Padre Levedo
Segunda-feira, Agosto 22, 2005
DOS USOS RECREATIVOS DA NOZ-MOSCADA

O Mundo inteiro deve muito à Itália, gastronomicamente falando. A Civilização, tal qual nós a conhecemos, não seria a mesma sem a Lasanha, o Carpaccio, a Pizza, a Fogazza e outras gostosuras que tornam esta Jornada Terrestre um pouco menos Penosa. É impossível encarar com pessimismo a Vida depois de um Gnocchi aos 4 queijos escoltado por um bom Barolo. Não falo da "Alta Culinária Italiana", que se encarregou de afrescalhar e encarecer coisas tão prosaicas como uma Polenta ao Funghi. Falo da comida caseira, aquela que se pode encontrar, por exemplo, numa modesta Cantina, ou preparada por aquela tia que tem o Dom da Coisa.

Tortelli são delicados pasteizinhos de abóbora cozidos no brodo e cobertos com um molho sutil, que não sufoque o seu sabor. Tomates com frango desfiado e cebola, por exemplo. Graças aos Céus, esta é a especialidade da Noviça Beth, que como toda Mulher de Caráter, adora pilotar um fogão e não se envergonha disto.

Estes dias ela preparou uma travessa Pantagruélica de Tortelli por ocasião do Aniversário do Duce. Nos cálices, um Tinto Honesto enviado diretamente das adegas do Padre Giovanni, de Nápoles. Coloquei um CD do Pepino di Capri para dar aquele clima e comemos, longa e fartamente, discorrendo sobre o Mito da Cocanha e os Pintores Renascentistas.

Esqueci de dizer que na massa que recheia os Tortelli não pode faltar um ingrediente, sem o qual o acepipe fica totalmente desvirtuado: a Noz-Moscada. Todo mundo sabe, ou deveria saber, que a Noz-Moscada, além de dar um toque exótico às comidas e às bebidas (especialmente o Bloody Mary), possui um leve efeito alucinógeno, dependendo da quantidade. Como sempre gostei de comidas bem condimentadas, pedi para a Beth carregar bem na Noz.

Depois de nos fartarmos à larga, bateu aquele agradável sentimento de que, afinal de contas, a vida não é tão Trágica assim. O jantar foi arrematado com um expresso e um Amaretto, seguido de um filme do Ettore Scola. Após isso, fui conduzido ao Santo Leito pelas Noviças, que insistiram em Atividades Recreativas Ecumênicas até às 2 da Matina. Então, já um pouco desgastado pelo Dispêndio de Energia, adormeci.

A estrada era rústica e ladeada por árvores bem antigas. Caminhava por ela, através de uma luz fragmentada que cobria o chão com claros mosaicos aleatórios. Enigmaticamente, eu tinha certeza que era uma Quarta-Feira. Em uma das árvores, vi um papel dependurado num prego. Me aproximei e pude ler: "você está se divertindo?", escrito em MS Sans Serif tamanho 18. Prossegui no caminho e enxerguei, ao longe, uma espécie de quiosque precário, com banquinhos junto ao balcão, onde algumas pessoas estavam conversando animadamente. Quando cheguei perto, vi que eram o Chacrinha, o Ultra-Man e Herbert Von Karajan, bebendo o que me pareceu Fanta Uva e comendo Doritos sabor Queijo Nacho. Passei ao largo do quiosque, acenando de leve com a cabeça, e o Chacrinha deu uma buzinada, provocando amistosas gargalhadas.

Após caminhar um tempo, a estrada começou a ficar inclinada e áspera, e as árvores foram sumindo. O caminho foi se estreitando até que cheguei a uma ponte pênsil sobre um penhasco. Do outro lado da ponte, havia uma casinha debruçada no vazio, toda construída de materiais reciclados, como garrafas PET, edições antigas da revista "Contigo" e latas de ervilha.

