Padre Levedo
Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
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"Padre, o que o senhor acha que foi a origem do universo? Grata, Marilene."

Olha, Marilene, eu não gosto muito de responder perguntas óbvias como essas, mas no seu caso vou abrir uma exceção pois a foto que você mandou em anexo fez meu Santo Cajado trincar. Mas vamos logo à sua resposta.

Numa realidade paralela, em uma civilização que existe na Décima-primeira Dimensão, dois caras estavam fazendo Faculdade de Engenharia de DNA. É um curso daqueles meia-boca, que garante apenas um empreguinho que pague as contas. Eles estavam quase no fim do curso, e precisavam apresentar um trabalho de conclusão.

Claro que tudo isso se passou num tempo completamente diferente do nosso. Tem uma Teoria da Relatividade aí no meio, mas estou sem saco para explicar isso agora.

Pois bem, esse trabalho de conclusão precisava ser apresentado em duplas de alunos. Esses dois caras, AHTH e IHVH, resolvem fazer o trabalho juntos e, por um acaso, compram um Kinder Ovo cujo brinquedo que vem de brinde é um Kit de Formação de Universos. Lembre-se que estamos falando de seres muito mais evoluídos do que nós, e que contam com Kinder Ovos com
brinquedos bem mais avançados.

O problema é que os dois não curtiam muito esse negócio de estudar. O que eles gostavam mesmo era a pegação que rolava no Campus, a sinuca no meio da tarde, a cervejada do início da noite - enfim, universitários normais. Mas o prazo para apresentar o Universo que eles precisavam formar foi se esgotando.

IHVH era o mais inteligente dos dois, mas também era o mais baladeiro. Saía todas as noites e tomava uns porres que o deixavam troncho. Como o tempo foi passando e o projeto não andava, AHTH resolveu pelo menos começar alguma coisa, senão ia dar merda. Montou o Kit de Formação de Universos dentro de um aquário vazio que ele tinha no quarto, conectou ao computador e apertou o botão "Generate". Aí viu que tudo estava em ordem e começou a digitar os códigos de DNA que ele e IHVH tinham rabiscado num guardanapo de boteco, para que um dos planetas, aquele azulzinho simpático, pudesse ser populado pelas criaturas inventadas por eles.

No dia seguinte, IHVH estava na maior ressaca porém foi ver, a pedido de AHTH, como estava aquela bagaça. Chegou e foi conferir os números. Parou no meio, pegou o Microscópio Sub-Angstroniano e deu uma olhada na delicada esfera azul. Aí, ele, que não estava num bom dia, nem com o melhor dos humores, deu o esporro:

- Táqueos, AHTH, cê é mó nó cego, caraio!

E o outro, sem entender nada:

- Cumassim? Que qui tá errado aí, porra?

- Isso não vai passar nem fudendo. Esta droga tá muito simples, isso é coisa de principiante! E agora, o que a gente faz com essa porcaria?

- Xá cumigo. - E AHTH futucou o nariz, tirou uma bolinha de meleca e jogou, com pontaria precisa, na pequena esfera azul, exterminando todas as criaturas que foram criadas por engano.

Então IHVH pediu pro AHTH ir comprar mais cerveja e começou tudo de novo, muito puto da cara, digitando os DNAs certos. Ou, melhor dizendo, o que ele achava que eram os DNAs certos.

Se você julga que esta explicação é muito bizarra, e que ninguém em sã consciência acreditaria nisto, tente as outras explicações oferecidas por aí. Boa Sorte.
OH, DIAS FELIZES

Comemore cada conquista. Até aquelas insignificantes. Mesmo porque talvez você só conseguirá este tipo de conquista durante sua vida.
Sábado, Janeiro 15, 2005
ATITUDE É TUDO

O Gustavo era apenas mais um Jovem Empreendedor, daqueles que passariam com um trator sobre a mãe, se isto fosse necessário para alcançar o seu objetivo. Que obviamente era entupir o rabo de dinheiro. Uma figurinha extremamente comum, como podemos perceber.

