Padre Levedo
Quarta-feira, Outubro 29, 2003
FRASES EM BRANCO by BIZARRO

A partir de hoje a Paróquia Maldita conta com a colaboração teratológica de Bizarro, o mais famoso parafrasta udigrudi anônimo de Happy Harbour. Começamos com a supimpa série "frases em branco", onde se percebe claramente no Poeta a influência oblíqua de Rimbaud, Manoel de Barros e Chacrinha:

"A sinceridade ofusca o semblante das carpas que sentem calor no inverno, e ofendem a situação ambígua que se torna lado a lado o ser total minimizando o sempre nunca."

"Quando fico cético, certamente o lógico não compreende o ser, o eu fica repleto, e sem sono durmo."

"Da abertura da madeira fiz uma casa de água, nem peixes moram nela."

"Semeei todas as sementes, e não voltei a sentar, o protótipo era falso, peguei a cerveja no mar."

"Só quem sabe enxergar em um sentimento visceral poderá encontrar aquela forma única e ladina."
Terça-feira, Outubro 21, 2003
PERSONAGENS À PROCURA DE UM ENREDO - PARTE I

Criançada, agora ninguém me segura. Com o firme propósito de atingir meu objetivo de vida, que segue o vetusto lema "otium cum dignitate", investirei meu tempo (que é muito) e minha energia numa nova carreira: escritor de roteiros para a novela das oito. Vamos aos personagens:

RINALDO MESURAS D'ANTANHO: Próspero industrial do ramo da mineração. Gordo, careca, baixinho e corno. Famoso pelo talento em gastar quantias fabulosas de dinheiro com excentricidades, como acarpetar todo o Clube de Golfe do qual é sócio com grama sintética fabricada por Yves Saint Laurent. Casado com Quiquinha (neé Francisca) e pai de Pôla.

QUIQUINHA MESURAS D'ANTANHO: Esposa de Rinaldo. Foi comprada aos doze anos num leilão de virgens em Serra Pelada por um procurador do Dr. Mesuras, Pífio Galardão. Boatos maldosos sugerem que Galardão já comeu no mesmo prato do patrão, mas com o prato emborcado. Quiquinha se adaptou extraordinariamente bem a uma vida fútil e luxuosa. Virou socialite, corneando com desenvoltura seu marido com o cirurgião plástico, o ginecologista, o dentista, o psicólogo, o professor de yoga, o gerente do banco, o Padre Jônatan e os colegas do curso de feng-shui.

PÔLA: Filha única do Casal D'Antanho. Garota musculosa, cabelo escovinha pintado de loiro, voz grossa. Ganhou, entre as amigas, o carinhoso apelido de Polacão, que mais tarde foi abreviado para Pôla. Os pais, muito liberais, não enxergam problema algum em receber a turma de Pôla nos churrascos de fim-de-semana onde elas se divertem lutando no gel e disputando queda de braço.

PADRE JÔNATAN SUÍFTE: Pároco da Igreja Madalena Nossa Terra. Beberrão, mulherengo, pulha e cínico. Um dos muitos responsáveis pelo fato de ninguém notar que o Dr. Mesuras é careca, dada a quantidade de chifres. O Padre, secretamente, mantém um negócio de tráfico de Escravas Brancas para o Japão, onde acumula as funções de Proprietário e Degustador.
Sexta-feira, Outubro 17, 2003
A VERDADEIRA HISTÓRIA DO GERADOR DE LERO-LERO

No Século Passado, lá pelos idos de 91, li um livro de um francês maluco que trabalhava na France Press e que cultivava um hobby bem interessante: ele colecionava notícias bizarras do mundo inteiro. Como bizarro é um conceito muy relativo - eu, por exemplo, acho o Cid Moreira bizarro, mas muita gente não - vou contar uma das centenas de estórias toscas do livrinho.

BERLIM - Hans Schmuck, 27, portador de depressão crônica, foi preso em uma delegacia após se apresentar espontaneamente, confessando que havia assassinado os pais. Schmuck relatou que planejava se suicidar, mas temia que os pais não suportassem a dor da sua perda, e portanto decidiu matá-los antes para os poupar do sofrimento. Porém, logo depois de executar Helga e Dik Schmuck com vários tiros, Hans desistiu de cometer suicídio e se entregou à polícia.

Mas tosqueiras à parte, o que me chamou a atenção mesmo foi um artigo sobre um polonês que havia inventado uma tabela para facilitar a vida dos políticos que discursavam freqüentemente. Achei a idéia genial, mas não pensei em fazer um programa de computador para automatizar o processo por dois motivos: não conseguia enxergar utilidade para aquilo (que falta de Visão de Mercado, Levedo!) e também pelo fato de que a programação era tão elementar que não constituía desafio nenhum. Naquela época eu estava fuçando em redes neurais e outras academicices, portanto nem queria saber de coisas triviais como dois loops aninhados concatenando aleatoriamente pedaços de um array 4x10 e cuspindo o resultado na cara do usuário. Isso era "newbie job", como se dizia então.

O Tempo, esse Gargoille Faminto, devorou uns dez anos da minha vida e decidi, num Ato de Indulgência para com a Raça Humana, permitir que os habitués da World-Wide Whorehouse conhecessem a Verdade e a Luz através destas Santas Palavras que eventualmente escrevinho aqui.

