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LEVEDO DE FÉRIAS!
Sim, criançada, mesmo um Amanuense do Altíssimo tem o seu direito a uma folga de vez em quando. Irei para Cabo Frio, para minha luxuosa mansão à beira-mar. Na bagagem, meu equipamento para mergulho apnéico da grife italiana Mares. Esses fascistas sabem como fazer um pé-de-pato tamanho 46. Na caixa do snorkel há um mapa do litoral da itália, tão belo quanto inútil, já que não pretendo ir para a europa tão cedo.
Allan Holdsworth nos acompanhará, e estou muito curioso para saber como ele se comportará frente ao mar. Para um cachorro que não tem nem dois anos de idade e jamais viu o oceano atlântico, deve ser uma experiência, ahn, bizarra.
Volto lá pelo meio de janeiro. Sei que vocês tentarão o suicídio ateando fogo às vestes, privados de meus textos prenhes de sabedoria. Mas, como já disse, eu volto. Tenham paciência.
A RADIOATIVIDADE SEGUNDO JOHN McLAUGHLIN
Baixem aqui "Radio Activity", que é uma das músicas preferidas do Padre. A qualidade sonora do eme pê 3, depois de expandido o arquivo RAR, é boa o suficiente, considerando-se que a faixa foi convertida a partir de equipamento analógico - cortesia inestimável de Bizarro, aquele das "frases". Ouçam em um volume irracional.
CASTIGO
Nunca entendi e penso que jamais entenderei o subtil mecanismo da Lei. Parece-me que os homens que fazem as Leis e as executam são pessoas tão sensatas quanto jumentos – e peço publicamente desculpas aos jumentos, pois sem dúvida eles entendem muito mais da vida do que qualquer magistrado.
[lembrei agora que Sade tinha uma bronca enorme com os Homens da Lei, e não tinha vergonha de mostrar isso – qualquer hora dessas vou publicar um conto engraçadíssimo dele, sobre um Juiz de Aix]
Indo um pouco mais diretamente ao cerne da questão: existem pessoas malvadas nesse mundo. Gente ruim mesmo. Gente que faz coisas inomináveis. Não me limito a citar o óbvio, como matar, estuprar e torturar. Há coisas piores. Tenho um grande amigo, o Jorge, ex-PM, com o qual gosto de trocar umas idéias (gosto de trocar idéias, pois tenho muitas repetidas). Na opinião dele, que viveu BEM de perto situações que normalmente só nos chegam através do noticiário, o pior crime que pode ser perpetrado é o de estelionato. Na sua (dele) lógica, quem mata acaba com uma vida e pronto. Quem estupra, violenta uma pessoa, mas as seqüelas podem ser resolvidas com um bom psiquiatra. Mas quem é estelionatário comete um mal muito maior.
O Jorge me contou algumas estórias horripilantes sobre malandros que, utilizando-se de meias-velhacarias, rapinaram incautos e lhes tiraram TUDO, incluindo aí imóveis, dinheiro e paz de espírito. Muitas vítimas simplesmente perderam inclusive o juízo e passaram a mendigar pelas ruas, murmurando aquele monólogo típico dos dementes que ninguém gosta de ouvir.
E estamos falando apenas de modestos criminosos, e não de alguém como o Mansur, que deve estar agora assistindo tranqüilamente uma partida de tênis na Inglaterra, depois de lesar milhares de pessoas aqui em Pindorama.
Não, não vamos falar sobre o pessoal de Brasília, pois o post vai ficar muito extenso.
Agora chegamos, finalmente, ao ponto central desta nota: como castigar essas pessoas? Não estamos tratando aqui de recuperação, mas de castigo mesmo. É tolice pensar em um sistema penal que recupere uma pessoa notoriamente abjeta. Mas, ainda assim, insisto em uma chance – mínima, para falar a verdade – para que o criminoso tente, por esforço próprio, mudar de carreira e se tornar, por exemplo, um advogado tributarista e continuar sendo um pulha, só que desta vez atuando perfeitamente dentro da Lei.
O Dráuzio Varela, no seu excelente “Estação Carandiru”, dá algumas dicas importantes sobre o que poderia ser uma punição efetiva para a malandragem. A pergunta é: o que os criminosos mais detestam? O Varela responde: duas coisas – acordar cedo e trabalhar. A aversão ao trabalho é tanta entre os detentos que um chegou a dizer pro Dráuzio: “O quê? Trabalhar na cadeia? Nem quando eu morava com o meu pai, que me enchia o saco todo dia pra arrumar um emprego, eu trabalhava. Vou trabalhar aqui? De jeito nenhum!”
E acordar cedo, então? Ele relata que muita gente foi morta nas celas só porque fizeram barulho de noite e acordaram os colegas – cujo sono é sagrado.
