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No início do filme "The Hunted", há esta transcrição do diálogo entre Abraão e Deus:
- E então DEUS disse: Abraão, quero que você mate seu filho
- E Abraão disse: você só pode estar gozando com a minha cara
- E DEUS disse: Abraão, quero que você suba no monte e mate seu filho
- e Abraão disse: o quê?
- E DEUS disse: Abraão, você pode fazer o que quiser, mas quando me ver de novo, é melhor sair correndo
- Ahn, onde mesmo deve ser o sacrifício?
LEVEDO PROVOCA TSUNAMI NO MERCADO DE ARTE
"Colonização Lusitana", grafite sobre embalagem industrial
O concorrido leilão de algumas obras do conceituado desenhista Padre Levedo, que será na Sotheby’s, em Londres, é o primeiro na história da Casa que receberá lances em uísque Johnny Walker Blue Label, por imposição do Artista. A sua obra “Colonização Lusitana” (desenho a toco de lápis em papel de cigarro Derby, 10x15cm) tem o lance mínimo de trinta caixas de JWB. O evento reacendeu discussões acaloradas sobre o valor e o alcance da Obra do Padre, que sempre foi um Artista embebido de Pugnácia e Ousadia - mas sem chegar a extremos como mostrar a bunda para uma platéia de teatro, como alguns fazem. As opiniões dos críticos especializados variam desde a adoração extática até o muxoxo estético, sem excluir a prostração dubitativa e o insulto patafísico.
Fulton Dickgrabber, do Art Thou Serious, diz: “Levedo é o verdadeiro Picasso do Século XXI. Sua Obra é a ruptura da sublimação consciente, mesmo que não saibamos o que isso signifique. A cristalização do microssegundo em que o significando ultrapassa a metalinguagem paradigmática é... é... cazzo, me perdi! Vamos de novo: a cristalização...”. Já Tabatha Whore, da Blinkin’ Ay!, é menos entusiasmada: “Levedo é uma espécie de Bart Simpson da Arte Moderna. Na verdade, ele está tirando uma com a nossa cara. Gostaria de dar um chute no saco dele. Esse homem precisa ser desmascarado. Será que ninguém vê isso?!”.
Mas, e o Artista, o que pensa a respeito dessa discussão? Fomos à procura de Levedo e ele nos deu a seguinte declaração:
“Já estou acostumado a essa confusão sobre minha Obra. O problema é que as pessoas interpretam muito superficialmente a mensagem contida nela. Em ‘Colonização Lusitana’, por exemplo, alguém pode dizer que vê maçãs e pêras, mas isso está longe de desvendar o significado alegórico da composição. Ora, direis, de fato são maçãs e pêras; talvez romãs, ou nêsperas, caquis, toranjas ou frutas-do-conde. Mas obviamente há muito mais por trás disso”.
“Consideremos novamente o título: ‘Colonização Lusitana’. O título desvenda a obra: as duas maçãs em primeiro plano representam os peitões empinados das jovens índias, e as folhas ao redor são uma metáfora para os ávidos dedos Portugueses que os apalpam. Ao fim e ao cabo, estes peitos, de tanto serem buzinados pelos portugas e sugados por vorazes curumins, ficam caídos, e estão representados em segundo plano pelas duas pêras que já não tem tantas folhas ao redor, pois já não há tantos dedos interessados em apalpar aquelas muxibinhas”.
[neste ponto o Artista faz uma pausa e dá um gole no seu uísque sesquicentenário; e prossegue]
“Temos aí então um retrato perfeito do que foi o processo da colonização. E é também uma mensagem sobre a inexorabilidade da decrepitude física, acelerada pelos excessos. Agora passemos ao fundo do desenho. Nele, as linhas horizontais representam o Homem Terreno, materialista, enquanto que as verticais aludem claramente ao Homem Espiritual, que eleva-se até Deus. As linhas oblíquas são os homens que dizem: ‘caraio, posso buscar Deus e tomar umas biritas de vez em quando! Qualé o pobrema?’, enquanto as linhas que não são dessas três categorias representam os que, como diria Churchill, cagam pra isso tudo”.
“Conclui-se, naturalmente, que ‘Colonização Lusitana’ é um vasto panorama Artístico-Histórico-Social-Político-Religioso-Hortifrutigranjeiro. Creio que jamais, em toda a História da Arte, uma obra conseguiu transmitir tanto de uma maneira tão sucinta”.
Saímos da presença do Santo Padre, mais uma vez absolutamente aparvalhados com o lume estroboscópico da sua Mamútica (Mamútica?) Sapiência.
