Padre Levedo
Terça-feira, Fevereiro 24, 2004
OLAVO DE CARVALHO

Meninas, eu pensava que nunca escreveria isso, mas OLAVO DE CARVALHO É MEU ÍDOLO! Leiam aqui o porquê.
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004
O CLÃ DOS BÓRGIA: UMA NOVELA ESPANHOLA RODADA NA ITÁLIA RENASCENTISTA

"Canta, musa, a infâmia da casa dos Bórgia"
- Jorge Luis Borges, de porre, citando um Homero imaginário

Se você não tem o menor interesse por História, é meu dever lhe comunicar que você está negligenciando uma fonte inesgotável de diversão. Eu sei, você ficou traumatizado com aquela professora déspota que lhe exigia datas e nomes e lugares, e pegou nojo da coisa. Não o culpo. É mais ou menos o que acontece com a Matemática: o assunto em si não é asqueroso, asqueroso é o modo como o ensinam. Creiam-me, crianças, a História é muito mais divertida do que vocês supõem.

Vamos hoje conhecer um sujeito chamado Rodrigo. Rodrigo Borja, nascido em 1431 na cidade de Jativa, uma delicada prega do Globo Terrestre perto de Valência, Espanha.

Rodrigo tinha tudo para ser um zé-ninguém na Grande Contabilidade do Universo, mas os Deuses não pensaram assim. Deram a ele um tio, Alfonso, também conhecido como Papa Calixto III, que conseguiu um empreguinho maneiro para ele, aos 25 anos de idade: Cardeal da Santa Igreja Católica. Rodrigo, então, se quedó en la gandaya, como se dizia naquela época. Com um cargo daqueles, jovem e cheio de dinheiro, só se preocupava com assuntos que não podiam exatamente se encaixar na categoria de "espirituais", como jogatina, bebedeira e Anatomia Comparada. A energia inesgotável do Cardeal, aliada à sua desinibição, o levaram a receber uma reprimenda do Papa Pio II, que sucedeu seu tio depois que este foi conhecer Iahveh pessoalmente. Pio disse pro Rodrigo: "rapaz, eu pensava que eu era um devasso condenado às profundezas do Sheol, mas você me ultrapassa!" Naqueles felizes tempos, bastava o sujeito ser qualquer coisa da Igreja Católica e a mulherada passava a achá-lo a criatura mais linda do mundo, mesmo que fosse, como o nosso querido Cardeal, feio como bater na mãe. Tanto exerceu o Conhecimento Carnal que fez uma penca de filhos antes e depois de assumir o Papado como Alexandre VI, em 1492. As crias de Rodrigo que nos interessam são Cesare, Giovanni e Lucrezia, figurinhas que se não tivessem existido de fato, bem que poderiam entrar de penetras em um texto do Nelson Rodrigues que ninguém ia perceber.

O ambicioso Cardeal, depois da morte de Inocêncio VIII - que havia sucedido Pio II, após este ter ido pros Quintos - estava calmamente pensando na vida enquanto passeava pelo jardim da sua casa. "Porco Dio, não posso me queixar da vida. Estou com sessentinha, meu cajado já consolou muita gente, tenho crias. Lucrezia faz o que eu mando; Giovanni está encaminhado; Cesare consegue ser ainda mais canalha do que o pai - me orgulho muito desse moleque. Por que será que ainda sinto um Vazio Interior? Putz, já sei! O que me falta é ser DEUS!"

E Rodrigo comprou os votos que o levariam ao cargo de DEUS - ou o que era mais próximo disso na Terra, o cargo de Papa - numa manobra que, ao contrário do que a Patuléia Ignara imagina, não se chama "roubalheira", mas "simonia". Eu sempre acreditei que "simonia" significava algo indecente praticado com uma menina chamada Simone, mas a palavra significa só "suborno". E Rodrigo, finalmente, se viu locupletado: riquíssimo, poderoso, canalhérrimo e DEUS, até prestar contas para o Titular do Cargo, em 1503.

Os Bórgia eram muito unidos. Muito unidos. Lucrezia, cuja beleza não se pode aquilatar pelas pinturas, pois todos os artistas eram puxa-sacos do Papa (e tinham motivos para isso, como veremos adiante) , transava com os irmãos e com o pai. Ela era uma espécie de canivete suíço da famiglia - sempre achavam alguma serventia para ela. Isso causou algum mal-estar na mente de Cesare, que se roía de ciúmes da irmã. Ele até que levava numa boa o fato de que Lucrezia dava pro papai de vez em quando - afinal, era amor de um pai pela sua filha. O que o incomodava era quando a irmãzinha e Giovanni, seu irmão, brincavam de médico. De nada adiantou Lucrezia repetir ad nauseum que Cesare era seu preferido: num belo dia, Giovanni foi encontrado boiando no rio Tibre, inflado como um calzone.

Cesare não era um sujeito conhecido pela sua tolerância, tanto que Maquiavel baseou-se nele para escrever aquele livrinho que deveria constar do Ensino Fundamental. Um dos muitos episódios que ilustram esse lado menos equilibrado do nosso querido Cesare envolveu um bardo contratado secretamente pelos Orsini para difamar a Honra da Impoluta Lucrezia. Os Orsini e os Bórgia não se bicavam desde que Rodrigo tinha comprado o Papado, frustrando os planos políticos deles, que tinham outro candidato. Pois bem, este bardo - um sem-noção full-contact - saía tocando seu alaúde pelas ruas de Roma cantando, em termos extremamente grosseiros, a imensa quilometragem da Lucrezia. Todos riam muito, até que um dia o bardo sumiu e, na porta da casa dos Orsini, apareceu depositado algo que, com muita imaginação, poderia talvez de longe lembrar os restos de um ser humano, junto com o chapéu do bardo.

Nesta ocasião, Cesare comentou casualmente: "esse povinho de Roma está muito mal acostumado a falar qualquer merda que lhes dá na telha. Eu vou lhes ensinar boas maneiras".

Lucrezia, aparentemente, era a menos canalha dos Bórgia, mas era cara-de-pau a mais não poder. Claro, da genética ninguém escapa. Para poder anular seu casamento com um tal de Sforza, que ela havia corneado com um criado - e engravidado dele! -, a moçoila apresentou-se, com um barrigão de seis meses mal-disfarçado por muitas anáguas, perante uma comissão de autoridades do Vaticano, alegando que era virgem e que, portanto, o maridón não dava no couro e o divórcio se fazia necessário. Ninguém da comissão ousou dizer A ou B - eram pessoas sensatas, como se vê -, e concordaram rapidamente com o anulamento do casório.

É vastíssimo o anedotário sobre esta ilustre família e sobre o Excelso Alexandre VI, e lamento só poder oferecer essas poucas notas. A vida destas pessoas resume, admiravelmente, grande parte da imundície moral, da sordidez e da velhacaria que o Espírito Humano pode abrigar. Mais do que meros personagens da História, Rodrigo, Cesare e Lucrezia são modelos nos quais todos devemos nos espelhar, para que um dia possamos nos livrar de todos os escrúpulos que entravam nosso progresso e, quiçá, cheguemos ao Papado. Pero con gandaya.