Muito que bem, então temos um plano simples: o dia, segundo a Ciência, tem 24 horas. Dessas 24 horas, vamos conceder seis horas para o sono. Apenas isso. Das 22 às 4 horas. Às 4 horas, invariavelmente, tocam sirenes em todo o presídio, suficientemente altas para fazer com que a malandragem PULE da cama. Segue-se um banho frio. Café. Depois disso, trabalho. Muito trabalho. Trabalho duro. Trabalho pesado. Construir ferrovias, por exemplo. Muito trabalho. Doze horas de trabalho, com pequenas – pequeníssimas – pausas para refeições. Depois, estudo. Avaliações periódicas para saber se os putos estão levando a sério os estudos. Se não estiverem, aumento da pena.
Conversei com o Jorge a respeito disso. Ele, muito cartesiano, me disse que daria uma trabalheira danada para controlar esse pessoal, e me falou como, na sua (dele) opinião, as coisas deveriam ocorrer: um pedaço de borracha de pneu na nuca do indivíduo e um tiro de 22 na quarta vértebra cervical. Não mata, mas deixa o cara tetraplégico. Disse-me ele que cansou de ver o pessoal fazer isso, e depois jogavam o criminoso em algum buraco escuro para que apodrecesse boiando no próprio cocô. Achei essa prática de extremo mau-gosto, mas como ele é um profissional, deve saber do que está falando.
UMA HOMENAGEM MINIMALISTA A FRANCISCO IBAÑEZ![]()
RUBEM FONSECA, TRINTA E UM ANOS DEPOIS“Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”
I Coríntios 13:11
Quando eu estava lá pelos meus quinze anos, namorando uma ninfomaníaca que além de drenar toda a energia do meu corpo ainda insistia em me entupir de livros, discos e filmes, fui apresentado a Rubem Fonseca, Bukowski, Glauco Mattoso, Mario Benedetti, Julio Cortazar, Mempo Giardinelli, Le Luthiers, Mahler, Pessoa, Rimbaud, Alain Resnais, Kurosawa e por aí vai.
É por isso que sempre afirmo que devo tudo o que sou e tudo o que tenho às mulheres que conheci. Não fossem elas, eu seria hoje provavelmente um deputado sem nenhum escrúpulo, ou um advogado de porta de cadeia, ou – o horror, o horror! – apresentador da MTV.
Naquela tenra idade, sendo abusado sexualmente repetidas vezes por uma tarada que só se contentava com uma refeição completa e bombardeado com uma pletora[1] de informação, não podia realmente me queixar. Foi uma época divertida.
Quando se tem quinze anos, Rubem Fonseca e Bukowski são geniais. Hambúrguer é a melhor iguaria do mundo. Fumar maconha é o ápice da transgressão. Temos todo o tempo do mundo, como diria o Renato.
Lendo “Lúcia McCartney”, do Rubem, com meus ávidos olhos adolescentes, pensei: “cazzo, um dia quero escrever como esse cara”. Para mim, Fonseca e Bukowski eram o máximo, parecia impossível superá-los. É, eu tinha quinze anos.
Esses dias li “Secreções, excreções e desatinos”. Trinta e um anos separam a publicação de SED e LM, e não consegui, sinceramente, perceber diferença alguma entre o que o Rubem escrevia em 1970 e o que ele escreveu em 2001. O mesmo estilo que uma vez me fascinou, a frase curta, direta, crua, os detalhes fesceninos – no que ele se assemelha muito a Bukowski – já não dava aquele barato.
É por isso que não entendo o bafafá todo a respeito de gente que escreve mais ou menos nos moldes destes dois escritores. Canso de ler pessoas indignadas falando muito mal de fulano ou beltrano, justificando a sua Santa Ira com uma simplificação pueril: o que eles escrevem é uma merda! E também há a contrapartida, gente que defende visceralmente este modo de escrever, que é apenas um dentre dezenas de modos de escrever. Todos falam como se o assunto fosse de uma importância imensa.
God, muito barulho por nada. Nesses momentos, me lembro do Robert Fripp, o guitarrista malucão do King Crimson. Uma vez, questionado sobre a modesta vendagem dos seus álbums solo (muitos dos quais são, a bem da verdade, soporíferos), Fripp respondeu: isso realmente não me preocupa. A obra vai encontrar o seu lugar por conta própria.
É isso. Fonsecas, Bukowskis e seus replicantes sempre terão um lugar para suas obras: o sovaco de um adolescente de quinze anos. Enxergo nisso uma espécie de Manifestação da Justiça Divina.
NOTAS
[1] este termo estava na minha manga há muito tempo!
DIÁRIO DA PARÓQUIA
A partir de hoje esse blogue usa a ultra-moderna (cof, cof) tecnologia XHTML/CSS, ou em outras palavras, passa a ser "tableless". Grande merda, mas serviu como exercício e agora posso me concentrar no conteúdo, e não nessas masturbações tecnológicas. Praise be, amens.