(SEM TÍTULO)
Há livros cujo título já justificaria sua simples existência. Livros que nem precisariam ser escritos, pois o título é uma obra-prima por si só. Por exemplo, "No Ventre da Besta", que apesar do excelente título, é um livro chatíssimo onde Jack Henry Abbott, um presidiário problemático, desfia sua filosofia capenga em cartas endereçadas a Norman Mailer. Todos ganhariam se o livro jamais fosse escrito, se apenas subsistisse seu título, como mera sugestão para uma obra maior. Na contramão dessa teoria, existem verdadeiras maravilhas da Grande Literatura sob títulos prosaicos ou muitas vezes enigmáticos, como "O Processo". Os english-speakers têm inclusive um ditado - nem sempre aplicado à literatura - que faz alusão a este fenômeno. É "you can´t judge a book by the cover", que pode ser usado, por exemplo, para explicar os verdadeiros motivos que levam um cidadão a casar com uma mulher de minguados atributos físicos, se é que me faço claro. Mas devido à Natureza Humana, sempre julgamos os livros pela capa, e as mulheres pela bunda. Sad, but true.
Pois o fato é que tenho tudo para ser um escritor bem-sucedido: sou culto, ateu, criativo e muito mentiroso. Mas me falta o essencial. Não consigo batizar adequadamente meus textos. Idéias, as tenho às mancheias (mancheias? contenha-se, Levedo!). Mas e os títulos, rapaz? É esse o caroço da questã, como diria o Analista de Bagé.
Você pode não conseguir concatenar uma frase na outra, mas, se tiver um talento excepcional para criar bons títulos, é muito mais que meio caminho andado.
Por exemplo, esses dias fui fulminado por uma idéia brilhante em pleno trânsito. Na verdade, nem era tão brilhante assim, pois o George Simenon já explorou algo vagamente parecido num dos seus romances. Mas também, sobre o quê esse belga safado não escreveu? A idéia era a seguinte: um homem e uma mulher vivem juntos e se amam doidamente, mas não suportam conversar um com o outro. Ambos tem uma personalidade fortíssima, e não admitem ser contrariados. Como são personagens de ficção e, por conseguinte, não precisam ter qualquer semelhança com pessoas do mundo real, se dão conta disso e muito lucidamente decidem não sacrificar o belo amor que sentem um pelo outro. Continuam a viver juntos, mas sem trocar uma palavra sequer. Sabem que a opinião que eles tem sobre o mundo, sobre a culinária japonesa, sobre religião e sobre a pintura expressionista é irrelevante diante do imenso afeto que nutrem um pelo outro. E optam pelo silêncio, como meio mais eficaz de evitar conflitos. E vivem juntos e na mais perfeita harmonia, em completa incomunicabilidade. Até que o homem adquire um saxofone e a mulher, transtornada pelo que ela imagina serem mensagens cifradas nos longos solos de jazz do marido, o mata com uma chave de fenda, e logo em seguida comete suicídio utilizando uma máquina de costura portátil.
Só o que me falta para colocar essa história fabulosa no papel é um título. Meu reino por um título!
THE COLD, HARD FACTS
Se um cidadão consegue chegar aos trinta anos de existência e ainda assim não ser um cínico irrecuperável, é porque ele ainda não chegou aos trinta anos.
SE ME PLAGIO JO, CARAJO!
Me auto-plagio com a carta a Don Mauro, que vocês, preguiçosos, nunca leram pois não clicaram aí ao lado.
INFORMAÇÃO PRELIMINAR: Don Mauro é refugiado político oriundo da Sicília, onde
tentou dar um picote na filha de um mafioso.
A
Don Mauro Guiuseppe Ordinari Puglia Schiaffino Safadi Trovattore,
Menestrel-Mór de lúcidas catracas,
Artesão d'immenso tirocínio & inconfessável inspiração buffa,
Meus respeitos.
N'esses dias de sol arisco & luas requentadas, dias bocejantes prenhes
de tédio, noites amornadas prenhes de mosquitos, eis-me a rolar no catre, já
há muito passada a meia-noite. Se engana vossa mumificente maginação si vis-
lumbra que o que fugentava o sono de minhas pálpebras er'algo assim como
elevadas & nobres lucubrações. Não senhor! Era pura porcaria, m'alembrava
d'uma negrinha de muitos préstimos e sortidos predicados que me servira na
época em que residia eu às margens d'esse argênteo & pútrido mannancial que
atende por Guahyba.
Espicaçado pelas memmórias assaz abrasivas dos belos tempos em que
meu catre gemia sob as muitas brincadeiras que então se desenrolavam no afã
exploratório da malemolência afro-lusitana, tive por bem calçar as chinelas
e empreender caminhada d'algumas quadras até uma bodega raitéqui que, se
pecava talvez pela feérica impessoalidade fluorescente, ao menos nunca
jamais cerrava as portas, nem por motivo alegado de sinistro familiar. Meu
caríssimo bigorrilho, eis que a hora terceira já s'espadanava no breu & no
lume franzino d'horizonte, e vosso proverbial conservo avança trôpego entre
faróis que boiavam immensos, fragmentos frágeis de fumaça e riso.
