS NAUTAS - PARTE II

Queridas Ovelhinhas, tenho recebido da Comunidade Blogueira vários pedidos de autorização para incluir em suas páginas um link apontando para esta Abençoada Paróquia. Padre Levedo informa que este proceder é do agrado de Deus; e que agindo assim certamente suas Almas serão Bafejadas pela Bênção do Onissapiente. Além do mais, só se eu tivesse misturado dez miligramas de Lorazepam com meio litro de vodka para achar ruim que outros me linkassem. Todos os interessados estão previa e irrestritamente autorizados a linkar este blogue. Praise the Lord, Hallelluja, Amens, etc.
Domingo, Abril 20, 2003
AVISO AOS NAUTAS

Este blog agora está mutante. Toda vez que se acessar a página, será exibida uma imagem aleatória no cabeçalho. Os atributos e tirocínios do Santo Padre, por serem numerosíssimos, foram armazenados em quatro bancos de dados Óracou 9i e serão sorteados também a cada acesso. Por último, Salomão, Filho de David, colaborará com seus provérbios prenhes de sabedoria, que serão psicografados real-time por um pedaço de programa JavaScript fornecido pelo Doutor Fritz. Aperte F5 e confira.
Terça-feira, Abril 15, 2003
O CÃO QUE FALAVA

Um ventríloquo achava-se em péssima situação financeira, mas, além de ser magnífico na profissão era ainda bastante esperto. Por isso, não se atrapalhou muito; saiu andando pela rua e catou o primeiro vira-lata que encontrou. Com o bicho debaixo do braço, caminhou até o boteco mais próximo, e, chamando o gerente de parte, disse-lhe:

- Olhe aqui. A única coisa que ainda tenho no mundo é este cachorro, que sabe falar. O senhor quer me dar duzentos reais por ele?

O gerente ficou logo na defensiva, desconfiado.

O ventríloquo começou a trabalhar. O cachorrinho deu um latido estridente e disse:

- Claro que eu sei falar! Vou aproveitar para reclamar que a comida neste boteco não presta. Já estive aqui uma vez!

O gerente coçou a cabeça espantadíssimo. O ventríloquo sorriu com ternura para o cão, e disse ao outro:

- O senhor vê, para mim é uma tristeza me separar dele, mas eu preciso muito desse dinheiro. O senhor está disposto a comprar o bichinho?

- Duzentos reais é muito. Eu dou cem.

Dizendo isso, enfiou a mão no bolso por trás do avental, e tirou o dinheiro.

O nosso amigo não estava em condições de regatear. Agarrou a nota, agradecendo comovido, e foi saindo. Mas quando já se aproximava da porta, o cachorro gritou:

- Então eu não valho mais de cem reais, hein? Pois só por isso eu agora nunca mais falo uma palavra!

E, ao que parece, cumpriu a promessa...
Terça-feira, Abril 08, 2003
E-MAIL

Santíssimo e Venerandíssimo Padre Levedo:

Pode me chamar de Marlene. Não digo meu nome verdadeiro porque tenho muita vergonha do anda acontecendo na minha vida. Tenho 50 anos, e meu marido, 55. Adalberto é o taxidermista[1] mais famoso aqui de Osasco, porém nossa vida sexual anda, perdoe-me o termo, uma bosta. É que Bebeto anda sempre às voltas com formol, micos secos, palha e arame. Seu interesse pelo meu corpo tem se reduzido muito. Eu até que entendo, não sou mais aquele violão que eu era aos 20 anos. Agora estou mais para um contrabaixo. Mas isso não explica porque ele anda tão envolvido no trabalho. Eu disse a ele: "Bebeto, nada de trazer castores para empalhar no fim-de-semana!". Mas não adianta. Ele sempre traz seus bichinhos.

Foi por essa época que tudo começou. Era uma noite quente de verão. Eu havia passado o dia inteiro com minha grutinha latejando, suplicando por recheio. Pensei em seduzir Adalberto. Vesti meu baby-doll mais provocante, preto, que deixava uma boa porção dos meus seios fartos à mostra. Me deitei languidamente sobre os lençóis de cetim, e me servi de champanhe. Fiquei de bruços e arrebitei bem minhas generosas nádegas. Foi quando eu estava nessa posição que Adalberto entrou no quarto. Ele vestia seu pijama amarelo imundo, e vinha mastigando a dentadura. Eu rosnei sensualmente para ele, passando a língua nos meus lábios grossos. Sabe o que aquele idiota fez? Nem me olhou, deitou e virou a bunda para mim, resmungando. Eu decidi provocá-lo com um excitante beijo na orelha. Me aproximei, respirei sensualmente na borda da sua orelha, e deslizei minha língua por ela. Por incrível que pareça, ele já estava dormindo, e apenas murmurou: "passa, lulu!"

Me senti ultrajada. Meus pentelhos eram uma mata atlântica pegando fogo, à essa altura. Não consegui dormir. Pensei em beber um uísque para acalmar minha canoinha úmida, e me dirigi para a sala. Foi então que eu o vi.

Padre, alguma vez já viu um hamster empalhado? O bichinho parece vivo, seus globos oculares substituídos por delicadas contas vermelhas, seu pêlo brilhante permanentemente conservado por produtos químicos, seu bigode ereto farejando os odores do infinito. Me aproximei, fascinada, e acariciei o pêlo branco do seu lombo. Um arrepio de desejo percorreu minha espinha, e não consegui me controlar. Apanhei o delicado animalzinho e o enfiei com violência na minha caverna de prazer. Imediatamente meus joelhos afrouxaram e comecei a cambalear pela sala. Ondas de orgasmo varriam qualquer vestígio de racionalidade da minha mente. A sensação de abrigar um inocente roedor empalhado nas entranhas do meu ser me deixava doida. Quebrei mesas, cadeiras, mordi um guia telefônico, passei um trote interurbano, escrevi uma carta anônima, assisti a todo o programa da Hebe Camargo. Fiz tudo o que uma educação repressora sempre me impediu de realizar, e sabe do que mais? EU GOSTEI!