O seu negócio era software. Começou fazendo uns programinhas e, quando viu, tinha uma carteira de meia-dúzia de clientes e estava na hora de expandir. Contratou gente, contraiu dívidas, aumentou a carteira de clientes, pagou as dívidas e sua empresa começou a andar suave.

A sorte lhe sorriu no dia em que conseguiu marcar, com uns figurões lá de Brasília, uma demonstração do software que fabricava. O contrato, se aprovado e firmado, era algo que faria qualquer Empresário ter Orgasmos Múltiplos. O filé era tão suculento que ele mesmo decidiu ir até lá apresentar o sistema para o grupo de burocratas.

Chegou no aeroporto, pegou o táxi e foi até o prédio da Esplanada. Foi recebido por um Barnabé-Mirim[1] que o levou até um Barnabé-Açu, o cara do qual dependia a Grande Decisão. Apertos de mão, cafezinho, e o levaram para a sala de reuniões. Ele acertou as coisas no notebook e, como faltava um tempo pro início da reunião, foi até o banheiro.

Chegou lá e começou a fazer o seu xixi, repassando mentalmente todo o roteiro que tinha planejado para enrolar os Enrolões. Neste ponto, ele percebeu que havia a necessidade de expulsar uma pequena quantidade de gases que estavam lhe causando um certo desconforto no ventre.

Ao iniciar o Êxodo Gasoso, Gustavo cometeu dois erros, um de avaliação e um de administração, a saber:

1. Os gases não eram exatamente gases;

2. O reverso da turbina traseira não foi acionado a tempo.

Enfim, ele borrou-se de escorrer pelas pernas. São nessas ocasiões em especial que refletimos profundamente sobre a Transitoriedade da Existência, o Sentido da Vida e se Deus tem alguma coisa contra nós.

Entrando num reservado, tratou de aquilatar os estragos daquele Tsunami intestinal. Desvestiu a calça e a cueca. Esta última, que de impecavelmente branca havia se transformado numa tela de Pollock, foi descartada. A calça, que não podia seguir o mesmo destino, e que providencialmente era preta, sofreu uma tentativa de limpeza com papel que só agravou a situação.

A coisa mais sensata a fazer era lavar a calça. Foi o que fez o Gustavo. Com cautela, saiu do reservado e dirigiu-se à pia. Usou bastante sabonete líquido, esfregou bem e lavou a calça rapidamente. Por sorte, o banheiro tinha aqueles aparelhos para secar as mãos que tem um jato de ar quente bem forte. Ele estava segurando a calça debaixo do aparelho, nu da cintura para baixo, quando a porta do banheiro abriu e o Barnabé-Açu adentrou o recinto.

A cena que se podia ver é provavelmente o “worst case scenario” que alguém preocupado com o marketing pessoal possa imaginar. Confesso que entendo pouco de Marketing, mas presumo que mostrar a bunda para um cliente em potencial só funciona em alguns Nichos de Mercado bem específicos, o que definitivamente não era o caso.

O Figurão passou calmamente ao lado do Gustavo e foi fazer xixi. Terminou, foi lavar as mãos e enquanto isso olhou pelo espelho.

- Está tudo bem com você?

E ele, sem alterar a expressão compenetradíssima do rosto e ainda mantendo a calça a secar debaixo do aparelho:

- Tudo bem. Vou iniciar a apresentação daqui a dez minutos, no horário.

Não conseguiu fechar o contrato, não se sabe exatamente por que. Mas, a partir daquele dia, passou a levar uma calça e uma cueca de backup na maleta do notebook.

[1] “Barnabé” = Funcionário Público. Na Taxiologia, é uma forma de vida situada entre a muquirana e o tubarão.

Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
PEQUENAS IMENSAS VERDADES

Eu gosto demais do trabalho do André Dahmer, o cara que faz os Malvados. Topei esses dias com a seguinte frase (não sei se é dele, mas não me lembro de ter lido em qualquer outro lugar): "A vantagem de ficar velho é que ninguém mais quer falar com você". Crianças, fiquei comovido com a verdade em estado bruto contida nesta frase.