Chego no bolicho cosmonauta. O patrão, mancebo incipiente de falar
amalandrado, me saúda pois - não lhe contei? - tenho-o brindado amiúde com
minha presença burlesca. Têm eles a inaudita coragem d'oferecer, d'entre o
vário e rocambolesco sortimento, uns cigarros de cravo oriundos da
Polinésia, q'ostentam embalagem quixotesca & nomenclatura bizarra, tais
como: Gudang Garam, Sampoerna, Patma. O que assanha minha preferência é
aquele primeiro, mas porém havia no meio d'esse batalhão de pitos
Javaneses um que me era bem desconhecido. Requisitei ao mancebo que por
favor me facultasse a apreciação palato-pulmonar de tão exquisito spécimen,
o que prontamente providenciou com muito gosto. Qual não foi o meu espanto,
meu caro, ao apor a chama no extremo combustível do formidável artefato
tabagístico e sugar a misteryosa neblina perfumada... Era superlativo,
miasmático, cheio de negaças... e forte, tanto q'empestou d'immediato todo
o recinto, emprestando-lhe sei lá que ares de bazar indiano. À essas, já
esperava entrever elefantes cruzando a avenida sonolenta. Principiamos eu,
o patrãozinho e um meganha disfarçado a conversar mui indolentemente, quando
adentra esse indivíduo d'olhar embaçado, abdominalmente abastado, e dando
todas as mostras e mais algumas, d'estar 'coas idéias embaraçadas. Junto
d'ele, paciente ouvinte d'as minhas desventuras, uma dama que merece até
novo parágrafo.
A mulher era alta e tesa, com longos e duros olhos d'um castanho
claro & interrogativo. O cabelo, com pretensões de louro, e sem dúvida
auxiliado nesse mister por todo um arsenal farmacêutico, caía frouxo até
os quadris. Sem o menor vestígio de maquillage, a boca de lábios mui
fartos se mantinha entreaberta, numa permanente expressão de expectativa.
Indo & vindo, ela prendia meu olho com anzol de fisga, q'eu não atinava
deixar de reparar naquele despropósito de recursos. Bem sabe o senhor q'eu
não sou do povo dos nanicos; muito pelo contrário: quis a Natureza firmar-
me em molde agigantado. Pois essa dama de maneira nenhuma se erguia a menos
de quatro polegadas do meu ser. E que platibandas! Dois pequenos pomos,
como manda o decoro mas não aprovo, eu que os aprecio volumosos e
impertinentes. Mas porém eram bem emoldurados pelo suporte rendado que se
deixava entrever sob a blusa branca justa. Agora, os préstimos traseiros,
d'esses nem é bom falar. Caía a cintura n'uma curva Bissetriz e se alargava
com gosto por debaixo dos jíns, na clássica protuberância calipígia. Era num
leve formato de gota d'água, q'isso eu sei ser do vosso conhecimento, pois
não vi ainda debaixo do sol maior teórico, de franca inspiração Darwiniana &
Sargentelliana, versado na evolução & classificação d'aquilo que é‚ como o
chamam nosso illustres ex-colonizadores, o burrão. Lhe dei vinte'um annos,
sem favor. Só após aquilatar bem todos os atributos aparentes e maginar bem
os não aparentes, foi que percebi que possuía a dama um olhar bastante
apalermado; mas porém à essas, com um curricullum vitae sine-qua-non data
maxima venia concessa daqueles, si pode perdoar um número bem significativo
de defeitos, concorda?
Depois que si foram, adentrando no breu da madrugada, foi q'entendi,
auxiliado pelo patrãozinho: era como se diz uma meretrícula, uma dama da
noite, uma mulher de tolerância. Retorno eu trôpego, pitando meus cigarros
de cravo Javaneses, e torno a rolar no catre, porém agora maginando tudo
que se faz n'esse mundo afora, e maginando aquele bêbado obeso abastado
beijando sórdido e nojento aquela boca moça.
Aqui me despeço, não sem antes me desculpar por tomar vosso precioso
tempo com relatos insossos e sem tutano como esse, sobre as andanças de um
poeta de verso parco e riso escasso, na treva fresca e protetora das
madrugadas.
Um flórido aceno, repleto de betume & cabriolé,
D'um humilde conservo em conserva,
Acólito que repousa à sombra de vossa
complacente & rubicunda generosidade.
Meus melhores votos.
APENAS PARA CONSTAR NOS AUTOS
táqueos, mas - porra! - é preciso que os blógues sejam CONSTANTEMENTE desinteressantes? há alguma lei divina que os condene à eterna mesmice? o que leva uma pessoa (ou a traz) a escrever chatices num espaço público? e por que esses excessivos pontos de interrogação? grrrwwll