Padre Levedo
Quarta-feira, Julho 26, 2006
O GAÚCHO E O TEXANO - fábula moderna multidimensional

Antes que algum boi-corneta me acuse de plágio - de longe a acusação mais difundida nestes tempos em que qualquer Pedro Bó consulta o Google e, com indisfarçável alegria, berra: isso você pegou de fulano! -, declaro que esta estória não é original. Eu a li não sei onde. E não sei onde mesmo, talvez porque leia tanto e tantas coisas diferentes que não me preocupo em guardar datas e nomes. Por medo de que esta informação inútil sobreponha informações mais úteis em meu abarrotado cérebro, tais como a senha do meu cartão do banco, meu CPF e como se faz o Candelabro Holandês.

Isto posto, podemos adentrar a fábula, que ao mesmo tempo é um fato ocorrido (dizem), o que dá no mesmo. (pois qual a diferença entre um sonho e o passado? As cicatrizes, certamente!)

Então. Por um destes programas de intercâmbio entre pecuaristas do Mundo, um Texano foi parar no Rio Grande do Sul, para observar In Loco como os gaúchos tratavam os boizinhos na Pecuária Extensiva. Foi para uma estância lá no meio do nada que chamam de Pampa, observar o horizonte longínquo e entediar-se com as distâncias, o calor e as moscas.

Na pausa necessária do meio-dia, onde só os cachorros loucos saem ao sol, foram para o galpão comer a carne assada, o aipim cozido e o arroz com charque. Sentaram-se nos banquinhos para o mate e a canha que abrem o apetite.

Foi aí que o Texano, um sujeito alto e sólido e aparentando durabilidade, reparou que os banquinhos nos quais eles repousavam seus respeitáveis traseiros tinham apenas três pernas. Riu-se o gringo, comentando com malícia que os banquinhos de quatro pernas - sinal de modernidade - ainda não haviam chegado àquele Rincão escondido. E perguntou, com mais malícia ainda, se era por preguiça que os banquinhos ali tinham apenas três pernas.

O Estancianeiro, cujo rosto era escuro e imóvel e marcado como a casca de uma árvore velha, ignorou a provocação. Fez vir da Casa um banquinho de quatro pernas, enquanto bebia o mate sem pressa. Ao chegar o banquinho, mostrou ao Texano:

"Nem por preguiça nem por ignorância os banquinhos aqui são de três pernas: mas se insiste, pode sentar neste!"

O Texano sentou-se no banquinho recém-trazido e não havia jeito: no chão irregular do galpão, em qualquer lugar onde o banquinho era colocado, sempre uma das pernas ficava bambeando no ar, sem ter onde se apoiar.

Após o ocorrido, o Texano agradeceu e voltou ao seu Torrão Natal. Não aproveitou muito do que viu sobre Pecuária Extensiva, mas ordenou que no seu Ranch, a partir daquele dia, somente haveria banquinhos de três pernas.

Morais da estória:

- Três pontos, em um espaço tridimensional, sempre estão num mesmo plano. O que não vale para n > 3 pontos.
- Texanos não conhecem muito de Geometria Analítica.
- Gaúchos também não, mas são mais empíricos.
- Por mais ignorante que uma pessoa pareça, ela sempre sabe pelo menos uma coisa que você não sabe.
- Em terreno irregular, sempre peça para a sua namorada ficar de três. Dá uma base de apoio mais estável.