O tempo passou. A orgia com o hamster me deixou quieta por uma semana, mais ou menos. Mas uma bela tarde, precisei entrar na oficina que Adalberto mantinha nos fundos da casa para seus projetos mais importantes, em busca de um saca-rolhas. Quando abri a porta, me deparei com o maior, o mais sensual, o mais suculento calango quimbundo. Sua cabeça escamosa se erguia majestosamente, o olhar sapeca me fixava com uma expressão zombeteira. Eu tremi. Santo Padre, eu sou humana. A carne é fraca. Não agüentei. Não me fiz de rogada: besuntei o lagarto todo com Amendocrem e enfiei-o todinho no cu. Depois, escondi o seu rabo numa dobra do vestido e fui ao shopping center. A sensação de andar rebolando pelos corredores do shopping com um sáurio entalado no cano de descarga era a mesma de estar sendo currada no Jurassic Park! Os homens me devoravam com o olhar, sem nem desconfiar que eu estava todinha, completamente, absolutamente preenchida com meu amado lagarto, que decidi chamar de Osório.

Temos vivido muito bem, desde então. Adalberto me perguntou se eu havia visto um calango no qual ele estava trabalhando. Olhei para ele cinicamente, e disse: "Não, meu bem. O que eu faria com um lagarto empalhado?" Tenho certeza que ele jamais vai descobrir. Só se ele procurar na minha bunda. Mas como não olha para minha bunda há mais de um ano, isso não me preocupa.

O que me preocupa, Santo Padre, é o seguinte: sou uma pessoa normal?

[1] É o mané que empalha animais
Sexta-feira, Abril 04, 2003
Vejam com que mimoso Origami a noviça Aline me presenteou. Ela, utilizando apenas a tampa de uma embalagem flip-top de Marlboro, montou essa camiseta polo. A Aline, como toda e qualquer mulher, acha que está gorda. Eu, que já pude apalpar a sua (inexistente) barriguinha e seus (inexistentes) pneuzinhos, dei meu veredicto, "cê num tá gorda coisa nenhuma, cê tá no ponto para uma curra de duas semanas". Infelizmente, minha opinião foi recebida com desdém e muxoxo. Vá compreender a Alma Feminina.
SADE, CARALHO!

A Noviça Alessandra tem tido minha atenção preferencial ultimamente, fato que me afastou dos compromissos bloguísticos, como diria Odorico Paraguassú. Mas precisamos ter sempre uma carta na manga, e a carta dessa vez é o Donatien Alphonse-François, o Marquês de Sade. Fala, rapaz!

VAI ASSIM MESMO

Há poucos seres no mundo tão libertinos quanto o cardeal de..., de que me permitirão calar o nome, já que ainda existe são e vigoroso. Sua Eminência tem um trato em Roma com uma dessas mulheres cujo ofício é fornecer aos depravados objetos necessários ao alimento de suas paixões. Cada manhã, ela lhe traz uma menina de treze anos, quatorze no máximo, mas de que monsenhor não usufrui senão deste modo incongruente de que os italianos fazem em geral suas delícias, mediante a qual a virgem, saindo das mãos da Eminência tão virgem quase quanto entrou, pode ser revendida como nova uma segunda vez a algum libertino mais convencional. A matrona, perfeitamente a par das regras do cardeal, não tendo um dia à mão o objeto a fornecer diariamente, imaginou vestir de menina um bonito rapazinho do coro da igreja do chefe dos apóstolos. Arrumaram-lhe os cabelos, um gorro, saias e todo o aparato ilusório que devia impô-lo ao santo homem de Deus. Não puderam lhe dar o que de fato lhe asseguraria uma parecença total com o sexo que imitava, mas essa circunstância não embaraçou a matrona. - Ele nunca pôs na vida a mão aí - dizia às companheiras que a ajudaram no disfarce. - É certo que visitará apenas o que neste menino é igual a todas as mulheres do universo. Nada temos a temer.

Enganava-se. Ignorava sem dúvida que um cardeal italiano tem o trato delicado demais e o gosto demasiado treinado para se equivocar em coisas semelhantes. Chega a vítima e o grande padre a imola, mas, na terceira vez:

- Per Dio Santo - brada o homem de Deus -, sono ingannato, questo bambino é ragazzo, mai non fu putana!

Verifica. Mas havendo pouco de incômodo na situação para um morador da Cidade Santa, a Eminência prosseguiu, talvez se dizendo como o camponês a quem serviram trufas por batatas: vai assim mesmo. Finda a operação, disse à senhora:

- Não a censuro pelo seu engano.

- Desculpe, monsenhor.

- Mas não, não, lhe afirmo, não a censuro. Mas quando isso ocorra de novo, não esqueça de me advertir, porque... o que eu não vi na primeira aproximação, tratarei de ver.
Terça-feira, Abril 01, 2003
ENTRE PELA PORTA DA FRENTE, SEM BATER

Copiado do Catarro Verde:

O Branco Leone me conta essa que ele ouviu do ator José Dumont. Filmagens no garimpo de Serra Pelada. Uma noite livre, o Dumont entra num puteiro e vê uma folha de caderno colada na parede. Em letras reforçadas com caneta Bic, o aviso:

INFELIZMENTE
NÃO TRABALHAMOS
COM CU.

A Gerência