Atravessei a ponte e bati na porta da casinha. Tinha certeza que havia alguém lá dentro, pois da pequena chaminé se erguia um fio de fumaça que se dissolvia no céu cinzento. "Já vai, caraio!", uma voz distante soou. Ouvi uns resmungos e a porta se abriu, e lá estava Swedenborg, do alto dos seus noventa e poucos anos, encarquilhado, o rosto manchado pela idade. "Ah, é você, Levedo! Entra aí".

A casinha tinha um cômodo só e pouquíssimos móveis. Um aroma um tanto pesado de cravo impregnava tudo. Swedenborg me apontou a mesinha e nos sentamos para um chá. "Então, Mané, quer dizer que aqui do outro lado a coisa é assim, bem do jeito que você falou?", perguntei. Ele me olhou com um misto de fastio e pena: "É, eu sempre estive certo. Neguinho só não me internou porque eu tinha amigos importantes, mas é exatamente como eu disse. Cada um faz o que quer, por aqui. Como do outro lado, as pessoas acabam encontrando a sua turma e ficam juntos por afinidade."

Um silêncio acompanhou minha meditação sobre as implicações daquele fato. Emanuel bebeu ruidosamente seu Earl Gray e mordiscou um biscoito, olhando pensativo pela janela. Tomei coragem: "Tá, entendi, mas me conta uma coisa: cadê o pessoal de Brasília?"

Ele deu um leve sorriso e disse: "Olha, eu saio pouco de casa. A última vez que os vi, estavam tentando convencer um bando de vacas a entrarem numa sociedade para abrir um curtume".
Sexta-feira, Agosto 05, 2005
MAIS UM E-MAIL QUE ATERRISOU

Parece que o pessoal anda achando que minha caixa de e-mail é a casa da mãe Joana. Vejam o que um tal de Anderson mandou pra mim:

VALE A PENA LER....KKKKKKKKKKKKKKKKK

Vejam as orientações sexuais contida na cartilha de
ensinamentos para casais da IGREJA UNIVERSAL DO REINO
DE DEUS.
Parece até piada:
LEIA ATÉ O FIM!!! CARTILHA DE ENSINAMENTOS DA IGREJA
UNIVERSAL DO REINO DE DEUS EM TODO MUNDO PARA CONTROLE
DA "LIBERTINAGEM SEXUAL": Cartilha contra a
libertinagem sexual, retirada do livro "Castigo
Divino".
Vejam os comentários sobre o pecado das seguintes
posições sexuais:

Posição Cachorrinho - É uma das posições mais
humilhantes para a mulher, pois ela fica prostrada
como um animal enquanto seu parceiro ajoelhado a
penetra. Animais são seres que não possuem
espírito,então o homem que faz o cachorrinho com sua
parceira, fica com sua alma amaldiçoada e fétida.


Posição Chupetinha - O prazer de levar um órgão sexual
a boca é condenado pelas leis divinas. A boca foi
feita para falar e ingerir alimentos e a língua para
apreciar os sabores. A mulher engolindo o sêmen não
vai ter filhos. E o homem somente sentirá dores
musculares
na língua ao sugar a vagina de sua parceira.

Posição Sodomia - O ânus é sujo, fétido e possui em
suas paredes milhões de bactérias. É o esgoto
propriamente dito. No esgoto só existe ratos,baratas e
mendigos. A pessoa que sodomisa ou é sodomisada se
iguala a um rato pestilento. Seu espírito permanece
imundo e amaldiçoado. Mas o pior é quando o ato é
homossexual, pois o passaporte dessa infeliz criatura
já está carimbado nos confins do inferno. Vejam a
maneira certa de se relacionar sexualmente com sua
parceira,segundo a cartilha:

Posição Coito (Papai-Mamãe) - O homem e a mulher devem
lavar suas partes com 1 litro de água corrente
misturado com uma colher de vinagre e outra de sal
grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e
esperar o membro enrijecido do seu parceiro para
iniciar a penetração. O homem após penetrar a mulher,
não deve encostar seu peito nos seios dela, deve
manter uma distância pois a fêmea deve estar rezando
aos santos para que seu óvulo esteja sadio ao
encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os
dois devem rezar, pedindo perdão pelo prazer proibido
do orgasmo. Como penitência, o açoite com vara de
bambu é aceito como forma de purificação.

