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O SEGREDO DA FELICIDADE
Existiu certa vez um jovem de alma bastante inquieta, que queria saber o Segredo da Felicidade. Imbuído do Espírito da Busca, ele afogou-se nas leituras, entediou-se nas conversas com os filósofos, prostrou-se de tanto meditar. Quando, por pura exaustão, estava prestes a desistir daquela procura infrutífera, alguém lhe contou de um velho sábio eremita que - diziam - sabia qual era o Segredo da Felicidade.
O problema é que este sábio morava em uma caverna no alto de uma enorme montanha. Sem desanimar por isso, lá foi o jovem ao encontro do velho eremita.
Bem, o jovem quase perdeu a vida na escalada dificílima da montanha. Chegou à caverna do sábio meio morto, é verdade, mas depois de receber os cuidados do velho por três dias e três noites, sentiu-se melhor e perguntou ao sábio:
- Mestre, eu vim até aqui para lhe perguntar apenas uma coisa: qual é o Segredo para se obter Felicidade em Abundância?
O velho coçou a barba, olhou bem firme nos olhos do rapaz e falou solenemente:
- Sexo... Muito sexo desvairado com mulheres lindas e bêbadas... Champanhe e morangos no café da manhã... Carros esportivos... Drogas alucinógenas... Filmes do Monty Python... Rock dos anos 60... Cervejas Belgas... Tudo isto propicia Felicidade em Abundância.
O jovem, muito espantado, exclamou:
- Mas, ó Sábio, não compreendo! Tudo isto faz parte do Segredo da Felicidade, entretanto aqui você vive em completo isolamento, sem nenhuma destas coisas!
E o sábio, mais solene ainda, respondeu:
- Mas quem lhe disse que eu sou feliz?
Morais da estória
- Entre saber e fazer, há toda a distância do mundo.
- Às vezes, a Verdade é tão óbvia que não a enxergamos.
- Não leia muito. Você corre o risco de se tornar um tapado.
KASHMIR
O mundo, tal como nós o conhecemos, é um amontoado de mentiras muito mal disfarçadas. Os orientais dão a isto o nome de "maya", ou seja, "ilusão". Basta um caboclo qualquer assistir a todo um horário de propaganda eleitoral gratuita que se convencerá, além de qualquer dúvida, de que vive em um mundo onde impera a ilusão. Mas não era disso que eu queria falar.
Em 1971 John McLaughlin lançava o primeiro album da Mahavishnu Orchestra, banda que seria o modelo para todas as demais bandas de fusion, um estilo que ninguém até hoje conseguiu definir. Muito jazz para ser chamado de rock; muito rock para ser chamado de jazz, e por aí seguiu a controvérsia.
Mas, quem dá bola para isso? O que importa é que estou postando "The Dance Of Maya", e a senha do arquivo é o título deste post. Ouça até ver estrelas. Lembre-se, a música é de 1971.
SHAKESPEARE
Esses dias, folheando uma revista de decoração, deparei-me com uma sala na qual uma parede, de alto teto, ostentava a transcrição de um medonho texto edulcorado, inacreditavelmente atribuído a Shakespeare, que circula faz algum tempo pela Grande Rede.
Creio que vocês sabem do que estou falando.
Eu até compreendo que uma desgraçada adolescente que nunca abriu um livro, apenas as pernas e os favoritos do MSN, possa comprar jumento por lebre e acreditar, numa branca inocência de inseto, que parvoíces iguais àquelas pudessem, em tempo algum, provir do Imortal Bardo.
Mas, de uma mulher que se diz arquiteta? Ou - talvez - eu esteja levando muito à sério as arquitetas?
Ou as mulheres?
Well, para relaxar, demonstrarei num pequeno soneto de Shakespeare como é distante o estilo de uma pessoa imbuída de alguma missão - qualquer que seja ela - e o de alguma caipira que achou algo "bonitinho" na internet. E, pior ou melhor - depende do seu ponto de vista -, vende salas com aquela merda reproduzida nas paredes. E com o autor errado.
CXXI
'Tis better to be vile than vile esteem'd,
When not to be receives reproach of being;
And the just pleasure lost, which is so deem'd
Not by our feeling, but others' seeing:
For why should others' false adulterate eyes
Give salutation to my sportive blood?
Or on my frailties why are frailer spies,
Which in their wills count bad what I think good?
No, I am that I am, and they that level
At my abuses reckon up their own:
I may be straight though they themselves be bevel
By their rank thoughts my deeds must not be shown;
Unless this general evil they mantain,
All men are bad and in their badness reign.
121
Melhor ser vil do que por vil ser tido,
Quando se acusa a quem não é de o ser;
E um justo prazer morre, envilecido,
Não por nós, mas por quem assim quer ver.
Por que um olhar adulterado iria
Louvar-me o sangue de impulsivo tom,
Ou se sou fraco, algum mais fraco espia,
Vir dar por mau o que eu pretendo bom?
Não, sou o que sou; quem achar iníqüos
Os meus abusos, fala pelos seus:
Posso ser reto, já que são oblíqüos,
Não vê a mente espúria os feitos meus;
A menos que a sentença seja vera,
De que todos são maus e o mal impera.