Porém, ai, porém (como diz o samba) uma excentricidade do destino - ou seria mais uma traquinagem do meu Velho Amigo, Deus? - me colocou novamente nas mãos o artigo sobre a tal tabelinha para gerar discursos, desta vez publicado em uma revista. Percebi que aquilo era uma espécie de Aviso dos Céus para que houvesse um Gerador de Lero-lero disponível para os Pobres de Espírito [que herdarão o Reino de Deus] e os que têm Sede de Justiça [pois serão saciados]. Minha não tão modesta colaboração foi reconhecer o padrão dos pedaços de frases e estender a tabela de 10 para 30 linhas com fragmentos de minha lavra. A opção por programar em Java se revelou um erro, pois não há necessidade de se fazer um applet para tão pouca coisa - JavaScript é muito mais adequado. Existe uma versão em PHP do Gerador, que formata o texto de uma forma apresentável, mas não está no ar porque a certificação de metodologias que nos auxiliam a lidar com a determinação clara de objetivos deve passar por modificações independentemente do sistema de participação geral.
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
UMA VIDA DE COSMOPOLITANO

Domingo. Domingo à noite. Preciso de mais latinhas de cerveja e mais marlboro. Peregrino na Vila: a birosca do doutor Diniz fechada; o Emporium fechado; os botecos usuais, idem. A Cidade que Nunca Dorme me fecha as portas. Apelo: Hospital Saint Louis. Há bares ao redor que nunca fecham. Quatro Bohemias. Marlboro maço. Perfect.

Volto para casa. Rua deserta. Passo por um prédio. Um sujeito fala em voz alta de uma sacada. Voz de viado. Aliás, voz de alguém que, quando estavam distribuindo boiolice, trancou na roleta e recebeu overdose.

- Homens, os homens são maravilhosos... Homens passam aqui em frente, poderosos...

Pensei no momento: "cáspite, é esse o tipo de atenção que eu consigo obter?" e passei reto. A voz prosseguiu: "e também um monte de caretas assustados"

Depois quando digo que domingos são dias malditos, neguinho num intendi.
Sábado, Outubro 04, 2003
PUDICÍCIA

A Fernanda era de Portugal e tinha uma escola de Inglês num bairro podre de chique em San Pablo. Os professores eram todos estrangeiros, de vários países. Tinha gente até da Nova Zelândia. E todo mundo com vinte e poucos anos.
Fiquei amigo da Fernandinha e uma vez ela decidiu oferecer um jantar pros professores e me convidou também. Sei que comemos muito bem, e depois fiquei jogando conversa fora com uma Sueca maluca. O pessoal da Suécia é bastante desinibido - principalmente os mais jovens. Não precisou muito uísque para que ela estivesse falando pelos cotovelos. Em Inglês, graças à Deus, pois o meu Sueco anda meio enferrujado. Perguntei várias coisas sobre o país dela, e acabei comentando sobre os famosos filmes Suecos. Os filmes de putaria, é óbvio. A loirinha riu e contou que assitia muito, e o irmão mais velho dela inclusive era casado com uma atriz pornô. Porém o casamento não estava dando certo. Aí eu não me controlei e disse: "mas claro, o sujeito deve ter uma dor-de-corno tremenda!" Ela negou, pois o problema não era o fato da mulher ganhar a vida trepando o dia inteiro. O marido não se importava com isso. O problema era que a moça, quando transava com ele, não passava do papai-e-mamãe. Ficava totalmente encabulada. Não suportando a situação, um dia o marido desabafou: "Porra, querida, e aquela tripla penetração que eu vi você fazendo no filme 'loiras peitudas contra ETs tarados'? Caramba, não entendo essa timidez! Metade da Suécia te viu mamando uma trolha de burro! Mas você chega aqui em casa e se comporta como uma freira!". A mulher ficou indignadíssima. Repondeu: "O que eu faço no estúdio é trabalho. O que eu e você fazemos na cama é amor. Você pensa que eu sou o quê? Uma puta?"
Quarta-feira, Outubro 01, 2003
O MAIS BELO POEMA ONANOCONCRETINO

(a felicidade entre () parentesis)

S..S
S S
/(o)(o)\
\ ) ( /
( \/ )
\( /
\ \
c..)
wwWwwwWwwwWwwww

Quem é? - Sílvio Lia / Maurílio Lopes

Quem é que não sofre por alguém?
Quem é que não chora uma lágrima sentida?
Quem é que não tem um grande amor?
Quem é que não chora uma grande dor?

Deus, meu Deus, traga pra junto de mim
Este alguém que me faz chorar
Que me faz sofrer tanto assim
Deus, meu Deus, tenha piedade de mim
Faça com que ela volte
Viver sem ela será o meu fim

Quem é que não sofre por alguém?
Quem é que não chora uma lágrima sentida?
Quem é que não tem um grande amor?
Quem é que não chora uma grande dor?

Eu sofro, como tu sofres também
Mas o dia virá, quando for para a eternidade
E meu sofrimento chegará ao fim
Eu sei meu amor
Nem mesmo você vai chorar por mim