Só posso concluir duas coisas:
Nos veremos todos no inferno, ou...vai faltar bambu!
SOBRE OS LIVROS

Contar boas histórias é uma habilidade rara. Recentemente comprei uma penca de pocket books que variavam de Nietzsche à Fante e não obtive nenhum prazer lendo os livrinhos. Neste ponto, sou um hedonista de carteirinha: não vejo justificativa no ato de ler a não ser a satisfação pessoal. Se não rolar alguma espécie de tesão intelectual, desisto na hora. Talvez já tenha lido livros demais e assistido muito pouco a MTV. Graças a Deus, não descuidei das atividades recreativas que envolvem troca de secreções corporais. Nem tudo está perdido. Mas, caramba, está cada vez mais difícil achar livros bons. Sinceramente não sei se estou me tornando um rabugento ou um pedante, ou simplesmente um cínico, mas tá difícil encontrar gente que tenha o que dizer. Não falo dos clássicos, que são como que Deus falando através das suas Criaturas, mas dos contemporâneos, que são, puxa, tão pequeninos. Tão pequeninos.
Terça-feira, Agosto 02, 2005
CAIU NA MINHA CAIXA DE E-MAIL: A FORMIGA FELIZ

Todos os dias, bem cedinho, a Formiga produtiva e feliz chegava ao escritório. Ali transcorria os seus dias, trabalhando e cantarolando uma velha canção de amor.

Era produtiva e feliz,mas não era supervisionada. O Marimbondo, gerente geral, considerou o fato impossível e criou um cargo de supervisor, no qual colocaram uma Barata com muita experiência.

A primeira preocupação da Barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída, além de preparar belíssimos relatórios.

Bem depressa se fez necessária uma secretária para ajudar a preparar os relatórios e, portanto, empregaram uma Aranhinha, que organizou os arquivos e se ocupou do telefone.

Enquanto isso, a Formiga produtiva e feliz trabalhava e trabalhava.

O Marimbondo, gerente geral, estava encantado com os relatórios da Barata e terminou por pedir também quadros comparativos e gráficos, indicadores de gestão e análise das tendências.

Foi, então, necessário empregar uma Mosca ajudante do supervisor, e foi preciso um novo computador com impressora colorida.

Logo a Formiga produtiva e feliz parou de cantarolar as suas melodias e começou a lamentar-se de toda aquela movimentação de papéis que tinha de ser feita.

O Marimbondo, gerente geral, concluiu, portanto, que era o momento de adotar medidas: - Criaram a posição de gestor da área onde a Formiga produtiva e feliz trabalhava.

O cargo foi dado a uma Cigarra, que mandou colocar carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial.

A nova gestora de área - claro - precisou de um computador novo e quando se tem mais do que um computador, a Internet se faz necessária.A nova gestora logo precisou de um assistente (Rêmora, que já era sua assistente na empresa anterior)para ajudá-la a preparar o plano estratégico e o orçamento para a área onde trabalhava a Formiga produtiva e feliz.

A Formiga já não cantarolava mais, e cada dia se tornava mais irascível.

- "Precisaremos pagar para que seja feito um estudo sobre o ambiente de trabalho um dia desses", disse a Cigarra.

Mas um dia, o gerente geral - ao rever as cifras se deu conta de que a unidade na qual a Formiga produtiva e feliz trabalhava não rendia muito mais. E assim contratou a Coruja, consultora prestigiada, para que fizesse um diagnóstico da situação.

A Coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um relatório brilhante com vários volumes e de "vários" milhões de euros, que concluía: "Há muitas pessoas nesta empresa".

E assim, o gerente geral seguiu o conselho da consultora e demitiu a Formiga aborrecida, que antes era produtiva e feliz.
Segunda-feira, Agosto 01, 2005
UMA QUESTÃO PERTINENTE QUE NÃO QUER CALAR

Se o Visconde de Sabugosa fosse a uma Festa Junina e saboreasse uma Pamonha, isso poderia ser considerado Canibalismo? Ou Vegetalismo, se preferirem?